Existe uma armadilha inevitável para qualquer artista que consegue transformar um disco em acontecimento cultural. Depois que um álbum deixa de ser apenas um conjunto de canções para virar estética, linguagem de internet, comportamento e estratégia de mercado, o sucessor passa a disputar espaço não apenas com o passado, mas com a imagem que o próprio passado construiu. Music, Fashion, Film nasce justamente desse impasse. É um trabalho “menor” que “Brat”, menos arrebatador em suas ideias e menos inspirado em sua sequência de músicas, mas profundamente interessado em compreender por que o tempo parece exigir que um artista nunca desapareça de cena.
Essa inquietação que faça do disco um objeto mais interessante do que sua música, em alguns momentos, consegue acompanhar. Charli XCX parece compreender que, hoje, uma carreira pop não se organiza apenas pelos lançamentos. Ela depende de um estado permanente de presença. Singles surgem antes que exista um álbum. Entrevistas insinuam conceitos futuros. Fragmentos circulam nas redes sociais como pequenos quebra-cabeças para uma comunidade que aprendeu a consumir pistas tanto quanto refrões. Até mesmo o que não é lançado imediatamente passa a integrar uma narrativa maior, como se o adiamento também pudesse ser uma ferramenta estética.
Esse jogo de expectativa atravessa Music, Fashion, Film de ponta a ponta. Durante meses, a cantora deixou que parte do público acreditasse que caminhava para um disco de rock. Depois relativizou a própria afirmação, embaralhando intenções e discursos até que a conversa se tornasse tão importante quanto o resultado. O álbum confirma que a guitarra realmente ocupa um papel central, mas ela aparece reorganizada por sintetizadores, compressões digitais e texturas eletrônicas, funcionando muito mais como matéria-prima para um eletrorock contemporâneo do que como sinal de uma conversão estética.
Essa operação diz bastante sobre a maneira como Charli passou a pensar o espírito do tempo. O confusionismo deixa de parecer ruído de divulgação e passa a integrar a própria linguagem artística. O público tenta descobrir quem inspirou determinada letra, quais indiretas estão escondidas em versos aparentemente banais ou quais referências culturais conectam um videoclipe a uma entrevista concedida meses antes. A artista parece confortável observando esse movimento sem jamais o encerrar.
Curiosamente, isso torna Music, Fashion, Film menos expansivo do que Brat. O disco anterior convertia excesso em espetáculo, aqui existe um desejo constante de reorganizar a própria identidade. Não se trata de negar o disco que o antecede, mas de desmontar algumas das expectativas que ele criou. Em diversos momentos, a impressão é a de acompanhar alguém tentando abandonar uma versão de si mesma enquanto descobre que nenhuma persona desaparece completamente.
As letras acompanham essa sensação. “Camera”, por exemplo, observa a possibilidade de migrar para o cinema sem transformar essa curiosidade em simples exercício autobiográfico. Já “SS26” transforma linguagem publicitária, posicionamento político e identidade pública em peças de uma engrenagem onde tudo pode virar estratégia. Em vez de oferecer confissões, as músicas parecem trabalhar com personagens que orbitam muito perto da autora, mas nunca coincidem totalmente com ela.
Essa aproximação entre fabricação de imagem e desejo artístico aproxima o álbum menos da música pop tradicional e mais de determinados cineastas. Não por acaso, o imaginário de David Lynch atravessa várias passagens do disco, sobretudo na maneira como o cotidiano é constantemente contaminado por pequenos desvios inquietantes. As guitarras ocupam superfícies familiares até que uma distorção transforma o ambiente em algo discretamente ameaçador. O banal nunca permanece completamente banal.
Ao mesmo tempo, existe uma delicadeza emocional que parece dialogar com o cinema de Sofia Coppola. Não pela estética visual em si, mas pela capacidade de registrar personagens presos entre glamour e vazio, consumo e solidão, – um diálogo com sua própria discografia, sobretudo nas composições do disco “How I’m Feeling Now” – excesso de estímulos e ausência de sentido. Em faixas como “2007”, o passado não aparece como objeto de nostalgia, mas como espaço imaginado, quase uma lembrança construída depois que a internet reorganizou completamente nossa relação com memória e identidade.
Também não é difícil perceber ecos do universo de Trent Reznor – na relação do líder do Nine Inch Nails com o cinema. O eletrorrock do álbum carrega uma energia juvenil permanentemente à beira da combustão, onde ansiedade, desejo e desencanto convivem sem buscar equilíbrio. Existe algo de adolescência tardia mesmo quando a compositora escreve sobre maturidade. A sensação de que tudo pode desmoronar convive com uma disposição quase irresponsável de continuar criando.
Essa aproximação com o cinema ganha um peso ainda maior porque Music, Fashion, Film não existe apenas como álbum. Seu projeto audiovisual amplia a experiência ao tratar bastidores, processo criativo e elaboração visual como parte da própria obra. A direção evita funcionar como simples complemento promocional. Existe uma investigação em como imagens e músicas passam a disputar interpretações diferentes para um mesmo sentimento. Não existe uma versão definitiva do disco. Existem camadas.
Musicalmente, a parceria entre A. G. Cook, Finn Keane e Charli XCX permanece sendo um dos motores criativos mais consistentes do pop recente. O trio reorganiza referências que passam pelo blog house, pelo indie britânico do fim dos anos 2000, pelo new wave, pelo rock alternativo e pela música eletrônica sem transformar o disco numa coleção de citações. O interesse parece estar menos na recuperação desses sons e mais na possibilidade de fazê-los conversar com uma sensibilidade completamente contemporânea.
O encerramento, “No One Lasts Forever”, sintetiza muitas dessas questões ao incorporar uma participação de David Cronenberg. Sua reflexão sobre mortalidade e permanência desloca o álbum para um terreno filosófico que dialoga diretamente com a obsessão atual por legado, relevância e memória digital – temas de “O Senhor dos Mortos”, último longa do cineasta –. Em vez de transformar a morte em solenidade, a conversa sugere outra perspectiva: talvez exista uma estranha liberdade em reconhecer que nenhum artista acompanha aquilo que sua obra se torna após sua ausência.
Essa ideia lança nova luz sobre todo o percurso do álbum. Se Brat parecia interessado em expandir a própria presença até ocupar todos os espaços possíveis, Music, Fashion, Film parece perguntar o que sobra quando essa expansão inevitavelmente encontra um limite. O disco não abandona o fascínio pelo presente nem renuncia ao prazer da performance. Apenas desloca o foco para uma inquietação menos explosiva e mais persistente.
Essa é sua principal contradição. Ao mesmo tempo, em que parece tentar se libertar da sombra de Brat, nunca deixa completamente de dialogar com ela. É como se o trabalho inteiro reconhecesse que nenhum artista consegue controlar a maneira como será lembrado. Resta apenas continuar produzindo imagens, sons e personagens enquanto o presente ainda permite que todas essas linguagens conversem entre si.
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