Chamar alguém de divina costuma reservar-se a quem transforma um palco em templo e uma plateia em congregação. Foi esse apelido que a França emprestou, ainda em vida, à mulher que reinventou a arte de interpretar – e é o mesmo adjetivo que dá título ao novo longa dirigido por Guillaume Nicloux. Ao sair da sessão de A Divina Sarah Bernhardt, resta perguntar: divina por quê? Pelo talento que a tornou a primeira estrela de alcance mundial, ou pelos amores que atravessou como quem atravessa atos de uma peça? Na maior parte de sua duração, o filme escolhe a segunda resposta – e é essa escolha que merece ser colocada em discussão.
A narrativa abre pelo final. Fotografias reais do cortejo fúnebre que, em 1923, parou Paris para se despedir de Sarah Bernhardt. Dali, o roteiro recua a 1915, quando a atriz precisa amputar uma perna e recebe a visita do jovem Sacha Guitry (Arthur Mazet), que propõe registrá-la em película – encontro que reabre as comportas da memória e joga a trama de volta a 1896, ápice da carreira e da vida mundana da protagonista em plena Belle Époque parisiense. A partir daí, o filme transita entre festas movidas a excesso, o affair intermitente com o ator Lucien Guitry, interpretado por Laurent Lafitte, as dívidas de jogo do filho Maurice (Grégoire Leprince-Ringuet) e aparições protocolares de nomes como Sigmund Freud, Oscar Wilde, Victor Hugo e Émile Zola, todos orbitando o salão da diva.

Sobre a entrega de Sandrine Kiberlain no papel-título não paira dúvida. A atriz maneja sarcasmo, extravagância e fragilidade numa alternância que nunca parece pedir licença, e cada réplica cortante soa recém-inventada, mesmo quando reproduz falas históricas da personagem. É graças a ela que o longa respira sempre que a montagem insiste em arrastar os pés.

E arrastar os pés é, em boa parte, o que a direção faz. Nicloux aposta numa câmera trêmula, colada aos ombros do elenco, buscando emprestar à ficção uma textura de registro quase documental – recurso usado à exaustão, que cansa mais do que qualquer outra coisa, quando bastariam enquadramentos mais discretos para insinuar intimidade sem transformar a sessão num exercício de paciência ocular. A fotografia acerta, em compensação, quando se detém sobre figurinos e cenários: o excesso material que cercava a diva – joias, tecidos, interiores dourados – ocupa a tela como quase-personagem, enquanto a trilha sonora permanece discreta demais para reivindicar qualquer protagonismo, funcionando como pano de fundo em vez de voz própria.

O nó real, porém, está no roteiro de Nathalie Leuthreau. Bernhardt foi mulher que desafiou convenções: fundou companhia própria, dirigiu a si mesma, sustentou maternidade solteira, engajou-se publicamente em causas políticas – o caso Dreyfus surge ali, citado, tratado como nota de rodapé. Suas convicções sobre o amor livre e sobre viver sem se prender a ninguém aparecem em diálogo, quase como itens de uma lista, raramente encarnadas em cena. O talento que a levou a plateias de Londres a Nova York é comentado por terceiros, nunca demonstrado: testemunha-se a fama sendo narrada, não construída diante dos olhos. Em compensação, o affair com Lucien Guitry ocupa o centro do quadro – e é aí que mora o incômodo de uma mulher que dizia recusar a prisão do romance sendo apresentada, na tela, majoritariamente presa a ele.
Esse desequilíbrio não é exclusividade francesa nem deste roteiro específico. O mesmo tipo de escolha já rendeu debate em outras cinebiografias femininas: “Blonde”, sobre Marilyn Monroe, escavou o sofrimento afetivo da atriz em detrimento do talento que a tornou ícone. Cabe perguntar se existe um padrão entre diretores homens ao retratarem mulheres notáveis: transformar a genialidade em pano de fundo e o coração partido em protagonista central. Não é acusação fácil de fechar, tampouco regra sem exceção – mas o padrão se repete com frequência que incomoda.
A cena mais eloquente do longa, no entanto, talvez seja outra. Lucien Guitry, que ao longo de décadas tentou repetidas vezes romper a relação sem nunca conseguir, aparece diante do túmulo da atriz dizendo, em essência, que foi ela quem finalmente o deixou. A morte só conseguiria separá-los por dois anos – ele viria a falecer logo depois. É um instante de comoção genuína, quase involuntariamente irônico. Afinal, o roteiro escolhe fechar não com a companhia teatral que Bernhardt fundou, nem com o público que a consagrou em dois continentes, mas com o homem que ela, em vida, tentou não deixar se tornar o centro de sua história.
Sobra uma sensação dupla. De um lado, a vontade quase física de correr atrás de uma biografia, um documentário, qualquer material que preencha as lacunas que o filme abre e não fecha sobre a artista que reinventou a interpretação teatral. De outro, a pergunta sobre por que, mais de um século após sua morte, ainda seja mais simples contar essa mulher pelos homens que amou do que pelo palco que a tornou, de fato, divina. O debate sobre quem tem o direito de narrar a genialidade feminina – e por qual ângulo escolhe fazê-lo – segue tão aberto quanto ficou a plateia ao se acenderem as luzes.
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