O título Eclipse sugere um fenômeno de ocultação e alinhamento espacial, uma coincidência entre corpos que, por instantes, compartilham o mesmo eixo. A imagem não poderia ser mais adequada ao projeto da diretora e atriz Djin Sganzerla, que tenta alinhar, em um mesmo campo gravitacional, temas tão diversos quanto a violência de gênero, a maternidade, a ciência e a cosmologia indígena. O resultado é um filme que parece permanentemente em trânsito entre intenções – algumas delas boas, outras excessivamente explicadas –, como se orbitasse múltiplos centros sem se fixar inteiramente em nenhum.
A protagonista Cleo, interpretada pela própria cineasta, é uma astrônoma que vive entre tabelas, observações e projeções, mas também entre tarefas domésticas, relações familiares e uma gravidez que reconfigura sua percepção do mundo. A escolha de colocar uma cientista no centro da narrativa já estabelece um diálogo interessante entre racionalidade e intuição, cálculo e mito. A astronomia, no entanto, não se sustenta como fio condutor ao longo da trama: ela surge como ponto de partida simbólico, apenas para ser parcialmente eclipsada por outras urgências narrativas, sobretudo as que envolvem a proteção materna e o enfrentamento direto da violência.
Essa oscilação de foco se reflete na própria construção do roteiro, assinado por Sganzerla em parceria com Vana Medeiros. Há uma ambição evidente em abarcar múltiplas formas de opressão – abuso doméstico, exploração de menores, redes digitais misóginas –, mas a costura entre esses elementos nem sempre encontra a fluidez necessária. Em diversos momentos, a narrativa parece optar pela explicação em detrimento da sugestão, como se temesse que suas metáforas não fossem suficientemente claras por si. O didatismo, nesse sentido, não apenas sublinha os temas, como também reduz o espaço de ambiguidade que poderia enriquecer a experiência.
A insistente presença da onça é talvez o exemplo mais emblemático dessa estratégia simbólica. O animal surge reiteradamente ao longo do filme, em flashes que pretendem evocar tanto a ameaça quanto a força. De um lado, a onça representa o predador – metáfora transparente para a masculinidade violenta que ronda as personagens femininas. De outro, ela encarna uma potência quase mítica, associada à resistência e à proteção, especialmente quando relacionada às crenças indígenas que atravessam a narrativa. No entanto, a repetição dessas imagens, sem uma progressiva ressignificação, acaba esvaziando seu impacto.

Essa dificuldade de calibrar o uso das metáforas dialoga diretamente com a questão do tom. Djin parece interessada em transitar entre registros – do drama íntimo ao suspense, passando por momentos que flertam com o cinema de ação –, mas essa transição nem sempre ocorre de maneira orgânica.
A primeira metade do filme se baseia em situações cotidianas: discussões sobre financiamento de pesquisa, a reorganização da vida com a chegada de um bebê, as pequenas fricções de um relacionamento conjugal. Nesses momentos, a câmera se aproxima de uma vivência reconhecível, e a atuação da diretora se destaca por uma naturalidade que evita gestos grandiloquentes.
A fotografia acompanha essa proposta mais intimista, privilegiando espaços domésticos e ambientes de trabalho com uma luz que reforça a sensação de realidade. Há uma tentativa de construir um universo palpável, onde a violência surge como algo que se infiltrar em rotinas aparentemente estáveis. Essa abordagem, quando sustentada, cria um terreno fértil para o desconforto: a ideia de que o perigo pode estar justamente onde se espera segurança.

Entretanto, à medida que a narrativa avança, o filme passa a incorporar elementos mais explícitos de suspense. A trilha sonora desempenha um papel central nessa mudança, mas nem sempre de forma eficaz. O reencontro entre Cleo e sua irmã Nalu (Lian Gaia), por exemplo, ganha contornos quase de terror, com uma orquestração carregada que desloca o foco da cena.
Essa mesma lógica se estende à construção do antagonismo. Tony (Sergio Guizé), o marido de Cleo, que gradualmente se revela como figura ameaçadora, é apresentado por meio de recursos visuais bastante diretos: sombras projetadas, objetos simbólicos como o cinto, enquadramentos que sugerem vigilância. São escolhas que, isoladamente, poderiam funcionar, mas que, no conjunto, acabam soando sublinhadas demais. Falta uma gradação mais sutil, um desenvolvimento que permita que o medo se instale de forma mais insidiosa.
O clímax marca a tentativa mais evidente de aproximação com um cinema de ação. Há uma energia diferente nessas sequências, uma vontade de expandir a escala do filme e de inserir a protagonista em um papel mais ativo, quase heroico.

O paralelismo entre ciência e cosmologia indígena, anunciado desde o título, permanece como uma das ideias mais instigantes do projeto. A noção de que diferentes formas de conhecimento podem coexistir – e até se complementar – abre possibilidades ricas, tanto do ponto de vista estético quanto político. No entanto, essa relação se mantém mais como intenção do que como desenvolvimento efetivo. A astronomia, que poderia oferecer um contraponto racional às crenças sobre o eclipse, acaba sendo deixada em segundo plano, enquanto os elementos míticos não chegam a se aprofundar o suficiente para assumir protagonismo.
Há uma sensação constante de que Eclipse se movimenta entre polos sem se fixar completamente em nenhum. Essa indecisão não invalida o interesse do filme; pelo contrário, ela revela um processo criativo que se arrisca, que tenta articular diferentes discursos e linguagens. Ao mesmo tempo, evidencia os desafios de sustentar tantas camadas numa única estrutura narrativa.
O trabalho com o elenco secundário reforça essa percepção. Alguns atores optam por interpretações mais intensas, quase carregadas, enquanto outros seguem uma linha mais contida, próxima do naturalismo. Essa disparidade contribui para a impressão de que há múltiplos filmes coexistindo, cada um com sua própria lógica interna. Não se trata apenas de uma questão de direção de atores, mas de uma indefinição mais ampla sobre o registro que o filme pretende adotar.
O peso simbólico que recai sobre a protagonista – mulher, mãe, cientista, sobrevivente – também merece atenção. Cleo carrega em si uma série de funções que, em determinados momentos, parecem competir entre si. A tentativa de representar tantas dimensões da experiência feminina é compreensível, mas levanta a questão sobre até que ponto a personagem consegue se desenvolver para além dessas funções. Ainda assim, há momentos em que sua presença em cena, especialmente nos gestos mais simples, consegue ancorar o filme em uma realidade sensível.
A imagem do eclipse, afinal, permanece como chave interpretativa não apenas para o conteúdo, mas para a própria forma do filme. Há momentos em que os elementos se alinham e produzem um efeito de intensidade; em outros, a sobreposição resulta em sombra, em ocultação. Entre luz e escuridão, o longa percorre um caminho irregular, mas repleto de pontos de contato que convidam à reflexão sobre as múltiplas camadas da violência e sobre as formas – narrativas e simbólicas – de enfrentá-la.
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