A sessão de Supergirl, a memória do filme começou a se comportar de uma forma estranha. Em vez de revisitar cenas específicas, diálogos ou imagens grandiosas, ela insistia em retornar a um disco. Enquanto caminhava, na saída do cinema, encarava o trânsito ou organizava mentalmente as anotações da crítica, quem surgia era “moisturizer”, o segundo álbum do Wet Leg. Não como comparação direta, mas como sensação. A mesma sensação.
Talvez porque exista algo compartilhado entre as duas obras. O álbum da banda britânica é construído sobre influências muito visíveis. O espírito do indie rock dos anos 2000 atravessa suas faixas, assim como o sarcasmo, os refrões pegajosos e uma atitude que não esconde suas referências. Ainda assim, Rhian Teasdale e Hester Chambers encontram uma forma de transformar familiaridade em personalidade. O disco dificilmente pode ser chamado de revolucionário, mas exala convicção. Cada música parece saber exatamente o que quer ser. Quando os créditos de Supergirl começaram a subir, a impressão era parecida, embora por um motivo menos favorável. O filme também parece saber exatamente o que quer ser. O problema é que essa segurança frequentemente se aproxima de uma zona de conforto.
A ironia está no fato de que sua protagonista é construída justamente a partir da instabilidade. Kara Zor-El (Milly Alcock) não possui a mesma relação com o mundo que define seu primo kryptoniano. Enquanto Clark cresceu cercado de afeto e pertencimento, ela carrega a memória de um planeta morto e de uma infância marcada pela destruição. Sua jornada ao lado de Ruthye (Eve Ridley), uma jovem consumida pela perda e pela busca de vingança, transforma essa diferença em motor dramático. As duas personagens se reconhecem em lugares que prefeririam não revisitar. Existe algo profundamente melancólico na forma como se aproximam. Kara enxerga em Ruthye uma versão mais jovem de si mesma; Ruthye encontra na heroína alguém que compreende sua dor sem precisar traduzi-la em palavras.
A adaptação da HQ “A Mulher do Amanhã” preserva aquilo que tornou a obra de Tom King, Bilquis Evely e Mat Lopes uma referência moderna dentro da DC Comics. O roteiro de Ana Nogueira entende que essa não é apenas uma aventura espacial. Trata-se de uma história sobre luto, amadurecimento e sobre o peso que carregamos quando sobrevivemos a algo que destruiu tudo ao nosso redor. Ao mesmo tempo, o texto aproveita a oportunidade para expandir o universo cósmico da DC, introduzindo diferentes culturas, espécies e tradições espalhadas pelos planetas visitados durante a jornada.
Grande parte desse equilíbrio existe graças a Milly Alcock. Sua interpretação parece operar constantemente entre a contenção e o colapso. Existe uma inquietação permanente em sua presença, uma sensação de que Kara nunca está totalmente confortável em lugar algum. A atriz compreende a solidão da personagem e evita transformá-la em uma simples versão sombria do Superman. Existe, de maneira sutil, até mesmo um flerte com a ideação suicida ao fato dela ir para planetas com sol vermelho, para que sua vulnerabilidade emocional também se torna física, afinal ela perde seus poderes em tais condições.
Quando divide a tela com Eve Ridley, a química entre as duas é estranha, isso porque ela sustenta alguns dos melhores e também piores momentos do filme. O mesmo acontece nas poucas cenas ao lado de David Corenswet (Superman), que ajudam a evidenciar como duas pessoas da mesma origem podem desenvolver visões radicalmente diferentes sobre o mundo.

Já a participação de Jason Momoa (Lobo) é divertida e ele funciona melhor nesse universo, mas não necessariamente com o filme em si. O mesmo vale para o antagonista Krem (Matthias Schoenaerts), que é, nada mais que um bandido ruim porque é pra ele ser bandido é legal. O que não é necessariamente um problema, mas definitivamente, não dialoga nenhum pouco com a proposta do arco emocional que o longa busca projetar.
Por isso mesmo, torna-se difícil ignorar a sensação de que existe um filme mais interessante tentando emergir sob a superfície desta produção. Um filme mais disposto a acompanhar as contradições de sua protagonista e menos preocupado em seguir determinados protocolos do gênero. Essa percepção inevitavelmente conduz à direção de Craig Gillespie.
