É estranhamente familiar revisitar certas emoções quando se cruza a marca dos 30. Como se algumas versões nossas – mais impulsivas, mais caóticas, mais abertas ao acaso – continuassem circulando por aí, esperando um reencontro improvável. É nessa zona de atrito entre passado e presente que Erupcja, dirigido por Pete Ohs, encontra sua pulsação mais interessante: não como uma história de destino inevitável, mas como um retrato incômodo daquilo que insistimos em chamar de “conexão especial”.
A estreia de Charli XCX como protagonista no cinema chega carregada de uma bagagem emocional que não nasce exatamente na tela. Quem acompanhou a fase mais confessional da artista, especialmente durante o isolamento pandêmico, reconhece ecos de uma persona que sempre flertou com o excesso – seja ele emocional, estético ou comportamental. Em cena, sua Bethany parece orbitada por essa mesma energia; alguém que confunde intensidade com significado, como se sentir muito fosse, por si, justificativa suficiente para agir sem medida.
A narrativa se estrutura a partir de um encontro que, à primeira vista, parece banal. Uma viagem a Varsóvia, um namorado previsível – interpretado por Will Madden – e a promessa de um pedido de casamento. Só que a cidade, filmada com uma mistura curiosa de distanciamento e intimidade, rapidamente se transforma em um território de suspensão. Ohs, que também assina o roteiro em parceria com o elenco, demonstra interesse em capturar menos os eventos em si e mais as pequenas fissuras emocionais que surgem entre eles.

Quando Bethany decide procurar Nel (Lena Góra), o filme desloca seu eixo. O reencontro entre as duas não é tratado como um simples retorno afetivo, mas como um tipo de fenômeno quase místico –reforçado pela metáfora insistente dos vulcões que entram em erupção sempre que seus caminhos se cruzam. A ideia, que poderia facilmente descambar para o simbólico óbvio, ganha outra dimensão justamente pela forma como o filme se recusa a confirmá-la ou negá-la. Importa menos se há ou não uma ligação cósmica e mais o quanto essa crença molda decisões concretas.
Esse é um ponto em que Erupcja encontra sua camada mais interessante e provocativa. Ao acreditar na excepcionalidade do que vivem, Bethany e Nel parecem se autorizar a negligenciar tudo ao redor. Parceiros, compromissos, planos – tudo se torna secundário diante da promessa de algo maior, ainda que esse “maior” nunca se materialize plenamente. A ausência de um antagonista claro reforça essa leitura; não há vilões, apenas escolhas.
A câmera acompanha esse descompasso com uma linguagem que alterna entre o observacional e o deliberadamente estilizado. Em alguns momentos, há uma frieza quase documental nos enquadramentos abertos da cidade, como se Varsóvia existisse indiferente ao drama das personagens. Em outros, a proximidade sufocante dos closes parece aprisioná-las em suas próprias narrativas internas. Essa oscilação cria uma sensação curiosa de deslocamento, como se o filme nunca se fixasse completamente em um único ponto de vista.
A trilha sonora, assinada por Isabella Summers e Charles Watson, funciona como um elo entre essas duas dimensões. Há uma qualidade etérea nas composições que dialoga diretamente com a ideia de um romance que se percebe como extraordinário. Ao mesmo tempo, os silêncios – ou os momentos em que o som de uma cena invade a seguinte – sugerem uma continuidade emocional que independe da lógica narrativa tradicional. O uso de pre-lap sound – técnica de edição e roteiro onde o áudio da cena seguinte começa a ser ouvido antes que a imagem mude –, por exemplo, contribui para essa sensação de fluxo, como se passado e presente estivessem constantemente se infiltrando um no outro.
Ainda assim, nem todas as escolhas formais sustentam o peso que parecem carregar. Existe uma certa irregularidade na maneira como o filme distribui sua atenção entre os personagens. Quando se afasta de Bethany, a narrativa tende a perder parte de sua força, como se faltasse densidade nas outras perspectivas. Rob, por exemplo, acaba funcionando mais como um contraponto funcional do que como uma figura plenamente desenvolvida. Sua presença evidencia uma estabilidade que o filme parece enxergar quase como um avatar da monotonia.
A dificuldade de conciliar intensidade com permanência. Para quem atravessa a vida adulta carregando ainda resquícios de uma juventude mais caótica, essa dicotomia não soa estranha. Existe uma expectativa social silenciosa que associa maturidade a estabilidade – um emprego fixo, um relacionamento duradouro, uma trajetória previsível. Ao mesmo tempo, há quem resista a essa lógica, mantendo hábitos, desejos e até inseguranças que parecem deslocados nesse novo contexto.

O filme toca nesse ponto sem necessariamente aprofundá-lo de forma consistente, mas o suficiente para provocar incômodo. Bethany e Nel não são adolescentes descobrindo o mundo pela primeira vez. Elas já conhecem as consequências de suas ações, ainda que optem por ignorá-las. Isso muda o peso de cada decisão. Não se trata mais de experimentar, mas de escolher — e arcar com o que vem depois.
A metáfora do vulcão, nesse sentido, ganha contornos mais ambíguos. Uma erupção pode ser fascinante, quase hipnótica, mas também carrega um potencial destrutivo inevitável. Há algo de sedutor na ideia de viver relações que fogem do controle, que parecem maiores do que qualquer lógica racional. Mas também existe um custo, frequentemente invisível no momento em que tudo parece pulsar com mais intensidade.
O roteiro colaborativo contribui para essa sensação de espontaneidade, especialmente nos diálogos, que muitas vezes soam improvisados, quase como fragmentos de conversas reais. Em alguns momentos, isso aproxima o filme de uma tradição mais ligada ao mumblecore, com sua ênfase em interações cotidianas e emoções pouco filtradas. Em outros, essa mesma abordagem resulta em uma certa dispersão, como se faltasse um eixo mais sólido para sustentar o conjunto.

Ainda assim, há uma qualidade difícil de ignorar em Erupcja. Talvez seja justamente essa recusa em organizar completamente seus próprios elementos, permitindo que o espectador circule por suas ambiguidades sem um guia definitivo.
Entre festas que nunca se concretizam, reencontros que prometem mais do que entregam e uma cidade que observa tudo à distância, o filme se constrói como um mosaico de sensações familiares para quem já percebeu que crescer não significa necessariamente entender. Algumas erupções são inevitáveis. Outras, talvez, sejam apenas uma forma elaborada de justificar aquilo que já estava prestes a ruir.
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