review Beast of Reincarnation

Review | Beast of Reincarnation é uma boa surpresa, mas deixa claro seus defeitos e não são poucos

O encontro entre Sekiro e Stellar Blade, mas sem a qualidade dos dois

O encontro entre Sekiro e Stellar Blade, mas sem a qualidade dos dois

Eu preciso começar esta review de Beast of Reincarnation com uma confissão: eu não gosto de Pokémon. Os últimos jogos da franquia que realmente joguei foram Pokémon Snap, no Nintendo 64. Nunca acompanhei os lançamentos principais, não jogo os títulos atuais e sequer tenho interesse em Pokémon no celular. Ainda assim, eu reconheço a importância gigantesca da série para a indústria.

Foi justamente por isso que fiquei tão curioso quando a Game Freak anunciou um RPG de ação com visual mais realista e uma proposta muito diferente de tudo o que o estúdio costuma fazer. A curiosidade não foi só minha. Grande parte da comunidade gamer ficou tentando imaginar como a criadora de Pokémon se sairia em um projeto dessa escala.

Depois de 29 horas de campanha concluída no PlayStation 5 base, posso dizer que Beast of Reincarnation foi uma boa surpresa pra mim. Ele não é um jogo perfeito, longe disso, mas também está muito distante de ser apenas uma experiência esquecível.

Se eu precisasse resumir a sensação inicial em poucas palavras, diria que ele parece um encontro improvável entre Sekiro, Stellar Blade, NieR: Automata e Final Fantasy VII Rebirth, com pitadas de Matrix e até Avatar em sua construção de mundo e em alguns temas de ficção científica.

Sem mais enrolação, fica comigo nesta review de Beast of Reincarnation e saiba mais da aventura de Emma e Ko:

Esta review de Beast of Reincarnation foi realizada com uma chave cedida pela Fictions, a quem agradecemos pelo apoio e confiança

Um Japão pós-apocalíptico cheio de mistérios

Começando esta review de Beast of Reincarnation pela história. Ela se passa no Japão do ano 4026, um mundo devastado pela Pestilência, uma força que corrompe plantas, animais e seres humanos, transformando-os em criaturas monstruosas chamadas Profanos.

Controlamos Emma, uma jovem marcada pela Pestilência desde o nascimento. Criada em uma colônia, ela não conhece sua origem e perdeu completamente as memórias do passado. Sua missão é proteger seu lugar e caçar os Nushi, criaturas semi-divinas que espalham a corrupção pelo mundo.

Ao seu lado está Ko, um companheiro canino que rapidamente se torna o coração emocional da aventura. Também fazem parte do núcleo principal personagens como Brad, piloto do Caminhante Purificador, Violet, uma misteriosa garota visível apenas para Emma, Kagura, responsável pela cozinha e pela estufa do grupo, além de figuras como Kunai e Mikoto, que ganham importância conforme a trama avança.

O jogo trabalha com um elenco relativamente pequeno de NPCs. Isso obriga a narrativa a depender muito da densidade dos personagens, e aqui começam os altos e baixos.

Emma demora demais para conquistar o jogador

Nos primeiros 60% da campanha, eu tive dificuldade para me conectar com Emma. Ela praticamente não demonstra emoções: não sente medo, raiva, empatia ou entusiasmo. O roteiro explica o motivo dessa apatia, mas isso não impede que a protagonista pareça distante durante boa parte da jornada.

Já Ko funciona exatamente no extremo oposto. Como alguém apaixonado por animais, especialmente cães e lobos, eu me apeguei a ele quase imediatamente. Em vários momentos, a relação entre Emma e Ko me lembrou filmes como Marley & Eu e Sempre ao Seu Lado. Não chega a ser um jogo que me fez chorar, algo que nunca aconteceu comigo em videogames, mas o final conseguiu me deixar genuinamente tenso e emotivo.

Quando a história engrena, ela realmente funciona

O que começa como uma fantasia sombria relativamente simples vai revelando camadas de ficção científica, política, utopia, ambição, traição e sacrifício pessoal. A presença de Violet é fundamental para sustentar o mistério, enquanto Brad surpreende por possuir muito mais profundidade do que aparenta inicialmente.

