Poucos desafios parecem tão delicados para o cinema documental quanto dar forma para a ausência. Honestino parte desse impasse. Como representar alguém que foi sistematicamente apagado pela violência de um regime e que deixou atrás de si apenas fragmentos de voz, fotografias dispersas, cartas e lembranças preservadas por quem permaneceu vivo? A resposta encontrada pelo longa de Aurélio Michiles oscila entre o documento e a fabulação, algo entre a necessidade de reconstruir um rosto e o risco inevitável de inventar imagens para preencher aquilo que a história não permitiu registrar. Essa tensão acompanha o filme do primeiro ao último minuto, tornando-se menos um obstáculo do que o próprio motor de sua narrativa.
Existe uma escolha bastante consciente em não transformar Honestino Guimarães apenas em personagem histórico. O filme insiste em recolocá-lo em circulação, quase como se recusasse que seu destino permanecesse restrito às páginas dos livros ou aos arquivos da repressão. O gesto é político, evidentemente, mas também cinematográfico. Afinal, quando a câmera precisa filmar alguém que já não pode ser visto, ela precisa encontrar outros corpos, sons e presenças.
É nesse espaço que entra Bruno Gagliasso. Sua participação não pode ser compreendida como uma interpretação convencional. Não existe preocupação em reproduzir trejeitos ou oferecer uma composição psicológica completa. O ator funciona como uma superfície de evocação, um intermediário entre documentos escritos décadas atrás e um espectador contemporâneo. Sua presença ocupa lacunas deixadas pela escassez de registros audiovisuais, permitindo que cartas e poemas deixem de existir apenas como texto e passem a adquirir respiração, pausa e silêncio.

Ao mesmo tempo, essa estratégia revela seus limites. Algumas dramatizações parecem nascer da necessidade de ilustrar aquilo que o documentário já havia explicado verbalmente. Em determinados momentos, a encenação adiciona atmosfera; em outros, limita-se a reforçar informações já compreendidas pelo público. A reconstrução visual nem sempre amplia sentidos, funcionando por vezes como uma extensão literal do discurso.
Essa sensação se intensifica quando determinadas imagens procuram estabelecer conexões diretas entre diferentes épocas. O filme deseja aproximar o passado do presente, sugerindo que determinadas disputas permanecem abertas. A intenção é compreensível e faz parte de uma tradição do documentário político brasileiro. Ainda assim, alguns símbolos aparecem carregados de uma contemporaneidade tão explícita que acabam produzindo um curioso deslocamento temporal. Certos elementos inseridos nas dramatizações parecem dialogar muito mais com o repertório visual das disputas políticas atuais do que propriamente com o universo dos anos 1960 e 1970, criando, inevitavelmente, pequenas rupturas que chamam atenção por sua artificialidade.
Esse aspecto aparece também em algumas intervenções cuja estética se aproxima mais de campanhas audiovisuais contemporâneas do que da reconstrução de um período marcado pela clandestinidade. Em certos momentos, a linguagem abandona a sutileza para assumir um caráter quase panfletário, como se o filme desconfiasse da capacidade do próprio material histórico de produzir impacto emocional. Não deixa de ser curioso que uma trajetória tão poderosa precise, ocasionalmente, recorrer a imagens simbólicas que parecem explicar aquilo que os acontecimentos já dizem por si.
Essa escolha, contudo, não define o conjunto da experiência. Muito pelo contrário. Sempre que o documentário retorna aos depoimentos, encontra sua matéria-prima mais consistente. Não apenas porque são relatos emocionados, mas porque revelam um Honestino que escapa do monumento político. Amigos, familiares e antigos companheiros de militância recordam episódios aparentemente pequenos, detalhes cotidianos, brincadeiras, partidas de futebol, conversas interrompidas e afetos preservados pela memória. São esses desvios que permitem ao personagem respirar para além da condição de mártir.
Entre todos os caminhos adotados pelo longa, o mais delicado foi aquele que aproxima gerações separadas por décadas. A relação do neto com um avô que jamais conheceu, por exemplo, é uma reflexão sobre herança, identidade e pertencimento. Existe uma beleza nessa transmissão afetiva construída sem convivência direta, apenas por histórias compartilhadas.

Formalmente, o documentário demonstra uma inquietação constante. A montagem de André Finotti costura fotografias, arquivos históricos, dramatizações, entrevistas e diferentes texturas visuais com fluidez admirável. O ritmo evita que a narrativa assuma um formato excessivamente didático, ainda que o roteiro frequentemente se organize em torno da enumeração dos acontecimentos da vida de Honestino. Prisões, deslocamentos, mudanças de cidade e perseguições são apresentados de maneira cronológica, oferecendo um panorama bastante claro dos fatos.

Essa preocupação informativa, entretanto, produz uma consequência interessante. Ao privilegiar a sucessão dos acontecimentos, o filme às vezes conhece melhor o militante do que o homem. Descobre-se onde esteve, quem encontrou, quais organizações integrou e quais perseguições enfrentou, mas sobra menos espaço para investigar suas contradições, desejos ou ambiguidades. O retrato privilegia a dimensão pública em detrimento da intimidade. É uma escolha compreensível diante da relevância histórica da figura retratada, embora desperte curiosidade sobre aquilo que permanece invisível.
Ainda assim, justamente por lidar com alguém que viveu parte significativa da juventude escondido e terminou desaparecido pela ditadura militar, essa incompletude faça parte da própria natureza do projeto. A escassez de imagens não é uma limitação do documentário, mas consequência direta da violência que pretende denunciar. O filme trabalha permanentemente contra esse apagamento, produzindo imagens onde antes existiam apenas lacunas.
Honestino, enquanto obra cinematográfica, devolve existência àqueles que quase desapareceram dos arquivos oficiais. A reconstrução proposta por Michiles nunca elimina as fissuras dessa operação. Pelo contrário, convive com elas o tempo inteiro. O longa transforma essa falta de registros em linguagem e faz dessa ausência um espaço permanente de reflexão sobre memória, história e o papel das imagens diante daquilo que um país tentou esquecer.
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