Crítica | Em 'Homem-Aranha: Um Novo Dia' Peter tenta crescer, mas continua preso ao MCU
Sony Pictures/Divulgação

Crítica | Em ‘Homem-Aranha: Um Novo Dia’ Peter tenta crescer, mas continua preso ao MCU

Poucos verbos descrevem melhor Homem-Aranha: Um Novo Dia do que “tentar”. O filme tenta amadurecer um herói que sempre foi tratado como um adolescente na sombra de adultos superpoderosos. Tenta abandonar o gigantismo cósmico que sequestrou parte da identidade do personagem para recolocá-lo entre becos, apartamentos velhos e pequenos crimes de bairro. Tenta transformar depressão em linguagem visual. Tenta dialogar com o legado deixado por Sam Raimi sem o reproduzir integralmente. Tenta convencer o espectador de que este é, finalmente, o capítulo em que Peter Parker (Tom Holland) cresce. O problema talvez não esteja na quantidade de tentativas, mas na dificuldade de convertê-las.

Existe uma diferença importante entre intenção e realização. A primeira atravessa praticamente cada decisão tomada pela direção de Destin Daniel Cretton. A segunda oscila tanto que o longa parece constantemente dividido entre um drama melancólico e um produto industrial incapaz de abandonar os protocolos da Universo Cinematográfico Marvel (MCU). Em alguns momentos, ambos coexistem de maneira interessante. Em outros, um anula completamente o outro.

A escolha de iniciar a narrativa depois do apagamento coletivo da memória – consequência dos acontecimentos de “Homem-Aranha: Sem Volta para Casa” – oferece um terreno dramático dos mais férteis. Peter Parker abriu mão da própria existência social para proteger aqueles que ama. Não perdeu apenas um relacionamento. Perdeu seu lugar no mundo. O roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers entende que esse vazio poderia redefinir completamente a personalidade do personagem, aproximando-o muito mais de um jovem adulto deprimido do que do adolescente espirituoso das aventuras anteriores.

Essa é a principal novidade do longa. Pela primeira vez, Peter não enfrenta apenas um vilão; enfrenta a possibilidade de deixar de existir como indivíduo. Quanto mais sua vida pessoal desaparece, mais sobra apenas o Homem-Aranha. O roteiro estabelece essa relação de maneira quase literal quando as alterações emocionais começam a produzir consequências físicas: sentidos exacerbados, impulsividade, explosões de violência e um corpo que parece responder diretamente à deterioração psicológica.

Crítica | Em 'Homem-Aranha: Um Novo Dia' Peter tenta crescer, mas continua preso ao MCU
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A metáfora passa dificilmente despercebida. No início dos anos 2000 Raimi utilizou as transformações corporais do personagem como representação das inseguranças da juventude. As teias que deixavam de funcionar, os poderes instáveis e até os excessos do simbionte funcionavam como extensões do amadurecimento masculino. Cretton tenta estabelecer diálogo semelhante, substituindo a puberdade pela depressão. A diferença está menos na ideia do que na capacidade de transformá-la em linguagem cinematográfica. Raimi fazia seus conflitos existirem através da mise-en-scène. Aqui, eles dependem frequentemente de diálogos explicativos e de uma trilha sonora insistente em informar aquilo que a imagem não consegue comunicar sozinha.

Essa falta de confiança na força da encenação acompanha praticamente toda a direção. Cretton demonstra interesse evidente em imprimir personalidade visual ao projeto. A fotografia aposta numa Nova York permanentemente acinzentada, filtrando boa parte das cores vibrantes que marcaram os capítulos anteriores. A cidade parece mais fria, menos acolhedora, quase indiferente ao protagonista. Existe coerência estética nessa decisão, mas pouca invenção. A câmera pouco participa dos estados emocionais de Peter; limita-se a registrá-los.

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Quando a ação assume protagonismo, a irregularidade continua evidente. Algumas sequências aproveitam bem o deslocamento vertical do personagem e recuperam certa sensação de velocidade física que havia desaparecido nas últimas produções da Marvel. Outras retornam ao padrão de enquadramentos excessivamente fechados, cortes incessantes e computação gráfica diminuem o impacto. Não chega a ser um problema exclusivo deste filme, mas talvez seja um dos sintomas mais claros da dificuldade que o estúdio ainda demonstra em devolver peso às suas cenas de ação.

Essa irregularidade reforça justamente esse permanente esforço. O filme insiste em lembrar que o Homem-Aranha continua sendo o herói das ruas. Enquanto os Vingadores lidam com ameaças globais, Peter permanece combatendo criminosos comuns, protegendo bairros e resolvendo problemas menores. Essa é basicamente uma das funções das pequenas pontas da Viúva Negra (Florence Pugh), que verbaliza essa divisão diversas vezes, como se o roteiro precisasse reafirmar constantemente onde esse herói pertence.

