Crítica | 'O Riso e a Faca' abre um corte na carne do outro
Vitrine Filmes/Divulgação

Crítica | ‘O Riso e a Faca’ abre um corte na carne do outro

O Riso e a Faca carrega no próprio título uma espécie de chave de leitura da coexistência do prazer e do corte, do afeto e da fricção, do desejo e da violência simbólica. A canção de Tom Zé, que empresta nome ao filme, já apontava para esse território de contradições, onde a experiência humana se constrói em tensão permanente. É nesse espaço ambíguo que o épico de três horas e meia dirigido por Pedro Pinho, finca suas raízes – e o faz com a ambição de quem não teme o excesso, seja de duração, de temas ou de inquietações.

O filme se estrutura como um percurso de imersão, quase etnográfico, acompanhando Sérgio (Sérgio Coragem), um engenheiro europeu que desembarca na Guiné-Bissau para trabalhar em um projeto de infraestrutura rodoviária. A premissa poderia facilmente escorregar para uma narrativa de redenção individual ou de exotização do outro, mas Pinho parece consciente das armadilhas que rondam esse tipo de abordagem. O que se desenha, então, é menos uma história de transformação clássica e mais um campo de forças, onde o protagonista se vê constantemente atravessado por aquilo que não consegue compreender plenamente.

A presença de Sérgio naquele espaço nunca é neutra. Seu corpo branco, estrangeiro, torna-se imediatamente visível, carregado de significados que extrapolam sua própria intenção. Há uma espécie de inversão de perspectiva que, longe de equilibrar as relações, evidencia ainda mais o peso histórico que sustenta aquele encontro. O filme parece interessado justamente nesse desconforto de alguém que deseja se integrar, mas cuja própria existência já implica uma assimetria incontornável.

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Essa tensão atravessa também a forma. A encenação de Pinho não busca o virtuosismo estético como fim em si; ao contrário, muitas vezes se mantém funcional, quase discreta, como se abrisse espaço para que o mundo ao redor se imponha. A câmera, frequentemente em movimento, adota um registro que oscila entre o acompanhamento íntimo e a observação distanciada, criando uma fisicalidade que aproxima o espectador da experiência sensorial daquele território. Quando o filme se permite expandir, seja em planos mais longos ou em momentos de suspensão narrativa, emerge uma dimensão que flerta com o épico – não no sentido grandioso tradicional, mas na amplitude de seu olhar sobre as relações humanas e políticas.

A fotografia privilegia a luz natural e as texturas do ambiente, capturando uma Guiné-Bissau que não se reduz a pano de fundo. As paisagens, por vezes deslumbrantes, não são tratadas como espetáculo, mas como parte integrante de um ecossistema social e histórico. Há uma atenção constante aos detalhes: os idiomas que se misturam, os gestos cotidianos, as dinâmicas de trabalho. Tudo contribui para a construção de um espaço que pulsa, resistindo a qualquer tentativa de simplificação.

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Nesse sentido, o filme se aproxima de um gesto documental, ainda que permaneça no campo da ficção. A presença de não atores e a naturalidade dos diálogos reforçam essa impressão de realidade em estado bruto. O tempo dilatado não parece gratuito; ele serve à construção de uma experiência que exige disponibilidade, tanto dos personagens quanto de quem assiste. A narrativa não se apressa em oferecer respostas, preferindo acumular camadas, contradições e zonas de incerteza.

O roteiro, também assinado por Pinho, se estrutura como uma rede de temas que se entrelaçam: colonialismo, capitalismo, ecologia, masculinidade, desejo, moralidade. Em alguns momentos, essa multiplicidade se manifesta de maneira bastante direta, quase didática, como se o filme quisesse garantir que suas questões não passem despercebidas. Essa escolha pode gerar um certo atrito, especialmente quando a verbalização parece antecipar o que a imagem já sugere. Ainda assim, há uma coerência nesse excesso – ele dialoga com a própria proposta de abarcar um mundo complexo demais para caber em soluções simplistas.

No centro dessa rede, a relação entre Sérgio, Diara (Cleo Diára)e Gui (Jonathan Guilherme) se destaca como um dos eixos mais vibrantes da narrativa. Diara surge como uma presença magnética, cuja força não se reduz a um papel funcional na trajetória do protagonista. Sua interação com Sérgio e Gui constrói um espaço de intimidade que oscila entre o afeto, o desejo e a negociação constante de limites. As cenas que envolvem esse trio carregam uma energia particular, onde a sexualidade não aparece como mero elemento provocativo, mas como parte integrante de uma busca por conexão.

Crítica | 'O Riso e a Faca' abre um corte na carne do outro
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A bissexualidade de Sérgio, por sua vez, é tratada sem didatismos, emergindo como uma dimensão que se intensifica à medida que ele se deixa atravessar por aquele contexto. Não há um arco de “descoberta” nos moldes tradicionais; o que se percebe é um processo mais difuso, marcado por hesitações, impulsos e ambiguidades. O desejo, aqui, não organiza o mundo – ele o desestabiliza.

A trilha sonora contribui para essa atmosfera de atravessamento. Quando a música de Tom Zé ressoa como referência simbólica, ela parece ecoar não apenas no título, mas na própria estrutura do filme: (“Quero ser o riso e o dente / Quero ser o dente e a faca / Quero ser a faca e o corte / Em um só beijo vermelho.”) uma composição feita de contrastes, de rupturas, de encontros improváveis.

O som, assim como a imagem, participa da construção desse espaço híbrido, onde diferentes registros convivem sem necessariamente se harmonizar.

Ainda que o filme demonstre consciência crítica em relação ao olhar europeu que o sustenta, essa perspectiva nunca desaparece completamente. Há momentos em que essa lente se impõe de forma mais evidente, levantando questões sobre os limites de representação e sobre quem tem o direito de contar determinadas histórias. Em vez de resolver esse impasse, O Riso e a Faca parece preferir habitá-lo, expondo suas próprias contradições.

A longa duração, que à primeira vista pode soar intimidadora, acaba se tornando parte essencial da proposta. O tempo aqui não é apenas um recurso narrativo, mas um elemento político e sensorial. Ele permite que o filme se desdobre, que os personagens respirem, que o espectador seja confrontado com a própria expectativa de resolução. A experiência se aproxima de um processo: algo que se constrói aos poucos, que exige entrega, que não se fecha facilmente.

Ao articular sua dimensão épica com uma linguagem profundamente ancorada no real, o filme se coloca em um território instável, onde a ficção e o documento se contaminam mutuamente. Esse gesto, longe de oferecer conforto, tensiona o olhar e convida a uma reflexão que ultrapassa os limites da tela.

O Riso e a Faca, nesse sentido, não se apresenta como um objeto a ser decifrado, mas como uma experiência a ser atravessada. Entre o riso e o corte, entre o desejo de pertencimento e a impossibilidade de apagar as marcas da história, o filme insiste em permanecer nesse espaço de fricção.

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