Crítica | Backrooms: Um Não-Lugar e o terror de existir em corredores sem saída
A24/Divulgação

Crítica | Backrooms: Um Não-Lugar e o terror de existir em corredores sem saída

A internet transformou ruídos em mitologia. Fotografias banais ganharam status de documento amaldiçoado, threads de fóruns viraram arquivos arqueológicos de uma cultura digital ansiosa por preencher vazios com significado. Poucos fenômenos recentes sintetizam isso tão bem quanto Backrooms: Um Não-Lugar, longa de estreia de Kane Parsons, cineasta que saiu diretamente do YouTube para o cinema carregando nas costas um imaginário coletivo construído por memes, creepypastas e vídeos de baixa resolução. O mais curioso talvez nem seja a transição em si, mas a maneira como Parsons compreende que o medo contemporâneo nasce justamente da ausência de explicações claras. Ou, ao menos, nascia.

Antes de existir como franquia informal da internet, com milhares de derivações espalhadas entre Reddit, TikTok e canais especializados em horror analógico, Backrooms era apenas uma fotografia desconfortável: paredes amareladas, iluminação fluorescente excessiva, carpete gasto e uma sensação quase física de que algo estava profundamente errado naquele espaço. Mais tarde, descobriu-se que a imagem vinha de uma loja de móveis em reforma no estado de Wisconsin. A revelação pouco importou. O poder daquela estética não dependia de autenticidade documental, mas daquilo que ela evocava. Parsons entendeu isso cedo.

Seu trabalho anterior, a série de curtas lançados no YouTube, não assustava pela aparição de monstros ou por jump scares. O medo surgia da arquitetura. Da repetição. Da ideia de atravessar corredores intermináveis que parecem existir fora do tempo. Em seu longa, Parsons tenta ampliar essa experiência para uma narrativa dramática mais convencional, inserindo personagens, conflitos emocionais e uma estrutura psicológica mais evidente. A ambição é de transformar um conceito abstrato em cinema narrativo sem perder a estranheza que fez das Backrooms um fenômeno cultural.

A escolha de ambientar a trama em 1990 ajuda a construir esse estado de suspensão temporal. O protagonista Clark, interpretado por Chiwetel Ejiofor, é um homem esmagado pelas próprias frustrações. Dono de uma loja de móveis e arquiteto fracassado, ele parece ocupar um espaço intermediário entre o ressentimento e a apatia. Parsons evita romantizar esse colapso emocional. Clark dorme no próprio estabelecimento comercial após um divórcio recente, circulando por ambientes que já carregam uma atmosfera de abandono antes mesmo da entrada no labirinto sobrenatural. Um homem preso dentro de espaços que ele ajudou a construir já é um bom ponto de partida.

A entrada nas Backrooms acontece quase sem cerimônia, como se o filme soubesse que qualquer excesso de dramatização diminuiria a força daquele universo. Uma porta, um corredor, uma descida. De repente, Clark está cercado por salas infinitas que parecem reproduções defeituosas de escritórios corporativos, depósitos comerciais e corredores administrativos vazios. Parsons filma esses espaços com um fascínio quase documental. A câmera desliza lentamente, observando texturas, sombras e ângulos improváveis. A fotografia aposta em tons esmaecidos e iluminação artificial agressiva, criando uma sensação permanente de fadiga visual. O filme raramente parece escuro, pelo contrário, a luz excessiva se torna um instrumento de tortura.

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A trilha sonora talvez seja o elemento mais eficiente da experiência. Em vários momentos, o som assume a responsabilidade de produzir tensão quando a imagem escolhe permanecer estática. Ruídos industriais, zumbidos elétricos, ecos distantes e frequências graves criam uma pressão constante sobre o espectador. Não se trata necessariamente de música, mas de um desenho sonoro que opera como mecanismo psicológico. Parsons parece compreender que o terror liminar depende menos daquilo que vemos e mais daquilo que nosso cérebro imagina preencher nos vazios.

