Crítica | Anatomia do Caos disseca o óbvio com um bisturi pouco amolado
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Crítica | Anatomia do Caos disseca o óbvio com um bisturi pouco amolado

Existe um paradoxo na proposta –  e também no próprio título – de Anatomia do Caos. Dissecar pressupõe revelar camadas que o olhar comum não alcança, descobrir, sob a pele do óbvio, alguma estrutura inédita. Mas o que ocorre quando o bisturi de Dandara Ferreira percorre exatamente os mesmos cortes que o noticiário, as redes sociais e a memória coletiva já fizeram, ano após ano, desde 2020? É essa tensão entre prometer revelação e entregar apenas reconhecimento que atravessa seu novo novo longa-metragem, e que talvez resuma seu maior impasse: o material é abundante, a montagem é competente, mas o filme parece, antes de tudo, uma versão estendida – e cinematográfica – daquilo que qualquer telejornal de fim de ano já fez ao revisitar a pandemia.

A obra se debruça sobre a gestão federal da Covid-19 no Brasil, recortando do vasto arquivo televisivo – sobretudo da TV Senado – os episódios mais emblemáticos do período, as falas públicas de Jair Bolsonaro minimizando o vírus, a promoção de tratamentos sem comprovação científica, o sucateamento proposital das negociações por vacinas e, como eixo organizador da narrativa, os depoimentos prestados à CPI da Covid. A partir desses depoimentos – repletos de contradições, esquecimentos seletivos e situações eletronicamente acidentadas, como chamadas que travam ou se desconectam – a diretora costura uma linha do tempo cronológica, dos primeiros casos às centenas de milhares de mortes, na tentativa de reconstituir, em bloco, a tragédia sanitária do país.

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O problema não está na escolha do tema, tampouco na urgência de não deixar tal episódio soçobrar no esquecimento. A questão é estrutural. Ao optar pelo formato panorâmico e didático, o documentário parece dirigido a um espectador hipotético que desconheça completamente os fatos – alguém que, de algum modo, escapou ileso aos últimos seis anos de notícias, debates e disputas em torno do tema.

Para qualquer pessoa minimamente atenta ao noticiário daquele período, o filme tende a operar como repetição. É justamente aí que reside o ponto mais delicado da obra, sua pouca exploração para além do que já está disponível a quem acompanhou o país com atenção razoável, e essa limitação a aproxima perigosamente de uma reportagem especial de TV aberta – com seus blocos cronológicos, sua contagem progressiva de óbitos na tela e sua trilha sonora de tensão crescente, quase emulando o gênero true crime – mais do que de uma experiência genuinamente cinematográfica.

Tal escolha não é isolada no panorama recente do documentário brasileiro. Produções como “Quando Falta o Ar” já havia se debruçado sobre o mesmo período histórico, articulando o caos sanitário ao caos político do governo em exercício. A insistência temática não é, por si, um defeito – afinal, o trauma coletivo continua a demandar elaboração simbólica, e nenhum tema deveria ser considerado esgotado apenas por ter sido tratado antes. O que se discute é se o filme em questão consegue oferecer algum ângulo, alguma textura particular, que justifique sua existência ao lado dessa obra anterior – ou se apenas reafirma, com outros recortes de arquivo, uma indignação já amplamente compartilhada.

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A fotografia e a direção de arte são, em grande medida, subordinadas ao material de arquivo: trata-se, antes de tudo, de um filme de montagem, no qual a curadoria das imagens televisivas e dos depoimentos públicos faz o trabalho mais visível. Esse aspecto levanta uma questão interessante sobre o próprio estatuto da obra: quanto de autoria existe num documentário que se constrói majoritariamente a partir do que outras câmeras já registraram? A resposta não é simples, e tampouco unívoca – há, certamente, um exercício de seleção e de ritmo que cabe à direção, ainda que esse exercício nem sempre seja suficiente para configurar um olhar autoral evidente.

A trilha sonora, por sua vez, talvez seja o elemento mais discutível da experiência. Ao optar por composições de suspense para acompanhar revelações que, para boa parte do público, já deixaram de ser revelação, o filme parece pedir emoção onde talvez devesse pedir reflexão. Esse mecanismo levanta uma pergunta que extrapola este filme. Como abordar audiovisualmente um trauma coletivo recente sem reduzi-lo a espetáculo de indignação? A linha entre testemunhar e explorar emocionalmente uma ferida ainda aberta é tênue, e cada escolha de montagem – incluindo o uso de contadores numéricos de mortos – pavimenta esse território de maneira distinta.

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No fundo, o que está em jogo está menos na precisão dos fatos apresentados – afinal, a gestão criticada é amplamente documentada e dificilmente contestável em sua gravidade – e mais a pergunta sobre qual deveria ser o papel do cinema documental diante de uma tragédia ainda recente. Caberia ao audiovisual funcionar como repositório de memória factual, organizando cronologicamente o que se sabe? Ou caberia a ele buscar ângulos, vozes e formas menos óbvias, capazes de provocar um entendimento novo sobre aquilo que, de outro modo, já circula amplamente pela cultura?

O filme não resolve essa tensão – e nem tem a obrigação de resolvê-la –, mas a coloca em evidência particularmente nítido, ironicamente, seu valor mais duradouro, não o de uma anatomia definitiva do caos vivido, mas o de um convite a pensar, ainda que pelas margens, sobre os limites e as possibilidades do documentário político contemporâneo.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.