Não porque o cineasta demonstre falta de competência. Sua filmografia oferece exemplos suficientes de que sabe conduzir narrativas complexas e trabalhar personagens difíceis. O problema parece estar em outro lugar. Existe uma ausência quase completa de personalidade na maneira como Supergirl é encenado. E essa ausência se torna perceptível porque estamos vivendo um momento em que os filmes de super-heróis enfrentam justamente uma crise de identidade. Nos últimos anos, diversas produções passaram a compartilhar os mesmos ritmos, as mesmas estruturas e até mesmo os mesmos recursos visuais. Ainda assim, poucas parecem tão confortáveis dentro dessa padronização quanto Supergirl.
É impossível assistir ao longa sem perceber a sombra de James Gunn pairando sobre praticamente todas as suas escolhas. Os planetas excêntricos, os personagens peculiares, o humor que surge logo após momentos dramáticos, as músicas pop usadas como comentário emocional, a construção episódica da aventura espacial. Tudo remete a uma linguagem que o público já aprendeu a reconhecer. Naturalmente, existe uma lógica nisso. Gunn não apenas lidera a DC Studios como também estabeleceu boa parte da identidade criativa que sustentará esse universo compartilhado. A questão é que o filme raramente parece interessado em dialogar com essa influência. Ele simplesmente a reproduz.

A diferença entre essas duas abordagens é significativa. Nos melhores trabalhos de Gunn existe uma energia caótica que torna suas referências parte de uma voz autoral. Em Supergirl, muitas vezes resta apenas a estrutura. É como observar alguém reproduzindo uma receita sem compreender exatamente quais ingredientes lhe davam sabor.
Essa falta de personalidade afeta especialmente as sequências de ação. A história acompanha uma protagonista movida por culpa, ressentimento e impulsividade. Seria natural esperar que esses sentimentos contaminassem a forma como a ação é construída. Em vez disso, o que aparece na tela são cenas frequentemente burocráticas, marcadas por movimentos de câmera pouco inspirados, um uso excessivo de câmera lenta e uma dificuldade constante em gerar impacto visual ou emocional. Os confrontos acontecem, ocupam espaço narrativo e cumprem sua função básica, mas raramente provocam qualquer sensação duradoura.
O aspecto mais curioso dessa limitação é que ela não parece surgir dos departamentos técnicos. A direção de arte encontra soluções interessantes para os diferentes mundos visitados pela trama. A fotografia produz imagens bonitas. O design de produção trabalha para criar ambientes que possuam identidade própria. Existe criatividade espalhada por diversos cantos da produção. O que falta é alguém capaz de organizar esses elementos em torno de uma visão estética clara.
É justamente aí que a lembrança de moisturizer faça mais sentido. O álbum do Wet Leg também nasce de referências evidentes. Também percorre territórios familiares. Mas existe uma diferença fundamental: suas criadoras parecem se divertir habitando essas influências. Existe irreverência, existe risco, existe a sensação de que aquelas músicas poderiam ocasionalmente escapar do controle. Em Supergirl, quase nada escapa do controle. Tudo parece cuidadosamente calibrado para funcionar dentro das expectativas de um blockbuster de super-herói contemporâneo.
Essa é a contradição mais fascinante do filme. Kara passa toda a narrativa tentando se libertar de forças que insistem em definir quem ela deve ser. Seu conflito nasce justamente do atrito entre identidade e expectativa. O longa que a acompanha, entretanto, raramente demonstra o mesmo impulso de romper limites. Pelo contrário. Em diversos momentos, parece satisfeito em ocupar espaços já conhecidos.
Isso não apaga os méritos do longa, sobretudo o trabalho de Milly Alcock. Mas ajuda a explicar por que a sensação deixada pelo filme é tão peculiar. Existe talento em cena. Existe material dramático. Existe uma protagonista interessante. O que parece faltar é a disposição para transformar tudo isso em algo verdadeiramente próprio. Como o disco que insistia em voltar à memória após a sessão, Supergirl também é uma obra construída a partir de influências visíveis. A diferença é que o Wet Leg encontrou uma maneira de fazer essas influências soarem como expressão. O filme, por sua vez, permanece preso entre a confiança e a acomodação, sem nunca decidir completamente de qual lado deseja ficar. Constantemente ouço moisturizer, mas não sei se vou sentir o mesmo conforto de revisitar Supergirl outras vezes.
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