Crítica | O verdadeiro romance de 'Hit Para Dois' acontece dentro de uma canção
Diamond Films/Divulgação

Crítica | O verdadeiro romance de ‘Hit Para Dois’ acontece dentro de uma canção

Para quem fazemos uma canção? A pergunta parece simples quando lançada ao vento, mas ganha outro peso quando retorna como eco. Talvez escrevamos músicas para alguém específico. Talvez para nós mesmos. Talvez para ninguém. Quem vive da escrita conhece bem essa sensação. Publicar um texto não é tão diferente de deixar uma melodia escapar pela janela de um quarto. Existe a esperança de que alguém a encontre, mas raramente se sabe quem será. Em Hit Para Dois, essa inquietação atravessa cada escolha dos personagens. Não por acaso, o novo filme de John Carney transforma a música em algo maior do que uma profissão ou um sonho. Ela é forma de comunicação entre pessoas que nem sempre conseguem dizer em voz alta aquilo que sentem.

A trama acompanha Rick Power (Paul Rudd), músico americano que trocou a promessa de uma carreira grandiosa por uma vida familiar na Irlanda, e Danny Wilson (Nick Jonas), ex-integrante de uma boy band que busca desesperadamente provar que existe um artista por trás da imagem fabricada pelo mercado. Os dois se encontram durante uma festa de casamento, compartilham uma noite de conversa, improviso e inspiração, e dessa conexão nasce uma canção que atravessará suas vidas de maneiras inesperadas.

Carney está interessado em investigar o que acontece quando pessoas comuns encontram, através da arte, uma forma de reorganizar o próprio caos. Isso atravessa toda sua filmografia, seus personagens costumam estar perdidos em alguma medida. Carregam frustrações, arrependimentos ou com sonhos incompletos. A música não resolve esses problemas, mas cria pontes temporárias sobre eles.

Em Hit Para Dois, essa dinâmica ganha contornos interessantes porque o conflito central não nasce da ausência de talento, mas da autoria. A partir do momento em que uma composição compartilhada se transforma em motivo de disputa, o filme passa a circular em torno de uma questão delicada: a quem pertence uma canção? Ao primeiro impulso criativo? À pessoa que a conclui? Àquele que a interpreta? Ou ao público que a transforma em memória afetiva?

A inteligência do roteiro aparece na recusa em oferecer respostas. O caminho mais previsível seria transformar Danny em vilão e Rick em vítima. O longa prefere trafegar por zonas mais nebulosas. Danny vive cercado pelos privilégios da fama, mas também por suas armadilhas. Sua necessidade de validação parece menos movida pela ambição pura e mais pela tentativa desesperada de construir uma identidade própria. Já Rick carrega uma melancolia silenciosa de quem abandonou uma versão possível de si mesmo muitos anos atrás.

Crítica | O verdadeiro romance de 'Hit Para Dois' acontece dentro de uma canção
Diamond Films/Divulgação

A força dramática dessa relação depende diretamente da química entre Paul Rudd e Nick Jonas. Rudd encontra nuances pouco exploradas em sua filmografia recente. Acostumado a personagens espirituosos e permanentemente simpáticos, o ator trabalha aqui uma fragilidade emocional que torna Rick extremamente humano. É doloroso o olhar que ele faz ao observar o sucesso alheio. Não necessariamente por inveja, mas pela consciência inevitável das escolhas que fez.

Jonas, por sua vez, compreende bem os mecanismos internos de Danny. Seu personagem poderia facilmente se tornar apenas um arquétipo do astro pop inseguro. O ator evita esse caminho ao construir alguém simultaneamente carismático, egoísta, vulnerável e sincero. Existe uma solidão em Danny, uma incapacidade de distinguir o que pertence à sua imagem pública e o que realmente faz parte de quem ele é.

Crítica | O verdadeiro romance de 'Hit Para Dois' acontece dentro de uma canção
Diamond Films/Divulgação

O encontro desses dois homens cria o verdadeiro coração do filme. Não porque eles compartilhem trajetórias semelhantes, mas justamente porque representam estágios distintos da mesma pergunta. O que sobra quando os sonhos mudam de forma?

