Existe um ritual que quase todo fã de música conhece. O disco novo chega, os fones entram no ouvido e, antes mesmo de a primeira faixa terminar, a cabeça já começa a procurar referências. “Lembra o disco anterior.” “Tem cheiro dos primeiros álbuns.” “Parece coisa da carreira solo.” Poucas bandas carregam esse peso como The Strokes. Talvez porque tenham ajudado a definir uma geração inteira de guitarras no começo dos anos 2000. Mas também porque, desde então, cada lançamento venha acompanhado da mesma pergunta, ainda que formulada de maneiras diferentes: será que eles conseguem repetir aquele impacto? Reality Awaits não está nada interessado em responder do que em desmontar a própria pergunta.
O disco começa quase como uma provocação. “Psycho Shit” demora a revelar suas intenções e entrega logo de saída aquilo que mais divide opiniões na fase recente de Julian Casablancas, uma voz coberta por autotune, tratada como instrumento, não como simples interpretação. É uma escolha que pede paciência justamente porque poucos fãs, sobretudo os da “velha guarda”, estão dispostos a concedê-las. Antes mesmo que as guitarras encontrem espaço para respirar, existe uma boa chance de parte dos ouvintes já ter decidido se continuará ou não a audição.
O efeito eletrônico aplicado aos vocais certamente chama atenção, sobretudo porque ocupa uma posição estratégica na abertura do álbum. Para quem acompanhou os experimentos do cantor fora da banda, especialmente com o The Voidz, a decisão faz sentido numa trajetória artística que há tempos busca desconstruir sua própria identidade vocal. O incômodo aparece em outro lugar. Depois que o estranhamento inicial desaparece, percebe-se que o disco frequentemente oferece ideias mais interessantes do que músicas realmente inesquecíveis.
Se existe uma característica que permanece intacta desde o início da carreira do grupo, é a maneira como Albert Hammond Jr. e Nick Valensi transformam duas guitarras em uma conversa permanente. Poucas bandas desenvolveram um diálogo tão próprio entre linhas melódicas, pequenas respostas harmônicas e texturas que se completam sem competir entre si. Em Reality Awaits, essa assinatura continua presente, agora inserida em um universo muito mais eletrônico, menos preocupado com riffs e mais interessado na construção de atmosferas. É justamente aí que o álbum encontra seus momentos mais sedutores.
“Dine N’Dash” surge elegante, fria e discretamente melancólica, combinando sintetizadores delicados, baixo pulsante e guitarras que parecem caminhar em paralelo sem jamais disputar protagonismo. “Lonely in the Future” amplia essa proposta com uma melodia que permanece na cabeça sem recorrer aos antigos refrões explosivos que marcaram a juventude da banda. São canções que demonstram como o grupo continua capaz de reinventar sua linguagem sem parecer uma caricatura de si.
Durante boa parte das nove faixas, o álbum prefere desenvolver ambientes a construir clímax. Os arranjos são ricos, a produção acumula detalhes em segundo plano e existe um evidente cuidado na arquitetura sonora, mas nem sempre essa sofisticação desemboca em composições capazes de acompanhar a força de suas próprias ideias. É como visitar um edifício de arquitetura impressionante onde alguns cômodos permanecem vazios de propósito.
Essa impressão se torna ainda mais evidente quando chegam os singles. “Going Shopping”, apresentada antes do lançamento do disco, causou uma expectativa equivocada. A faixa carrega elementos que remetem ao passado do grupo, principalmente pelo trabalho das guitarras e pelo andamento mais direto, mas sua crítica ao consumo e seu acabamento sonoro revelam uma banda muito menos interessada em revisitar antigos sucessos do que em distorcê-los. Não deixa de ser curioso que justamente a música mais próxima do imaginário clássico dos Strokes também pareça uma das menos representativas do conjunto.
Já “Falling Out of Love” revela outro tipo de conflito. A composição possui uma melancolia bonita, construída lentamente, permitindo que os instrumentos respirem entre os versos. A relação entre as guitarras cria uma delicadeza rara, enquanto a letra encontra beleza justamente nas pequenas resignações que acompanham o desgaste afetivo. Ainda assim, a insistência no tratamento eletrônico dos vocais cria uma distância emocional inesperada. Não porque o recurso seja inadequado por definição, mas porque a própria canção parece pedir um tipo diferente de vulnerabilidade.
Ao longo dos últimos anos, tornou-se comum associar maturidade artística à necessidade de romper com tudo aquilo que tornou um artista conhecido. O novo álbum parece dialogar diretamente com essa ideia. Em diversos momentos, o grupo soa quase determinado a evitar qualquer gesto que lembre seus discos mais celebrados. Não existe nostalgia, tampouco vontade de fabricar novos hinos para festivais. Em vez disso, há uma busca permanente por outras possibilidades estéticas, ainda que algumas delas pareçam funcionar melhor como conceito do que como experiência de audição.
Nem por isso o disco deixa de reservar momentos bastante inspirados. “Going to Babble On” é a faixa em que experimentação e prazer caminham mais próximos. A influência do power pop, pequenas referências rítmicas que lembram The Police e um desenho melódico extremamente fluido fazem dela uma das músicas mais naturais do repertório. No trecho final do álbum, “The Fruits of Conquest” aposta em balanço, pequenas intervenções eletrônicas e guitarras que transitam entre o rock clássico e o glitch, enquanto “Tyrants of the Mellow Moon” encerra a sequência explorando uma melancolia contemplativa que cresce lentamente até encontrar sua melhor forma.
É curioso acompanhar uma banda que parece ter perdido completamente o interesse em corresponder à imagem construída sobre ela. Durante muitos anos, o grande dilema dos Strokes parecia ser escapar da própria sombra. Hoje, a impressão é outra. A sombra continua existindo, mas ela já não determina o caminho.
É por isso que Reality Awaits desperte uma sensação difícil de definir. O álbum não transmite a impressão de fracasso criativo nem de acomodação. Também não parece perseguir a aprovação imediata que domina boa parte da indústria musical contemporânea com bandas de mais de 30 anos de carreira. É intrigante ver um trabalho que insiste em permanecer ambíguo, mesmo quando essa ambiguidade custa parte de seu poder de sedução.
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