Foi extremamente desconfortável notar quando esse filme escolheu seu “monstro” com tanta convicção – e não, não estou falando da criatura sobrenatural. Em POV: Presença Oculta, o que assusta de verdade é a maneira como a narrativa reorganiza o mundo para proteger seus protagonistas, mesmo quando tudo ao redor aponta para contradições gritantes. O horror não nasce do escuro ou do desconhecido, mas de uma lógica enviesada que transforma violência institucional em martírio incompreendido.
Dirigido por Brandon Christensen, o longa parte de uma premissa que, à primeira vista, parece engenhosa: um terror construído a partir de câmeras corporais de policiais. Esse dispositivo resolve um problema clássico do subgênero found footage – afinal, se a câmera faz parte do uniforme, não há por que questionar por que ela continua ligada em momentos de desespero. É uma ideia que, no papel, sustenta a proposta com naturalidade. O problema é que o próprio filme parece esquecer disso ao longo do caminho.
Logo nas primeiras sequências, a narrativa abandona a rigidez do ponto de vista prometido. A câmera deixa de ser uma extensão orgânica dos personagens para se tornar uma ferramenta conveniente, que surge e desaparece conforme a necessidade dramática. Há momentos em que o olhar não pertence a ninguém – como nas imagens do carro – e outros em que a suposta subjetividade é claramente manipulada para parecer mais “cinematográfica”. Isso quebra um pacto fundamental com o espectador: se a proposta é mostrar tudo a partir de um dispositivo específico, qualquer desvio precisa ser justificado. Aqui, não é.

A direção insiste em tensionar essa linguagem, mas sem estabelecer regras claras. A fotografia, por exemplo, oscila de maneira inconsistente. Em teoria, câmeras corporais deveriam apresentar limitações específicas – campo de visão, qualidade de imagem, resposta à luz. No entanto, o filme alterna entre diferentes tipos de captação como se estivesse testando filtros. Há cenas com granulação acentuada, outras com nitidez surpreendente, algumas com ângulos que sugerem posicionamentos impossíveis para o equipamento. Não é uma estilização consciente; parece mais um descuido disfarçado de escolha estética.
Esse problema se estende à montagem. Em um filme que depende tanto da imersão, a edição deveria reforçar a continuidade do olhar. Em vez disso, há cortes que denunciam a construção artificial da cena, inserções visuais que surgem sem lógica interna e uma manipulação do ritmo que enfraquece a tensão. O resultado é um terror que tenta ser visceral, mas tropeça na própria falta de coerência.
Se tecnicamente o filme já apresenta fragilidades, é no roteiro que ele se revela mais problemático. A construção da ameaça sobrenatural é errática: ora invisível, ora tangível; às vezes onipresente, outras convenientemente ausente. Não há regras claras, nem evolução dramática consistente. Em histórias de terror, o desconhecido pode ser uma ferramenta poderosa – mas aqui ele parece mais um improviso constante.
Essa inconsistência narrativa ganha contornos ainda mais incômodos quando observamos o subtexto. O filme estabelece uma divisão simplista entre “policiais bem-intencionados” e um ambiente externo caótico, composto por figuras marginalizadas que são retratadas como ameaças quase desumanas. Pessoas em situação de vulnerabilidade aparecem associadas a comportamentos monstruosos, como se a exclusão social fosse um sintoma de algo sobrenatural – ou pior, como se fosse justificativa para o medo.
Essa escolha não é neutra. Ao esvaziar a complexidade dessas figuras, o roteiro cria um cenário onde os protagonistas se tornam as únicas âncoras de racionalidade. Mesmo quando cometem erros graves, a narrativa os envolve em uma aura de inevitabilidade, como se fossem vítimas de circunstâncias e da opinião pública. É uma construção que flerta com a ideia de justificar a violência institucional.
As atuações seguem essa linha funcional. Os personagens interpretados por Jaime M. Callica e Sean Rogerson não ultrapassam o nível de arquétipos. Falta densidade, falta conflito interno, falta humanidade – ironicamente, exatamente aquilo que o filme nega aos personagens ao redor. Quando um deles recorre ao clichê da ligação para a esposa grávida, o gesto soa mais como um recurso automático do que como um momento genuíno.
Do ponto de vista técnico, nem mesmo os elementos mais básicos escapam de críticas. A maquiagem de sangue varia de intensidade sem critério, comprometendo a continuidade. Os efeitos visuais, especialmente nas cenas externas noturnas, denunciam sua artificialidade. E a concepção de certos espaços – como a casa onde parte da ação se desenrola – recorre a soluções visuais tão óbvias que beiram o infantil.

Há, inclusive, uma sensação constante de que o filme tenta compensar suas fragilidades com excesso: corredores escuros, câmera tremida, sustos previsíveis. Mas quantidade não substitui intenção. O desconforto verdadeiro no cinema de terror nasce da construção de sentido, não da repetição de truques.
POV: Presença Oculta desperdiça uma ideia promissora ao se recusar a explorá-la com rigor. Mais do que isso, escolhe um caminho narrativo que simplifica questões complexas e transforma o horror em um instrumento de validação. E talvez seja justamente aí que reside seu aspecto mais perturbador, não na criatura que persegue os personagens, mas na forma como o filme decide quem merece ser temido – e quem merece ser perdoado.
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