Hit Para Dois funciona tão bem como uma comédia romântica sem romance tradicional. O amor central da narrativa não está direcionado a uma pessoa específica. Está direcionado à própria música. Rick e Danny se apaixonam pela possibilidade criativa que encontram um no outro. O filme trata a composição musical como um relacionamento vivo, feito de entusiasmo, conflito, cumplicidade e ruptura.

Nesse aspecto, a direção de Carney demonstra novamente sua habilidade singular para filmar processos criativos. Muitos cineastas registram músicas prontas. Carney se interessa no instante anterior. Naquele momento quase invisível em que uma ideia ainda não sabe exatamente o que será. Um acorde surge. Uma frase incompleta aparece. Um refrão encontra sua forma. O diretor traduz esses pequenos milagres cotidianos em linguagem cinematográfica.

A fotografia acompanha essa proposta com discrição elegante. Não existe uma preocupação em criar imagens grandiosas ou excessivamente estilizadas. A câmera privilegia rostos, olhares e espaços compartilhados. Os pubs, as ruas irlandesas e os ambientes domésticos possuem uma textura acolhedora que reforça a sensação de proximidade. Tudo parece habitado por pessoas reais.

A trilha sonora ocupa naturalmente papel central. Embora algumas composições talvez não alcancem imediatamente o mesmo impacto cultural associado às músicas de “Sing Street” ou “Once”, existe uma qualidade interessante na forma como elas se integram à narrativa. A principal delas, “How to Write a Song (Without You)”, não funciona apenas como uma música dentro da história. Ela se transforma em símbolo das tensões emocionais dos personagens.

Outro elemento relevante é a maneira como o longa discute sucesso sem cair em discursos rasos sobre autenticidade artística. O cinema frequentemente romantiza o fracasso criativo ou demoniza a popularidade. Carney evita ambos os extremos. Danny deseja reconhecimento legítimo. Rick já desejou o mesmo. Nenhum dos dois está necessariamente errado por isso. O conflito surge quando a busca por validação começa a substituir a conexão genuína com aquilo que motivou a criação em primeiro lugar.

Essa reflexão atravessa o filme numa época marcada por métricas, algoritmos e visibilidade permanente. Produzir arte tornou-se inseparável da necessidade de exposição. O longa observa esse cenário sem nostalgia exagerada, mas também sem ignorar seus efeitos emocionais.

Crítica | O verdadeiro romance de 'Hit Para Dois' acontece dentro de uma canção
Diamond Films/Divulgação

Existe ainda algo reconfortante na forma como a narrativa enxerga os vínculos familiares. Em vez de tratar a família como obstáculo para a realização pessoal, Hit Para Dois sugere que certos sonhos não desaparecem quando mudam de direção. Eles apenas encontram novos formatos. Rick talvez não tenha se tornado o astro que imaginava ser na juventude, mas isso não significa necessariamente que sua trajetória tenha sido menor.

Esse olhar generoso atravessa toda a obra. Não como ingenuidade, mas como escolha artística. Carney continua interessado em personagens que acreditam na possibilidade de conexão. Sua filmografia inteira parece construída sobre essa ideia. O que é bastante reconfortante, num período tão marcado pelo cinismo dentro da indústria.

Para quem fazemos uma canção? Depois de acompanhar a trajetória de Rick e Danny, a pergunta retorna com ainda mais força do que quando abriu esta crítica. Talvez porque Hit Para Dois compreenda que a resposta nunca é definitiva. Escrevemos para alguém que amamos, para uma ausência, para uma lembrança, para um futuro imaginado ou simplesmente para preencher um silêncio. Afinal, chega um momento em que a obra deixa de ser nossa e passa a existir no mundo por conta própria. Tão importante quanto os artistas é ter gente que ame, interprete e consuma essa arte.

Leia também:

Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.