Crítica | E Seus Filhos Depois Deles
Imovision/Divulgação

Crítica | ‘E Seus Filhos Depois Deles’ é um retrato geracional preso às próprias indecisões

Existe uma pergunta que paira sobre E Seus Filhos Depois Deles durante boa parte de sua longa duração: o que exatamente esse filme deseja observar quando olha para seus personagens? A inquietação a partir de uma sensação desconfortável de acompanhar uma narrativa que parece reunir diversos temas urgentes sem necessariamente encontrar uma perspectiva capaz de organizá-los. O longa é um retrato de juventude que frequentemente se aproxima de questões sociais, raciais e econômicas relevantes, mas que também parece recuar delas no instante em que poderiam ganhar maior densidade. A impressão é a de uma história constantemente à beira de algo maior, observando suas próprias possibilidades sem jamais decidir qual delas perseguir.

Em uma pequena cidade francesa marcada pelo declínio industrial, Anthony (Paul Kircher) atravessa a adolescência carregando inquietações comuns à sua idade: desejo, insegurança, impulsividade e uma necessidade permanente de pertencimento. Seu encontro com Steph (Angelina Woreth) inaugura uma obsessão sentimental que atravessa anos de sua vida. Paralelamente, uma rivalidade nasce quando ele cruza o caminho de Hacine (Sayyid El Alami), jovem descendente de imigrantes árabes que passa a ocupar um lugar central em sua trajetória. O que começa como um conflito aparentemente banal cresce com os personagens, acompanhando transformações familiares, afetivas e sociais em uma cidade que parece viver permanentemente assombrada por um passado mais promissor.

Os diretores Ludovic Boukherma e Zoran Boukherma demonstram interesse evidente pela ideia de herança. Não apenas aquela transmitida entre pais e filhos, mas também a herança invisível deixada pelos espaços. A cidade funciona quase como um personagem. A siderúrgica desativada, as ruas sem perspectiva de renovação, os adultos anestesiados pela repetição dos dias e pelo álcool compõem um cenário onde o futuro parece uma abstração distante. O melhor do filme parte dessa dimensão, dos filhos que recebem muito mais do que sobrenomes ou traços familiares; recebem também frustrações, ressentimentos e limitações que parecem atravessar gerações.

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A fotografia explora esse sentimento com inteligência. O verão constante, os lagos, as festas e a luz dourada que banha muitas cenas criam uma atmosfera sedutora. Existe um contraste interessante entre a aparência luminosa da juventude e a estagnação estrutural daquele ambiente. O calor do verão não simboliza liberdade; frequentemente parece funcionar como uma camada estética que cobre uma realidade bastante árida. O filme compreende bem essa dimensão visual e encontra nela alguns de seus momentos mais expressivos.

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A questão se torna mais complexa quando o roteiro tenta expandir seu alcance temático. Anthony e Hacine são apresentados como jovens que compartilham vulnerabilidades semelhantes. Ambos vêm de contextos difíceis, convivem com violência doméstica e crescem em um território sem horizontes claros. A narrativa sugere repetidamente que suas trajetórias poderiam ser paralelas. Entretanto, quando a questão racial entra em cena, surge uma tensão que o filme parece reconhecer sem necessariamente aprofundar.

Hacine é alvo de exclusão, preconceito e hostilidade desde suas primeiras aparições. Seu pertencimento àquela comunidade é constantemente colocado em dúvida pelos outros personagens. Ainda assim, a obra frequentemente utiliza seu sofrimento como mecanismo para impulsionar a jornada emocional de Anthony. Em diversos momentos, o personagem árabe parece existir menos como sujeito de sua própria história e mais como peça fundamental na construção do protagonista. Essa escolha gera um desequilíbrio difícil de ignorar, especialmente porque o filme demonstra consciência das desigualdades presentes naquele contexto histórico.

A França dos anos 1990 não aparece apenas como pano de fundo temporal. O período foi marcado por debates intensos sobre imigração, identidade nacional e xenofobia, elementos que inevitavelmente atravessam a narrativa. A questão é que E Seus Filhos Depois Deles frequentemente observa essas tensões de longe. Há sinais claros de racismo estrutural, mas poucas tentativas de compreender suas consequências para além dos conflitos imediatos entre os personagens. Fiquei a sessão toda com a sensação de incompletude. Não porque toda obra precise oferecer respostas, mas porque o próprio filme parece abrir portas que depois decide não atravessar.

Essa dificuldade se estende ao protagonista. Kircher constrói Anthony como um jovem permanentemente dominado por impulsos. Existe fragilidade em sua interpretação, mas também uma insistência narrativa em mantê-lo preso às mesmas limitações emocionais durante boa parte da trama. O amadurecimento, elemento frequentemente associado às histórias de formação, surge aqui de maneira nebulosa. Os anos passam, as experiências se acumulam, mas a transformação interna do personagem permanece incerta. Isso pode ser lido como uma escolha deliberada sobre a incapacidade de romper ciclos herdados. Também pode gerar a impressão de uma trajetória que gira em círculos.

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Curiosamente, quem parece carregar os conflitos mais interessantes é El Alami. Sua interpretação encontra nuances em um personagem atravessado pela raiva, pela exclusão e pela necessidade constante de afirmar sua existência em um ambiente que o rejeita. Há momentos em que Hacine parece concentrar questões mais fortes do que aquelas atribuídas ao protagonista. Quando isso acontece, o filme sugere caminhos dramáticos particularmente instigantes, ainda que nem sempre os desenvolva até suas últimas consequências.

A trilha sonora contribui para uma sensação curiosa de deslocamento. Em determinados momentos, a seleção musical reforça o clima nostálgico e o retrato geracional pretendido pela obra. Em outros, parece excessivamente preocupada em estabelecer uma identidade pop para cenas que talvez exigissem maior silêncio ou observação – o filme tenta, algo que foi muito bem-sucedido em “Mixtape”. Existe uma disputa constante entre o drama social e o retrato sentimental adolescente, e a música frequentemente evidencia essa oscilação.

As quase duas horas e meia de duração ampliam essa percepção. Não se trata necessariamente de uma questão de tempo, mas de foco. Diversos episódios surgem, desaparecem e retornam sem que sua relevância dramática fique totalmente clara. Algumas subtramas parecem existir apenas para reforçar temas já compreendidos pelo espectador, enquanto outras sugerem discussões mais amplas que permanecem inacabadas. A estrutura assume um caráter episódico que contribui para a sensação de dispersão.

Crítica | E Seus Filhos Depois Deles
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Ainda assim, é fascinante na maneira como o filme captura a melancolia de uma geração que cresceu entre promessas esvaziadas. A cidade, os corpos, os amores passageiros, as explosões de violência e a ausência de perspectivas formam um mosaico de inquietações bastante reconhecível. A principal questão levantada pela obra não esteja em seus conflitos explícitos, mas naquilo que circula entre eles: a dificuldade de imaginar um futuro quando o presente parece apenas repetir fracassos herdados.

Esse é o espaço mais fértil ocupado por E Seus Filhos Depois Deles. Não necessariamente em suas conclusões, mas em suas lacunas. Entre o retrato social e o drama juvenil, entre o comentário político e a crônica afetiva, entre a observação da exclusão e a insistência em acompanhar um protagonista difícil de admirar, o filme se movimenta em território instável. É justamente dessa instabilidade que surge o debate.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.