Crítica | 'No Good Men' usa o jornalismo e até o humor para questionar se existem homens bons no Afeganistão
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Crítica | ‘No Good Men’ usa o jornalismo e até o humor para questionar se existem homens bons no Afeganistão

“Não existem homens bons”. A tradução direto do título do longa, No Good Men, nasce como uma acusação, quase como uma sentença sobre a masculinidade, mas o filme de Shahrbanoo Sadat prefere transformar essa frase em uma provocação. O que significa ser bom quando a bondade aparece apenas em momentos específicos? Um homem que protege uma mulher em perigo pode ser considerado virtuoso se falhou em proteger aqueles que estavam ao seu lado antes? Um gesto de coragem consegue reorganizar uma história inteira de ausências?

Assinando o roteiro e direção, Sadat constrói um território de contradições, onde personagens e país parecem refletir as mesmas instabilidades. O Afeganistão de 2021, atravessado por conflitos políticos, ameaças terroristas e pela iminente mudança de poder, surge não apenas como cenário, mas como uma extensão emocional das pessoas que circulam por ele. A desordem externa encontra correspondência dentro das relações íntimas.

A escolha de abrir a narrativa com uma reportagem aparentemente simples sobre o Dia dos Namorados é uma das primeiras demonstrações da inteligência do roteiro. A entrevista conduzida pela jornalista Naru (interpretada pela própria Shahrbanoo Sadat) começa dentro da lógica do jornalismo cotidiano, buscando respostas banais sobre amor e casamento, mas logo revela algo maior. Nessa sociedade marcada por convenções patriarcais, falar sobre relacionamento é também falar sobre propriedade, escolha e liberdade. A pergunta sobre um casamento feito por amor ou por obrigação familiar é uma investigação sobre quem realmente possui o direito de decidir sobre a própria vida.

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Essa transição entre o banal e o político é uma das características mais interessantes do filme. Sadat compreende que grandes estruturas de poder não existem apenas nos discursos oficiais ou nos gabinetes dos governantes; elas aparecem em conversas domésticas, em piadas, nos conselhos dados às mulheres e nas expectativas depositadas sobre os homens. Uma entrevista de televisão pode revelar tanto sobre um país quanto uma explosão nas ruas.

A câmera acompanha essa ideia com uma proximidade quase documental. A fotografia aposta em uma estética de observação, com movimentos discretos e uma textura que aproxima o espectador da rotina dos personagens. Não existe uma tentativa de transformar o Afeganistão em uma paisagem exótica de sofrimento, nem de enquadrar suas personagens como vítimas sem individualidade. A câmera permanece próxima porque quer ouvir, não apenas registrar. Ela acompanha corpos em movimento, olhares e pequenos instantes em que a intimidade invade o espaço público.

A montagem segue esse mesmo princípio. O filme avança com uma energia nervosa, saltando entre situações com uma fluidez que reproduz a sensação de viver em um ambiente onde tudo pode mudar rapidamente. Uma cena de humor pode ser interrompida por uma ameaça; uma discussão familiar pode carregar consequências políticas. O cotidiano nunca está completamente separado do perigo.

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A trilha sonora, a fotografia naturalista e a construção quase jornalística da encenação trabalham juntas para criar uma experiência que parece simultaneamente urgente e íntima. Sadat filma a política através das pessoas, entendendo que nenhuma transformação social acontece apenas nas instituições. Ela acontece nas casas, nos relacionamentos, nos pequenos acordos e nas disputas silenciosas de todos os dias.

Nesse aspecto, o humor ocupa uma função essencial. No Good Men utiliza a comédia como uma ferramenta crítica. O absurdo das situações revela a própria irracionalidade das estruturas que os personagens enfrentam. Um programa de televisão que deveria informar transforma-se em palco de conflitos pessoais e políticos; uma discussão sobre comportamento feminino revela o quanto determinados discursos tentam controlar corpos e escolhas.

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A personagem de Naru também se beneficia dessa abordagem menos idealizada. Ela não é construída como uma heroína, uma figura destinada a representar todas as mulheres afegãs. O roteiro permite que ela seja impulsiva, vulnerável, contraditória e até injusta em alguns momentos. Existe uma humanidade importante nessa escolha. Sua luta por autonomia não acontece em uma linha reta, mas em meio a dúvidas e limitações. Ela não busca salvar um sistema inteiro; tenta encontrar espaço para existir dentro dele.

É justamente por isso que a trajetória de Anwar Hashimi como Quodrat se torna tão importante para o crescimento da protagonista. O personagem é construído em cima de uma transformação que parece, inicialmente, desafiar as expectativas. Um homem que carrega comportamentos associados ao machismo passa gradualmente a demonstrar cuidado, escuta e solidariedade. A questão é que o filme também revela o desconforto dessa mudança, a mesma pessoa capaz de oferecer apoio a uma mulher desconhecida é alguém que deixou marcas de ausência em sua própria família.

Sadat encontra aí uma das discussões mais complexas de sua obra. A bondade masculina pode existir sem necessariamente significar uma transformação completa? Ou a narrativa de redenção corre o risco de suavizar responsabilidades anteriores? O filme não transforma Quodrat em um monstro, mas também não permite que ele seja compreendido apenas como salvador. Ele existe nesse espaço instável entre o gesto admirável e a falha imperdoável.

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O problema e a riqueza do terceiro ato surgem exatamente dessa escolha. O sacrifício final do personagem possui uma força emocional evidente, mas também desloca parte da resolução para uma ação masculina. A mulher que passou boa parte da narrativa tentando construir sua própria independência encontra uma saída associada à mudança de um homem. Se a liberdade de Naru depende da existência de um homem disposto a protegê-la, quanto dessa liberdade realmente pertence a ela?

Essa ambiguidade é o que impede No Good Men de se tornar apenas um filme sobre homens bons ou homens ruins. A obra está mais interessada nos mecanismos que permitem que alguém seja as duas coisas ao mesmo tempo. O pai dedicado pode ser um marido ausente. O aliado pode carregar privilégios que nunca questionou. A vítima pode reproduzir padrões que também ferem outras pessoas. A complexidade humana aparece justamente onde as classificações começam a falhar.

O filme também ganha uma camada histórica inevitável quando observado a partir do destino recente das mulheres afegãs. Acompanhamos uma personagem lutando por direitos básicos – trabalhar, escolher, falar, existir publicamente –  enquanto a realidade posterior do país tornou essas conquistas ainda mais frágeis. É triste assistir a uma narrativa sobre possibilidades enquanto sabemos quantas delas foram interrompidas.

A maior provocação de No Good Men é… seu título. Não sabemos se existem homens bons do Afeganistão, mas se a ideia de bondade pode sobreviver quando examinada por todos os ângulos possíveis. O filme observa homens, mulheres e uma sociedade inteira tentando reorganizar seus valores enquanto tudo ao redor parece ruir. Nesse dicotomia da esperança parente as novas gerações e a desconfiança dos mais antigos, permanece a sensação de que mudar um país começa também pela difícil tarefa de mudar a forma como enxergamos uns aos outros.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.