Dia D chega precedido de um peso que poucas produções contemporâneas carregam. Não exatamente o fardo das expectativas bilionárias – essas, o cinema de Steven Spielberg já aprendeu a administrar desde os tempos em que um tubarão mecânico se recusava a funcionar. É outra coisa. É a sensação de que o diretor, agora aos 79 anos, resolveu recolocar na mesa uma conversa que ele mesmo ajudou a suspender no ar lá atrás, quando os discos voadores de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” pousavam na montanha feita de som e melotrons. O que Spielberg faz aqui, sob a capa de um thriller conspiratório, é perguntar se ainda estamos dispostos a encarar o inexplicável com curiosidade – e não apenas com o cinismo automatizado que nossos smartphones injetam direto na corrente sanguínea.
O roteiro de David Koepp entende essa mudança de cenário e a utiliza como combustível. Existe uma tensão permanente entre aquilo que os personagens sabem, aquilo que acreditam saber e aquilo que são levados a acreditar. O filme observa como a verdade deixou de ser um ponto de chegada para se tornar um campo de disputa. Não por acaso, corporações privadas ocupam papel central dentro da narrativa. Mais do que antagonistas convencionais, elas representam estruturas de poder que operam na sombra, filtrando informações e determinando quais versões da realidade podem ou não alcançar o espaço público.
Essa dimensão conspiratória aproxima a obra de thrillers paranoicos que floresceram durante as décadas de 1970 e 1980. Spielberg, porém, não parece interessado em reproduzir modelos. O suspense existe, mas frequentemente funciona como caminho para algo mais amplo. A revelação em torno da vida extraterrestre, por exemplo, não é tratada apenas como descoberta científica. Ela adquire contornos filosóficos, espirituais e até políticos. Surge então uma pergunta que atravessa toda a experiência: a humanidade estaria preparada para lidar com algo que desafia suas estruturas de crença?
Parte dessa discussão encontra força na personagem de Jane (Eve Hewson). A interpretação de Hewson representa uma das maiores surpresas do filme justamente porque sua trajetória oferece um contraponto raro dentro de uma produção desse porte. Sua personagem não reduz a religião e ciência a polos opostos, o longa sugere um diálogo mais complexo entre ambas. A fé não aparece como negação do conhecimento, tampouco a razão surge como destruidora da espiritualidade.
Ao mesmo tempo, Margaret se transforma no coração emocional da narrativa. A atuação de Emily Blunt encontra uma sintonia impressionante com a direção de Spielberg. Há uma vulnerabilidade crescente em sua composição que evita explosões melodramáticas. Mesmo quando a personagem atravessa situações extremas, a atriz constrói uma humanidade palpável, sustentada por pequenos gestos, olhares e hesitações, a gente sente que há algo dentro dela, não exatamente o quê – até porque isso sequer aparece em tela –, mas existe algo lá, Seu momento diante das câmeras de televisão sintetiza boa parte do que o filme busca alcançar: a colisão entre o cotidiano e o incompreensível.

Curiosamente, o personagem de Josh O’Connor, que ocupa uma função importante no filme e um grande tempo de tela, funciome melhor como um objeto de transição. O roteiro de Koepp faz questão de colocar até mesmo em texto que ele é uma peça.
Visualmente, a produção reafirma a parceria entre Spielberg e Janusz Kaminski, responsável pela fotografia. Os elementos já associados ao estilo dos dois continuam presentes, mas não surgem como mera repetição estética. A luz estourada – o filme é recheado de lens flares –, os reflexos intensos e os enquadramentos que transformam personagens em figuras pequenas diante de eventos grandiosos reforçam uma sensação constante de deslumbramento.
Em diversos momentos, Kaminski cria imagens que parecem existir entre o sonho e a realidade, como se o próprio filme estivesse tentando capturar algo impossível de ser completamente compreendido.
Em uma era audiovisual frequentemente dominada pela ironia e pela autoconsciência, Spielberg continua apostando no encantamento. Isso não significa ingenuidade. O diretor reconhece as contradições humanas, expõe interesses econômicos obscuros e observa comportamentos moralmente questionáveis. Ainda assim, existe uma recusa em abandonar a possibilidade de esperança. O desconhecido surge como oportunidade de transformação. É cafona? Talvez, mas Spielberg segue fiel ao que acredita.
Nem todos os caminhos percorridos pela narrativa mantêm a mesma consistência. O primeiro ato apresenta oscilações de ritmo perceptíveis, resultado de uma montagem que demora a encontrar a cadência adequada para equilibrar exposição e suspense. Certos momentos também se aproximam de um sentimentalismo que pode provocar divisões entre espectadores – existe uma cena de um resgate que, embora faça sentido com a proposta, é muito anti-climática. Spielberg nunca escondeu seu interesse por emoções amplificadas, e aqui novamente flerta com uma sensibilidade que alguns podem considerar excessiva.

Curiosamente, essas escolhas dialogam diretamente com a proposta temática do filme. Enquanto boa parte do entretenimento contemporâneo parece desconfiar da sinceridade, Dia D insiste em abraçá-la. E isso ganha peso com a contribuição de John Williams. Sua trilha sonora ajuda a construir uma atmosfera de descoberta permanente. Os temas alternam momentos de contemplação quase espiritual com passagens de grande intensidade dramática, reforçando a dimensão épica dos acontecimentos sem sufocar a intimidade dos personagens.
Chega a ser significativo que, aos 79 anos, Spielberg escolha retornar à ficção científica para discutir fé, poder, informação e humanidade. Não como exercício nostálgico, mas como tentativa de dialogar com inquietações atuais. O filme observa um mundo fragmentado e sugere uma reflexão sobre a capacidade coletiva de escutar, compreender e aceitar aquilo que desafia nossas convicções mais arraigadas.
Entre visões cósmicas, dilemas éticos e conflitos de poder, Dia D não é um filme sobre revelações ao que existe além do céu, mas é uma investigação do que permanece escondido dentro de nós. Essa inversão que transforma sua jornada num debate, do que a descoberta mais extraordinária não necessariamente está no espaço, mas na forma como reagimos quando somos confrontados por algo que ultrapassa os limites da nossa própria compreensão.
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