A ironia é que o próprio filme parece desconfiar dessa proposta. Sempre que encontra conforto nas pequenas histórias, sente necessidade de ampliar sua escala narrativa. Novos personagens entram em cena – como as participações de Hulk e do Justiceiro –, conflitos paralelos surgem, participações especiais aparecem e o longa volta a carregar o peso de preparar capítulos futuros. Isso resulta em uma projeção que se aproxima de duas horas e meia sem jamais justificar plenamente sua duração. Não falta conteúdo. Falta seleção.

Essa dificuldade de síntese aparece até mesmo em aspectos aparentemente banais da construção do protagonista. Peter continua sendo apresentado como alguém sem emprego, que não estuda e praticamente sem qualquer fonte de renda. Ainda assim, vive cercado por computadores, equipamentos sofisticados, componentes eletrônicos e recursos suficientes para fabricar seus dispositivos tecnológicos.

Claro, dentro da lógica de qualquer filme de super-herói, isso não é um problema evidentemente. A questão não é lógica financeira, mas identidade dramática. Desde sua criação, o Homem-Aranha sempre foi definido tanto pela falta de dinheiro quanto pela abundância de responsabilidade. Essa pobreza nunca serviu apenas como detalhe biográfico; era um mecanismo de identificação. Ao suavizar esse aspecto, esta versão continua parecendo um Peter Parker que enfrenta dificuldades emocionais, mas raramente materiais.

Talvez por isso o desempenho de Tom Holland desperte impressões contraditórias. Existe, sem dúvida, um comprometimento maior do ator. Seu Peter fala menos, sorri menos e carrega um cansaço que nunca esteve presente dessa forma. É provavelmente sua atuação mais dramática desde que assumiu o uniforme. Ainda assim, a interpretação revela também seus limites. Holland entrega intensidade, mas nem sempre encontra profundidade. Em muitos momentos, parece interpretar a ideia de tristeza mais do que propriamente um personagem devastado por ela.

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Curiosamente, essa limitação aparece com mais clareza justamente nas cenas ao lado de Zendaya. A química entre ambos permanece um pequeno mistério. Fora das telas, formam um dos casais mais midiáticos de Hollywood. Dentro delas, existe correção, profissionalismo e afeto, mas nunca eletricidade. A dinâmica muda completamente quando Jacob Batalon (Ned) retorna à equação. Como trio, os três atores encontram um ritmo espontâneo que nunca se repete quando Peter e MJ dividem a cena sozinhos.

Crítica | Em 'Homem-Aranha: Um Novo Dia' Peter tenta crescer, mas continua preso ao MCU
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O elenco de apoio compreende melhor o tom proposto pelo diretor do que a própria narrativa. Exista uma naturalidade interessante nas pequenas interações urbanas, nos personagens secundários e até mesmo nas pausas de silêncio. Pena que o roteiro pouco confia nelas por muito tempo.

A trilha composta por Michael Giacchino segue essa mesma lógica. Funciona tecnicamente, acompanha os estados emocionais e dialoga com o restante da franquia, mas dificilmente produz uma identidade sonora memorável. O mais sintomático que, após quatro filmes protagonizados por esta versão do Homem-Aranha, poucos espectadores consigam reconhecer seu tema principal. As escolhas musicais licenciadas acabam deixando impressão muito mais forte. A abertura embalada pela divertida “Wolf Like Me”, do TV on the Radio, estabelece imediatamente um dinamismo que a partitura original jamais alcança.

Existe uma sequência próxima ao encerramento envolvendo a relação entre o Homem-Aranha e Nova York que sintetiza aquilo que o longa tem de mais sincero. Pela primeira vez, o filme abandona a obrigação de parecer importante para o futuro do universo compartilhado e simplesmente observa um herói tentando reencontrar seu lugar entre pessoas comuns. É um instante que emociona justamente porque resgata uma dimensão frequentemente esquecida pelo próprio MCU. Peter Parker nunca precisou salvar o universo para justificar sua existência.

Essa sensação, entretanto, dura pouco. Uma breve cena pós-créditos consegue desmontar parte desse percurso ao reafirmar exatamente a lógica industrial que o restante do filme parecia disposto a questionar. Não pela simples promessa de continuidade, mas pela maneira como reduz um arco emocional complexo a mais uma engrenagem em um mecanismo narrativo maior.

Essa é a contradição inevitável de Homem-Aranha: Um Novo Dia. Um filme que deseja ser estudo de personagem, mas nunca deixa de agir como plataforma de franquia. Que busca inspiração em Sam Raimi, mas nunca encontra a coragem formal que tornava aqueles filmes tão singulares. Que procura amadurecer Peter Parker enquanto permanece preso às exigências de um universo compartilhado incapaz de desacelerar. O esforço está por toda parte – na direção, no roteiro, na atuação de Holland, nas tentativas de tornar a linguagem mais melancólica, na vontade de recuperar um Homem-Aranha mais humano. Esforço, contudo, não produz automaticamente densidade. Às vezes, apenas evidencia a distância entre aquilo que um filme aspira alcançar e o lugar onde efetivamente consegue chegar.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.