Essa construção sensorial explica por que os momentos iniciais do longa possuem força tão hipnótica. Existe uma espécie de terror primitivo em observar personagens caminhando por ambientes que parecem rejeitar qualquer lógica humana. O filme trabalha constantemente com a ideia de deslocamento existencial. Não estamos apenas diante de corredores infinitos; estamos diante de um espaço que parece indiferente à presença humana. A arquitetura das Backrooms não comunica perigo imediato. Ela comunica indiferença. E isso torna esse espaço ainda mais perturbador.

A introdução da terapeuta Mary, vivida por Renate Reinsve, desloca o filme para um território mais interpretativo. A partir desse momento, Backrooms deixa de ser apenas uma experiência atmosférica e passa a sugerir leituras mais psicológicas sobre aquele labirinto. O roteiro insinua conexões entre os espaços infinitos e a mente fragmentada de Clark  –  suas frustrações profissionais, sua instabilidade emocional, sua obsessão pelo fracasso. Parsons começa então a tratar as Backrooms menos como fenômeno inexplicável e mais como manifestação simbólica.

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É justamente aí que o filme desperta divisões mais interessantes.

O fascínio original das Backrooms sempre esteve ligado ao inexplicável. O vazio gerava terror porque parecia impossível de ser decodificado. Quando o longa busca organizar sua mitologia através de explicações mais concretas, criaturas definidas e mecanismos internos quase semelhantes à lógica de videogames ou puzzles, parte daquela estranheza inevitavelmente se transforma. Não porque respostas sejam necessariamente um problema, mas porque determinados medos parecem perder potência quando traduzidos em explicações excessivamente objetivas.

Parsons demonstra habilidade visual impressionante para um diretor de estreia. Algumas sequências possuem um rigor de composição que remete ao horror analógico contemporâneo, enquanto outras exploram escalas arquitetônicas com criatividade genuína. O longa frequentemente encontra imagens desconcertantes sem precisar recorrer à violência explícita. Há quadros que permanecem na memória justamente pela simplicidade: corredores vazios, salas silenciosas, portas que parecem levar a lugar nenhum. O desconforto nasce da repetição e desses espaços sem lógica.

Ao mesmo tempo, o roteiro parece menos seguro quando precisa sustentar emocionalmente seus personagens. Clark e Mary atravessam o filme carregando traumas e conflitos que nem sempre alcançam densidade suficiente para justificar o peso dramático atribuído a eles. Existe uma sensação constante de que as Backrooms são mais interessantes do que qualquer pessoa presa dentro delas. Isso não chega exatamente a enfraquecer a experiência, mas altera o eixo do filme. O espaço domina completamente os indivíduos.

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Essa é, inclusive, a grande ironia de Backrooms. Um filme sobre personagens tentando encontrar sentido em ambientes construídos justamente para negar qualquer sensação de orientação. Parsons parece interessado em investigar o colapso emocional de homens incapazes de lidar com seus próprios fracassos, mas também demonstra fascínio quase obsessivo pelo próprio mecanismo visual do labirinto. Entre a alegoria psicológica e o horror abstrato, o filme oscila sem jamais escolher um caminho definitivo.

Essa indecisão produz atritos curiosos. Algumas cenas alcançam um estado de ansiedade cinematográfica, enquanto outras parecem excessivamente preocupadas em explicar aquilo que talvez funcionasse melhor como mistério. Ainda assim, existe algo fascinante em observar um fenômeno nascido de fóruns da internet alcançar uma dimensão cinematográfica tão ambiciosa sem abandonar completamente sua natureza.

Backrooms carrega a estranha sensação de um sonho repetitivo do qual não conseguimos acordar direito. Não exatamente porque nos assusta o tempo inteiro, mas porque nos mantém presos numa lógica espacial que desafia nossa necessidade humana de compreensão. Parsons talvez compreenda que o verdadeiro horror desses corredores infinitos não está nas criaturas escondidas entre as paredes amarelas, mas na possibilidade de caminhar eternamente por lugares familiares sem nunca reconhecer pertencimento algum.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.