O jogo também explica de forma satisfatória conceitos importantes como:

  • a origem dos Golems, humanos que transferiram suas almas para corpos mecânicos há milhares de anos;
  • o papel da Capital e de Shambala;
  • o ciclo da Fera da Reencarnação, entidade responsável pela queda da civilização antiga e pelo surgimento dos Profanos;
  • a própria natureza da Pestilência.

O desfecho amarra bem as pontas e ainda deixa um gancho claro para uma possível sequência. Eu comecei a campanha achando a história apenas mediana, mas terminei bastante satisfeito com a direção que ela toma.

A Game Freak tropeça na forma de contar essa história

Aqui entra uma das maiores críticas nesta review de Beast of Reincarnation.

Algumas das informações mais importantes da narrativa são entregues por áudios e diálogos que acontecem enquanto você continua jogando. Existe um áudio específico de Brad que explica praticamente toda a base do universo: a razão da existência da Capital, o surgimento da Pestilência, quem são os Golems e por que Emma precisa caçar a Fera da Reencarnação.

O problema é que o jogo não pausa a ação durante esse momento. Como Beast of Reincarnation não possui dublagem em português, apenas legendas, eu precisei literalmente parar de jogar, largar o controle e esperar o áudio terminar para conseguir ler tudo.

Isso acontece com frequência menor em outros diálogos, especialmente nas comunicações de Kagura, que muitas vezes interrompe exploração ou combate para comentar coisas triviais, como ovos colhidos na incubadora ou receitas novas para cozinhar.

Fica evidente que a Game Freak ainda não tem a mesma experiência de estúdios especializados em RPGs narrativos quando o assunto é direção cinematográfica e controle de ritmo das revelações.

O combate é o que realmente segura o jogo

Apesar dos problemas, o combate foi o elemento que mais me divertiu.

Ele tem uma influência claríssima de Sekiro no uso constante de parry e leitura de movimentos, enquanto o ritmo acelerado e os combos lembram bastante Stellar Blade. Ao mesmo tempo, existe uma camada estratégica interessante graças às habilidades de Ko.

Ko não é só um pet que bate nos inimigos

Ko funciona quase como um sistema de suporte inteligente em tempo real. Dependendo das habilidades equipadas, ele pode:

  • curar Emma automaticamente;
  • aplicar corrosão e outros efeitos negativos;
  • ressuscitar Emma quando ela morre; – Dica: pegue logo esta habilidade
  • usar buffs ofensivos e defensivos durante a batalha;
  • recuperar recursos ligados às habilidades florais.

A melhor comparação que consigo fazer é com os elixires temporários dos jogos da FromSoftware, só que aqui quem gerencia isso dinamicamente é o próprio Ko. Minha preocupação durante as lutas raramente era abrir menus para usar itens; eu podia focar em parry, esquiva, posicionamento e combos.

Sem stamina e sem escudo

Outro detalhe importante é que Emma não possui barra de stamina. Você pode correr e atacar o quanto quiser. Isso muda completamente a dinâmica em relação a um Soulslike tradicional.

A defesa se baseia exclusivamente em parry e esquiva. No começo ela possui apenas uma esquiva curta, mas depois é possível desbloquear uma rolagem mais eficiente, algo que recomendo pegar o quanto antes.

A janela de parry é surpreendentemente generosa. Mesmo jogadores menos acostumados com jogos de precisão devem conseguir aprender o timing relativamente rápido.

Combos variados e árvores de habilidade enormes

Emma e Ko possuem árvores de habilidade separadas, ambas bastante extensas. Conforme derrotamos os Nushi, Emma absorve suas memórias e desbloqueia novas técnicas.

O sistema de combos é um dos pontos mais fortes do jogo. Existem várias combinações entre ataques leves, pesados, golpes aéreos e habilidades florais, o que mantém o combate dinâmico durante boa parte da campanha.

Também gostei do fato de que as habilidades de Ko não podem ser repetidas imediatamente, obrigando o jogador a alternar entre diferentes poderes em vez de simplesmente spammar a mesma técnica.

Chefes repetitivos demais

Infelizmente, o sistema de combate encontra seu maior problema justamente nos Nushi.

A maioria dos chefes possui apenas dois ou três movimentos relevantes. Em poucos minutos eu já entendia praticamente todo o padrão de ataque, o que tornava as lutas muito mais fáceis do que deveriam ser.

