A primeira cor que realmente invade Futuro Futuro não pertence ao mundo. Ela pertence à memória. Um vermelho intenso, artificial, quase orgânico, rompe a fotografia fria que domina o cotidiano do protagonista e contamina a tela com imagens incapazes de convencer plenamente. Rostos possuem detalhes demais e humanidade de menos. Arquiteturas parecem perfeitas até se tornarem estranhas. Corpos existem como aproximações da vida, nunca como sua materialização. Antes de qualquer diálogo sobre tecnologia, Davi Pretto estabelece uma gramática visual a partir daquilo que deveria representar lembranças nasce justamente do que não possui memória.
O universo do filme é uma cidade brasileira suspensa entre o reconhecível e o perturbador. Uma síndrome de causa ignorada apaga as memórias dos habitantes. O dinheiro sumiu, substituído por trocas informais. A polícia saqueia galões de água. Drones entregam comida. E a IA fabrica imagens para preencher as lacunas nas mentes esvaziadas. Nada disso é explicado com didatismo – o roteiro de Pretto prefere instaurar uma lógica atmosférica do que construir um manual de regras do mundo distópico. Às vezes essa escolha liberta. Às vezes cobra um preço.
Esse gesto carrega uma contradição evidente – e faz dela sua principal virtude. Futuro Futuro utiliza IA para construir uma crítica a um mundo em que a IA substitui a própria experiência humana. O filme denuncia a fabricação industrial da memória recorrendo exatamente ao mecanismo que pretende problematizar. A operação poderia soar incoerente; mas, de alguma forma, ela se transforma em comentário. Ao incorporar essas imagens ao tecido da narrativa, Pretto evidencia que a discussão sobre IA já não pode acontecer de fora. O cinema também foi atravessado por ela. A crítica precisa nascer contaminada pelo objeto que analisa.

Essa contaminação organiza toda a encenação. O universo cotidiano é dominado por cinzas, azuis esmaecidos, concreto e uma luz quase anestesiada. A fotografia transforma a cidade em um espaço suspenso entre abandono e permanência, como se tudo continuasse funcionando depois que o sentido desapareceu. Não há devastação espetacular, tampouco ruínas cinematográficas esperando ser admiradas. O colapso é cromático antes de ser físico. A vida perdeu saturação.
Quando a IA invade a narrativa, o vermelho assume a função oposta. Não representa calor nem vitalidade. Representa invasão. As lembranças artificiais interrompem constantemente o mundo concreto e introduzem imagens que jamais encontram repouso dentro da mise-en-scène. O vermelho torna-se a cor da fabricação, da manipulação e da falsa lembrança. Enquanto o azul anestesia, o vermelho infecta.
O dinheiro desaparece, mas a desigualdade continua intacta. A memória desaparece, mas novas tecnologias imediatamente ocupam esse vazio. A experiência desaparece, mas as imagens seguem sendo produzidas. Nada realmente termina. Tudo apenas muda de administrador.
O protagonista, K, interpretado por Zé Maria Pescador, ocupa precisamente esse intervalo. Seu nome reduzido a uma única letra insere imediatamente o personagem numa tradição existencialista que atravessa Kafka e Camus. O apagamento da identidade não constitui apenas um recurso narrativo; converte-se em condição política. K desconhece quem foi porque vive em um mundo onde lembrar deixou de ser um direito e passou a depender de uma tecnologia capaz de fabricar recordações sob demanda. Sua memória virou um serviço.

Esse deslocamento ganha outra camada quando o filme preserva seu sotaque nordestino dentro daquele espaço urbano sulista. Mesmo antes da amnésia coletiva, aquele corpo já carregava uma condição de estrangeiro. A perda da memória apenas radicaliza um desenraizamento que o Brasil conhece historicamente, o de sujeitos permanentemente deslocados dentro do próprio país.
O roteiro compreende que explicar demais significaria enfraquecer essa experiência. Não há algum interesse em construir uma ficção científica preocupada com mecanismos, corporações ou teorias conspiratórias. O funcionamento daquele universo importa menos do que seus efeitos sobre quem o habita. O vazio narrativo deixa de representar ausência de informação e passa a reproduzir a própria condição existencial do protagonista. O espectador experimenta a mesma falta de referências que organiza a caminhada de K.
Essa escolha produz os momentos mais ricos do longa justamente porque desloca a ficção científica para um campo raramente explorado pelo gênero brasileiro: a erosão da percepção. Os dispositivos espalhados pelo filme jamais despertam fascínio. Produzem apenas dependência, repetição e esvaziamento.
Essa lógica atinge seu ápice quando a narrativa atravessa os muros que dividem pobres e ricos. Até esse momento, Futuro Futuro constrói um cotidiano marcado pela precariedade, mas também pela presença de pequenos gestos de afeto. A relação entre K e o personagem de João Carlos Castanha devolve alguma espessura humana ao filme justamente porque nasce da convivência e não da memória. Enquanto as máquinas fabricam lembranças, dois indivíduos constroem presença.

Do outro lado dos muros, porém, a artificialidade deixa de estar apenas nas imagens e passa a contaminar os próprios corpos. As figuras interpretadas por Clara Choveaux e Higor Campagnaro habitam espaços impecavelmente limpos, dominados por superfícies lisas, geometrias assépticas e uma arquitetura que parece existir apenas para ser contemplada. Tudo ali se aproxima das próprias imagens geradas por IA.
O “mundo pobre” preserva algum resquício de experiência. O “mundo rico” transforma-se numa projeção digital de si. Pretto consegue construir uma crítica social sem depender de discursos porque está inscrita na própria textura das imagens.
Os símbolos espalhados pela narrativa seguem o mesmo princípio. O polvo, os drones, os dispositivos tecnológicos implantados nos corpos, os enquadramentos que insistem no horizonte e a constante fragmentação das lembranças jamais aparecem para compor um quebra-cabeça alegórico. Eles operam por acúmulo. Cada elemento amplia a sensação de um mundo incapaz de organizar qualquer unidade de sentido.

Essa estrutura, entretanto, cobra um preço. Depois da metade da narrativa, parte dessa construção simbólica deixa de se expandir e passa a reiterar ideias já estabelecidas. As imagens artificiais perdem parte de sua potência justamente porque insistem no mesmo procedimento visual várias vezes. O bairro da elite surge muito mais como conceito do que como espaço dramatizado. A densidade observada na primeira metade cede lugar a um percurso mais ilustrativo, onde a força dos símbolos supera a dos personagens.
Mesmo assim, o filme preserva uma inquietação. Em vez de condenar ou celebrar a IA, incorpora sua existência ao próprio dispositivo cinematográfico. A crítica nasce contaminada pela tecnologia que examina. Essa escolha impede qualquer posição confortável. O espectador observa imagens artificiais enquanto elas denunciam um futuro dominado por imagens artificiais.
Essa contradição sintetiza Futuro Futuro. Seu futuro não é construído sobre robôs ou grandes catástrofes. É construído sobre a substituição silenciosa da experiência pela representação, da lembrança pela reprodução e da vida por sua simulação.
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