Quando nos despedimos de Grace (Samara Weaving) no final de “Casamento Sangrento”, em 2019, ela era só ironia. Sentada num degrau de pedra, com o vestido de noiva em frangalhos e uma fumaça subindo da mansão em chamas às suas costas, a recém-casada explicou à polícia o ocorrido com um simples e seco “meus sogros”. Era o tipo de piada que funcionava porque o filme todo equilibrava, com uma bússola moral do ridículo e o aterrorizante. E, cá entre nós, é bastante cômico o jeito como os satanistas são tratados, com essa seriedade burocrática, perde qualquer verniz de sofisticação ou medo, e se revela exatamente o que é: um clube de playboys ricos com fantasias mal-ajambradas e manuais de procedimento.
Pois bem. Sete anos depois, Casamento Sangrento 2: A Viúva chega aos cinemas querendo provar justamente isso, o inferno são os outros, especialmente quando eles estão de posse de um contrato social de duzentas páginas. A sequência retoma do exato momento em que Grace solta sua pérola e desmaia nos braços dos paramédicos. Mas o clima, meus caros, já não é mais o mesmo.
Na trama, Grace descobre que sobreviver à família Le Domas foi apenas o começo do seu azar. Havia um conselho superior, formado por seis famílias que fizeram pactos com o tal de Sr. Le Bail – ou do Diabo, para melhor entendimento –, e agora todas estão de olho na cadeira vaga deixada pelos sogros explodidos no longa anterior. A solução? Mais uma rodada de esconde-esconde, claro. Só que agora as regras são ainda mais numerosas e, por isso mesmo, mais idiotas. É aí que entra Elijah Wood, e que acerto de casting.

O ator, que nos últimos anos parece ter abraçado com gosto para personagens esquisitos, vive o advogado do diabo – literalmente. Com um sorriso cínico e a paciência de um funcionário público explicando pela terceira vez o mesmo formulário, Wood é a alma do filme. Sua função é basicamente entregar blocos enormes de exposição, e embora eu torça geralmente o nariz quando roteiros subestimam a inteligência do público, aqui a coisa funciona.
A mitologia satânica é tão cheia de cláusulas, subcláusulas e alíneas que precisávamos mesmo de alguém para traduzir aquela bagunça. O personagem de Wood é o elo entre o absurdo e a seriedade com que esses endinheirados tratam o próprio delírio. Ele não julga, não participa, apenas observa – e nós, com ele.
Dentro do longa, a personagem da Kathryn Newton surge como Faith, a irmã afastada que vira companheira de desgraça. A dinâmica entre as duas funciona bem, especialmente quando o roteiro deixa que elas apenas existam como irmãs chatas que se estranham. Samara Weaving continua sendo um espetáculo à parte, equilibrando o desespero de quem já fez isso tudo antes com a raiva legítima de quem não pediu para estar ali. Mas confesso que senti falta dos gritos operáticos do primeiro filme – aqui, Grace parece mais cansada do que aterrorizada, o que é compreensível, mas menos divertido.

No entanto, é difícil não sentir falta daquele frescor de mau-humor do original. Aqui, o tom pesa – e não estou falando só dos 950 litros de sangue de mentira que a produção fez questão de contabilizar. O problema talvez seja visual. Há algo de estranho na fotografia de Brett Jutkiewicz, como se o longa inteiro tivesse passado por um filtro de rede social que uniformiza tudo. O hospital tem a mesma paleta desbotada do campo de golfe onde ocorre a nova caçada, que por sua vez compartilha a mesma textura plastificada dos interiores do hotel. A diversidade de cenários, que deveria arejar a narrativa, acaba sufocada por um color grading que parece gritar “olha como isto é sombrio!”, mas entrega apenas um tom pastoso e monótono.
As outras escorregadas acontecem nas cenas de ação, ou em parte delas. A sequência que abre a caçada, em campo aberto, é uma colagem frenética de cortes tão rápidos que impossibilitam qualquer apreciação do que está acontecendo. Os corpos se movem, as armas disparam, mas a geografia da cena se perde.
Curiosamente, quando o filme finalmente se acerta, lá pelas tantas, Grace enfrenta Francesca (Maia Jae), a noiva preterida do falecido Alex, num salão de festas. Enquanto as duas se estapeiam com a fúria de quem tem contas a acertar, uma terceira personagem é submetida a uma espécie de tortura. A cena inteira é embalada por “Total Eclipse of the Heart”, de Bonnie Tyler. Há um swing, um timing cômico, uma compreensão de que o exagero é a chave. É o momento em Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, dupla por trás da direção, lembra que sabe fazer isso muito bem. Pena que tenham se levado tão a sério no resto.
A verdade é que Casamento Sangrento 2 é um filme sobre regras. Regras do jogo, regras sociais, regras do pacto. E, ao tratar o satanismo com sisudez acerta precisamente numa sátira – nada inédita, mas bem feita – de que ricos não se divertem nem quando vendem a alma. Mas o excesso de zelo com a própria mitologia acaba pesando. Há um momento, mesmo depois de muito diversão, em que você só quer que o sol nasça e aquilo tudo acabe.
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