Além disso, existe um reaproveitamento evidente de criaturas. Você enfrenta versões diferentes dos mesmos animais corrompidos várias vezes ao longo da campanha. O próprio chefe final me decepcionou por apresentar um moveset extremamente limitado.

Os chefes humanos sofrem do mesmo problema: compartilham padrões de ataque muito semelhantes, o que reduz bastante a sensação de evolução e surpresa.

Somando isso à baixa variedade de inimigos comuns, provavelmente menos de oito tipos principais durante toda a aventura, o jogo acaba desperdiçando parte do potencial do seu excelente sistema de combate.

Exploração vertical e cheia de personalidade

A estrutura do mundo é dividida em capítulos, cada um com um mapa próprio, mas todos podem ser revisitados livremente. Não existem conteúdos perdíveis, algo que eu valorizo bastante.

Ko também brilha na exploração. Ele identifica:

  • Santuários, que aumentam a capacidade de cura;
  • Acampamentos, equivalentes às fogueiras de Dark Souls;
  • itens raros;
  • livros vendáveis;
  • inimigos poderosos;
  • segredos escondidos pelo mapa.

Gostei muito dos Golems Retentores, NPCs que fornecem apenas uma informação antes de se desativarem. Você escolhe o que quer perguntar, e eles marcam no mapa a localização de armas, receitas, plantas raras ou áreas secretas.

A verticalidade é divertida, mas problemática

Emma pode planar e utilizar uma espécie de gancho com R2 para alcançar locais extremamente altos. Isso torna a exploração muito vertical e incentiva experimentar caminhos aparentemente impossíveis.

O problema é que o jogo frequentemente permite acessar áreas que claramente não deveriam ser alcançadas. Eu entrei em tetos invisíveis, atravessei paredes, vi Emma flutuando no ar e fui teletransportado involuntariamente para outros pontos do cenário. É uma ótima ideia de design prejudicada por uma execução técnica insuficientemente polida.

Culinária e cultivo parecem encheção de linguiça

O Caminhante Purificador funciona como base principal entre as missões. Lá podemos plantar ingredientes, criar galinhas, coletar ovos e cozinhar refeições com Kagura.

Na prática, achei esse sistema superficial demais. Os bônus concedidos pelas comidas são muito pequenos e raramente fizeram diferença perceptível no combate ou na exploração. Passei boa parte da campanha ignorando completamente essa mecânica sem sentir qualquer prejuízo relevante.

Visual irregular e poucos incentivos estéticos

Visualmente, Beast of Reincarnation alterna momentos bonitos com uma quantidade considerável de problemas técnicos.

Os cenários em Beast of Reincarnation conseguem transmitir bem a atmosfera de um Japão pós-apocalíptico, mas encontrei muitos bugs de colisão e clipping durante a minha jornada para a review. Emma atravessa paredes com frequência, Ko entra dentro da personagem e a câmera ocasionalmente se comporta de forma estranha em áreas mais apertadas.

Outro detalhe que me incomodou foi a falta de customização visual. As armaduras alteram atributos e espaços de habilidade, mas praticamente não mudam a aparência de Emma. Passei o jogo inteiro com a sensação de estar usando sempre a mesma roupa, algo que reduz bastante a recompensa de encontrar novos equipamentos.

Vale destacar que, apesar da comparação inevitável com Stellar Blade, o jogo não aposta em sensualidade ou fan service.

Trilha sonora boa, mas exageradamente presente

A trilha sonora segue uma filosofia muito parecida com a de Stellar Blade: a música quase nunca para de tocar.

As composições são agradáveis, mas ouvir a mesma faixa durante 30 ou 40 minutos de exploração acaba cansando. Em alguns momentos eu senti que a música constante tirava parte da seriedade de cenas importantes, especialmente em acontecimentos mais sombrios ou dramáticos.

Acabei reduzindo bastante o volume da trilha durante a campanha para evitar desgaste.

Os efeitos sonoros, por outro lado, são excelentes. O som do parry é particularmente satisfatório e contribui muito para a sensação de impacto do combate.

O jogo possui áudio em inglês e japonês, com textos e legendas totalmente localizados em português, embora eu ache que as legendas poderiam ser um pouco maiores.

