Durante muito tempo, Hollywood tratou a cultura pop dos anos 1980 como um constrangimento que precisava ser corrigido. Uniformes foram escurecidos, conceitos foram racionalizados e personagens passaram por sucessivas tentativas de modernização para se adequarem a um suposto ideal de seriedade. Mestres do Universo segue na direção oposta. O novo filme dirigido por Travis Knight parte de uma constatação simples: He-Man nunca funcionou apesar de seus excessos. Funcionou justamente por causa deles. E o longa compreende isso desde o primeiro minuto.
A trama acompanha Adam (Nicholas Galitzine), criado na Terra após ser afastado de Etérnia ainda criança. Quando seu mundo de origem se encontra sob o domínio de Esqueleto (Jared Leto), ele precisa retornar, confrontar o próprio passado e assumir definitivamente o papel de He-Man. É uma narrativa construída sobre arquétipos bastante conhecidos – o herói exilado, o reino perdido, a herança esquecida e a luta contra a tirania –, mas o roteiro demonstra inteligência ao não desperdiçar energia tentando reinventar uma estrutura que sempre pertenceu ao imaginário da fantasia clássica.
O mérito de Knight está em entender o material que tem em mãos. Seu filme não procura justificar tigres falantes, espadas mágicas, castelos místicos ou vilões com uma caveira no lugar do rosto. Tudo isso é apresentado como parte natural daquele universo. Mestres do Universo exibe orgulho de sua identidade.

Essa confiança se reflete diretamente na construção visual de Etérnia. A direção de arte aposta em uma mistura de fantasia bárbara, ficção científica retrô e estética de brinquedo colecionável. O resultado é basicamente o descrito, uma bagunça, mas um mundo que possui personalidade. Não existe preocupação excessiva com realismo. As armaduras brilham, os cenários são monumentais e as cores dominam a tela. É um universo que se parece com aquilo que sempre foi: uma fantasia construída a partir da imaginação de crianças fascinadas por espadas, monstros e aventuras cósmicas.
A fotografia acompanha essa proposta ao evitar a tendência contemporânea de dessaturar imagens e esconder elementos em sombras. Etérnia é luminosa, vibrante e visualmente expansiva. Mesmo quando o longa mergulha em conflitos mais sombrios, a imagem preserva uma identidade lúdica. Existe uma preocupação constante em tornar o mundo visualmente reconhecível, algo cada vez mais raro em produções que frequentemente parecem compartilhar a mesma paleta de cores e o mesmo acabamento digital.

Essa ambição visual encontra um aliado importante na trilha sonora de Daniel Pemberton, com colaboração de Brian May – guitarrista do Queen. A música compreende perfeitamente o espírito da franquia. Em vez de recorrer apenas a fanfarras heroicas convencionais, a composição mistura elementos orquestrais com guitarras e uma energia quase glam rock. Até por contar com um membro do Queen, fica difícil não lembrar da trilha sonora de “Flash Gordon”, que, sim, inspira, mas não está numa lógica de cópia. O resultado amplia a sensação de aventura e ajuda a construir uma identidade sonora muito mais marcante do que a média dos blockbusters atuais.
Nas cenas de ação, Knight demonstra novamente familiaridade com a essência da propriedade. Existe um senso de diversão permanente na forma como as batalhas são encenadas. Os confrontos físicos possuem boa coreografia, especialmente nos momentos em que o diretor privilegia a geografia dos espaços e permite que o espectador acompanhe os movimentos dos personagens. O filme entende que ação não deve ser apenas destruição em larga escala. Ela também precisa gerar espetáculo visual, personalidade e entretenimento. O ponto que pode ser divisiso, por assim dizer, está na constante falta de consequência. Não há, de fato peso, ou grande perigo. Ainda bem.
Nem sempre, porém, essa dinâmica encontra equilíbrio. O longa frequentemente sofre com a própria empolgação. Algumas sequências se prolongam além do necessário e a montagem demonstra dificuldade em encerrar determinados momentos. Há uma sensação recorrente de que o filme deseja acrescentar mais uma piada, mais uma explosão ou mais uma cena de ação antes de seguir adiante. Isso afeta o ritmo e contribui para uma duração que parece maior do que realmente é.
O roteiro também carrega marcas evidentes de um projeto desenvolvido por muitas mãos. Algumas relações dramáticas recebem menos atenção do que mereciam e certos personagens permanecem subaproveitados. O filme demonstra grande interesse em expandir seu universo, apresentar conceitos, plantar futuras histórias e prestar homenagens aos fãs da franquia. Em alguns momentos, esse acúmulo de objetivos enfraquece a progressão emocional da narrativa principal.

Ainda assim, o elenco consegue sustentar boa parte dessas limitações. Nicholas Galitzine acerta ao não transformar Adam em apenas uma figura heroica de proporções mitológicas. Seu trabalho enfatiza a insegurança e o deslocamento de alguém dividido entre dois mundos. Isso torna a transformação em He-Man muito mais eficaz. Quando o personagem finalmente assume seu destino, a mudança possui impacto dramático porque existe uma construção emocional anterior.
Camila Mendes imprime energia e carisma a Teela. Sua interpretação evita que a personagem seja reduzida a uma simples acompanhante da jornada do protagonista. Existe determinação, senso de humor e presença suficiente para justificar sua importância dentro da narrativa. O filme ainda flerta com caminhos românticos previsíveis, mas Mendes encontra espaço para construir uma personagem que funciona além dessa função.
Entre os coadjuvantes, Idris Elba oferece uma presença sólida como Duncan. Sua experiência como intérprete aparece na capacidade de transmitir autoridade sem transformar o personagem em uma figura excessivamente austera. Já Morena Baccarin contribui para a dimensão mística da história com uma interpretação que reforça o caráter lendário da mitologia de Etérnia. Mas, definitivamente, é a personagem, entre os principais, que sobra e sofre do pouco tempo de tela e desenvolvimento.
Mas quem domina a tela é, surpreendentemente, Jared Leto. Seu Esqueleto compreende algo fundamental sobre o personagem: o vilão nunca foi uma figura associada à sutileza. Leto abraça a teatralidade, a vaidade e a grandiloquência que sempre fizeram parte da essência do antagonista. Essa abordagem resulta numa interpretação que encontra equilíbrio entre ameaça real e exagero assumido. Sempre que surge em cena, o filme ganha energia.

Existe ainda um aspecto interessante na forma como Mestres do Universo lida com o humor. O longa faz piadas sobre seu universo, mas não transforma esse universo em piada. Essa diferença é decisiva. O roteiro entende que a graça não está em ridicularizar Etérnia, mas em reconhecer sua estranheza sem negar sua importância. É um humor que nasce da convivência entre o épico e o absurdo, não da destruição de um pelo outro.
Essa abordagem ajuda a explicar por que o filme funciona melhor quando abraça completamente sua natureza brega. Quando tenta seguir fórmulas modernas de blockbuster, sua personalidade diminui. Quando retorna aos castelos mágicos, aos guerreiros improváveis, às criaturas fantásticas e ao exagero visual que definiu a franquia, recupera imediatamente sua força.
Mestres do Universo reconhece que certas histórias sobrevivem porque preservam suas excentricidades. Em um momento em que Hollywood buscam um novo filão bilionário após os filmes de super-heróis perderem a força de outrora, esse poderia ser só mais um filme que apela para a nostalgia, mas o longa prefere revisitar um imaginário sem sentir vergonha dele. E poucas decisões parecem tão acertadas para He-Man quanto essa.
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