Noite Sombria começa com uma fotografia. Um pai segura nas mãos a imagem do filho morto ao lado de dois amigos que não foram ao enterro. Daí em diante o longa de estreia do diretor Yoon Sung-hyun, originalmente concebido como trabalho de conclusão de curso na Academia Coreana de Artes do Cinema (KAFA) transforma o luto em interrogatório. A pergunta que move a narrativa é aparentemente simples: o que aconteceu com Ki-Tae (Lee Je-hoon)? Mas o filme não faz nenhum esforço para facilitar a resposta.
Esse é o primeiro ponto de atrito entre o espectador e o filme. A montagem não linear de Yoon constrói um ambiente de suspense que imita, deliberadamente, o funcionamento de uma investigação policial – fragmentada, confusa, cheia de lacunas. Só que essa escolha carrega um efeito colateral: nunca se sabe, de verdade, o que exatamente aconteceu a Ki-Tae. Existe uma possibilidade, quase tomada como verdade no final, mas a narrativa brinca com a ambiguidade ao ponto de o espectador, em certos momentos, questionar se houve algo mais. Esse recurso, mais do que uma falha estrutural, é um espelho da própria condição dos personagens: ninguém parece saber, de fato, quem Ki-Tae era.
A câmera na mão percorre Seul de uma maneira que o turismo jamais mostraria. Não há neon, não há a Seul estilizada e reluzente dos dramas televisivos. O que Yoon entrega é uma cidade cinza, de blocos de apartamentos empilhados, onde os jovens habitam espaços vazios com uma mistura de arrogância e desamparo. A fotografia opera com sobriedade – tons apagados, luz difusa, quadros que parecem sempre a ponto de perder o foco. O filme recusa deliberadamente ser belo, nessa estética que, paradoxalmente, a torna muito mais densa. É o tipo de visão que aproxima o filme do realismo social britânico, sem que isso soe como rótulo preguiçoso.

Lee Je-hoon, no papel de Ki-Tae, carrega o filme com uma presença que oscila entre a intimidação física e uma vulnerabilidade mal enterrada. Seu personagem é o típico antagonista que o cinema coreano evita reduzir ao estereótipo: é violento, sim, é manipulador, é capaz de extrair dos amigos uma lealdade que beira o medo. Mas também é, fundamentalmente, um garoto que vai para casa e faz macarrão instantâneo sozinho. Esse detalhe, aparentemente banal – ele mesmo o diz em voz alta a um dos amigos –, sintetiza tudo que o filme deseja dizer sobre a solidão mascarada de domínio. O valentão como produto de um vazio afetivo que jamais soube nomear.
O roteiro trabalha com uma estratégia de repetição que cansa. As mesmas cenas de tensão são revisitadas por ângulos ligeiramente distintos, cada vez que um novo depoimento é apresentado ao pai. A intenção é de mostrar como a memória é sempre parcial, sempre interessada, sempre incompleta. Mas o efeito prático é que o ritmo se arrasta durante boa parte da projeção, e o engajamento emocional oscila. Há momentos em que o filme parece maior do que precisa ser – como se o material coubesse melhor num formato mais enxuto.
O que não vacila, em nenhum momento, é a atmosfera. Existe uma sensação constante de que nenhum daqueles garotos está seguro – nem Ki-Tae, nem Hee-jun (Park Jung-min), nem Dong Yoon (Seo Jun-young). O perigo não é externo, não vem de fora do grupo. Ele emana do próprio vínculo entre eles, de uma amizade que foi, em algum ponto, real demais para sobreviver ao que cada um carregava. A trilha sonora – ou a ausência estratégica dela – contribui para essa tensão. O silêncio é usado como instrumento, e quando a música aparece, é sempre como uma intromissão delicada, quase um estorvo ao peso das cenas.

A cena final – sem revelações aqui – é o momento em que Noite Sombria honra tudo o que prometeu e não entregou ao longo do caminho. Elegante e econômica. Um sorriso que encerra sem resolver, embora é uma maneira eficaz de contrapor o que sugere. É o tipo de conclusão que justifica a espera e, ao mesmo tempo, levanta uma questão: e se o restante do filme fosse tão preciso quanto esse encerramento?
Quem era Ki-Tae? O pai não descobre. O espectador tampouco. Talvez os próprios amigos nunca tenham sabido. E essa ignorância compartilhada, esse não-saber que atravessa o longa do início ao fim, é o argumento mais honesto que o filme apresenta sobre o luto, sobre a amizade e sobre os limites do que podemos conhecer de quem está ao nosso lado.
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