Fator replay: o New Game Plus aumenta a vida útil da jornada

Quando falamos de fator replay em Beast of Reincarnation, ele existe principalmente por causa do New Game Plus. Depois de finalizar a campanha, o jogador desbloqueia uma nova dificuldade mais desafiadora, onde os inimigos ficam mais fortes, mas Emma e Ko começam a próxima jornada mantendo parte da evolução conquistada anteriormente.

Esse modo também é obrigatório para quem busca a platina do jogo. Durante uma primeira jogatina normal, é bem difícil conseguir desbloquear todas as habilidades das duas árvores de evolução, principalmente se você não parar para fazer farming de experiência, Âmbar e recursos.

No meu caso, finalizei a campanha com 29 horas e ainda deixei algumas habilidades bloqueadas tanto da Emma quanto do Ko. Eu não fiquei farmando durante a aventura, algo que hoje eu evito bastante em jogos, então naturalmente não consegui liberar tudo antes do encerramento da história.

Caso você tenha paciência para repetir áreas e acumular recursos, existe a possibilidade de completar praticamente tudo em uma única campanha. Porém, para jogadores que preferem seguir a história sem ficar repetindo atividades, o New Game Plus acaba sendo o caminho mais natural.

Além disso, a segunda jornada serve como uma oportunidade para experimentar novas combinações de habilidades, testar diferentes espadas elementais e explorar melhor todas as possibilidades do combate entre Emma e Ko.

Vale a pena jogar?

Finalizo esta review de Beast of Reincarnation dizendo que esse é um jogo que me deixou dividido em vários momentos. A nova aposta da Game Freak mostra que o estúdio tem capacidade para criar algo além de Pokémon, mas também deixa claro que ainda existe um caminho grande para amadurecer em alguns aspectos de desenvolvimento.

Durante a minha jornada de 29 horas, eu encontrei um jogo com uma história que começou de maneira lenta, mas que conseguiu me conquistar conforme os mistérios de Emma, Ko e daquele mundo devastado pela pestilência foram sendo revelados.

A mistura de ficção científica, drama e elementos que lembram obras como Matrix funcionou muito bem para mim, principalmente quando o jogo começa a explicar quem são os personagens e qual é o verdadeiro papel de cada um naquela realidade.

O grande destaque, sem dúvidas, fica para a relação entre Emma e Ko. Eu sou apaixonado por animais, então ter um companheiro como Ko acompanhando toda a jornada foi algo que me conquistou desde os primeiros momentos. Ele não é apenas uma ferramenta de combate, mas uma parte fundamental da experiência, tanto na narrativa quanto na jogabilidade.

Um primeiro passo promissor para a Game Freak

O combate também é um dos pontos mais fortes do jogo. Quando você entende a importância do parry, aprende a alternar entre as habilidades florais de Emma e utiliza corretamente os recursos do Ko, a experiência fica muito divertida. A sensação de lutar como uma dupla realmente funciona e faz com que os confrontos tenham uma identidade própria.

Por outro lado, existem problemas que impedem o jogo de alcançar um nível ainda maior. A variedade de inimigos é limitada, os chefes poderiam ter movimentos mais criativos, a exploração apresenta alguns problemas técnicos e a forma como alguns diálogos importantes são apresentados mostra uma falta de experiência da Game Freak em construir uma aventura desse tamanho.

Mesmo com esses problemas que tive durante a review, eu acredito que Beast of Reincarnation é um passo importante para o estúdio. Não é um jogo perfeito, mas é uma tentativa muito interessante de sair da zona de conforto e criar algo completamente diferente do que a Game Freak costuma entregar.

No fim, Beast of Reincarnation é uma experiência com defeitos evidentes, mas também com boas ideias, um combate divertido e uma história que conseguiu me surpreender positivamente. Eu espero que uma possível sequência aproveite tudo aquilo que funcionou aqui e corrija os problemas, porque existe potencial para a Game Freak construir uma nova franquia muito interessante.

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Apaixonado por games, filmes, séries, músicas, HQ's e por cachorros. Jogos desafiadores são meus preferidos. Jogo, assisto, ouço, leio e, às vezes, exerço minha profissão de professor.