Crítica | Em 'Zico, o Samurai de Quintino' os melhores momentos acontecem fora do campo de batalha
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Crítica | Em ‘Zico, o Samurai de Quintino’ os melhores momentos acontecem fora do campo de batalha

Durante seu período jogando no Japão, já em fim de carreira, diziam que Zico jogava como um samurai – não pela espada, claro, mas pela precisão milimétrica dos passes, pela leitura de um campo de batalha que ele dominava antes mesmo de tocar na bola. Havia ali uma disciplina oriental no meio da folia carioca, uma economia de gestos que lembrava menos o gingado malandro e mais o traço seco de um calígrafo. O documentário Zico, o Samurai de Quintino, dirigido por João Wainer, agarra essa imagem e a carrega até as últimas consequências. Mas o curioso é que, para entender esse samurai, o filme precisa, ocasionalmente, abandonar o campo. É quando ele para – para o Arthur, para o espectador que cresceu ouvindo o nome do Galinho sem nunca ter visto o pé esquerdo em ação – que a coisa começa a ficar interessante.

O filme, em seus melhores momentos, parece menos preocupado em reconstruir jogadas do que em entender o que aquelas jogadas significam para quem as guarda na memória afetiva. E aí ele faz uma pausa. Larga a bola. Olha para o lado. Quem foi Zico quando nenhuma câmera de TV estava ligada? A resposta não está nos gramados, mas nos registros caseiros que Wainer vasculha com olho de ourives. É ali, na textura granulada do arquivo pessoal, que o documentário encontra sua verdadeira respiração.

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A fotografia transita bem entre o presente documental e o passado remasterizado. Não há aquele brilho plástico que tantas produções biográficas usam para maquiar a ausência de alma. Pelo contrário, os depoimentos de Ronaldo Nazário e Carlos Alberto Parreira surgem em tons sóbrios, como se estivessem num confessionário. A trilha sonora, discreta, mas conta com dois detalhes preciosos: o hino do Flamengo cantado por Jorge Ben Jor e a versão de “Your Song”, do Billy Paul. Para além da escolha musical, elas funcionam como transições narrativas importantes para a história que Wainer quer contar do Galinho.

O problema estrutural, se é que se pode chamar assim, é que Zico, o Samurai de Quintino sabe para onde vai desde o primeiro quadro. A trajetória cronológica, da infância em Quintino ao estrelato no Flamengo, passando pela frustrada Copa de 1982 e pela inesperada consagração no Japão, obedece a uma lógica tão previsível que chega a lembrar aqueles livrões de capa dura que ganhamos de presente em aniversário.

Bonitos, respeitosos, mas que você folheia uma vez e guarda na estante. O diretor, talvez por receio de ferir o ídolo, evita esmiuçar os dilemas que realmente doem – a estranha ida para a modesta Udinese no auge, o peso de nunca ter ganho uma Copa, as rusgas políticas dentro do clube que o viu nascer. Esses episódios são mencionados, sim, mas como meros obstáculos de videogame, superados com um aperto de botão. Falta o frame parado, o mergulho no desconforto.

Curiosamente, é quando o filme abandona o Flamengo que ele ganha mais substância. O pós-aposentadoria, a vida como técnico e dirigente, a relação quase zen com a cultura japonesa – aí, sim, o samurai deixa de ser metáfora decorativa e ganha carne. As passagens em que Zico aparece em Tóquio, explicando sua admiração pela disciplina local, ou revisitando velhos amigos num futebol de várzea, têm um sabor de descoberta. É como se o documentário finalmente se permitisse ser curioso, deixando de lado a obrigação de celebrar uma grande carreira já documentada em muitos lugares.

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As vozes que se levantam no documentário formam um coro afinadíssimo – bonito, sim, mas que raramente desafina para ensinar algo novo. Talvez faltasse uma nota dissonante, um depoimento que não fosse apenas admiração, mas também dúvida. Alguém que perguntasse, por exemplo, se o Samurai de Quintino não teria sido ainda maior se tivesse sido um pouco menos samurai – menos contido, menos justo, menos fiel a um código que nem sempre recompensa os mais fiéis.

Mas aí estaríamos pedindo outro filme. O que está em cartaz cumpre aquilo a que se propõe: uma experiência afetiva de respeito e delicadeza. Para quem viveu os anos 70 e 80 no Rio de Janeiro, deve ser como revisitar a própria juventude em película. Para os Arthur de plantão – aqueles que conhecem Zico por ouvir dizer – a obra serve como uma introdução elegante e, acima de tudo, generosa. Gera a vontade de saber mais, de buscar os lances que não estão ali.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.