Crítica | 'Depois do Fogo' observa as cinzas e tenta recomeçar
Synapse/Divulgação

Crítica | ‘Depois do Fogo’ observa as cinzas e tenta recomeçar

Observar as cinzas. De maneira resumida e simplista, essa seria uma forma de resumir Depois do Fogo, de Max Walker-Silverman. É nesse gesto de contemplação que o longa encontra sua identidade, ainda que nem sempre consiga sustentar o peso emocional que propõe. O filme acompanha Dusty (Josh O’Connor), um cowboy que perdeu seu rancho em um incêndio florestal e agora habita um acampamento de trailers no meio do nada – ou melhor, no meio de um território que, despojado de sua utilidade agrícola, se transformou em uma espécie de limbo geográfico e emocional.

A premissa, por si, já carrega um drama potente, mas o filme opta por não explorar isso de maneira explosiva. Pelo contrário, ele escolhe o silêncio, a pausa e a repetição como ferramentas narrativas. E aqui está um dos seus principais acertos – e também uma de suas limitações.

A direção de Walker-Silverman revela um olhar íntimo sobre esse universo rural. Há um evidente vínculo pessoal com o tema, o que transparece na forma como os espaços são filmados e como os personagens se relacionam com a terra, usando daquele recurso de transformar o cenário em uma extensão emocional. A perda do rancho não é só financeira ou material – é identitária. Dusty não sabe quem é sem aquele chão sob os pés. E o filme entende isso, ainda que nem sempre consiga aprofundar suas consequências dramáticas.

A fotografia de Alfonso Herrera Salcedo faz um uso predominante de luz natural, os enquadramentos valorizam a vastidão das paisagens do oeste americano, criando uma sensação constante de isolamento. O céu parece sempre grande demais, e os personagens, pequenos demais dentro dele. É uma escolha estética que conversa diretamente com o estado emocional de Dusty, um homem perdido em um mundo que parece ter ficado maior – ou mais vazio – depois da perda.

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Essa abordagem visual dialoga com produções como “Nomadland”, especialmente na forma como mistura atores profissionais com pessoas comuns, criando uma sensação de autenticidade. Os coadjuvantes aqui não parecem interpretar personagens, mas viver experiências. Isso enriquece o ambiente do acampamento, transformando-o em um espaço quase documental, onde cada rosto carrega uma história não dita.

No entanto, essa escolha por um realismo mais contido cobra seu preço. O roteiro, também assinado por Walker-Silverman, aposta em uma progressão emocional muito linear. Não há grandes picos dramáticos, e isso pode gerar a sensação de que a narrativa caminha em linha reta, sem surpresas. O problema não está na ausência de conflito explícito, mas na falta de aprofundamento em momentos que pediriam maior densidade – como a relação entre Dusty e sua filha, interpretada por Lily LaTorre.

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Essa relação, que poderia dar mais densidade ao longa, acaba sendo tratada com certa timidez. Há sinais de afeto, tentativas de reconexão, mas tudo permanece na superfície. O mesmo vale para a dinâmica com a ex-esposa, vivida por Meghann Fahy, que surge mais como um empurrão narrativo do que como uma presença verdadeiramente transformadora.

Ainda assim, é preciso reconhecer que essa contenção não é um erro acidental – é uma escolha estética. Depois do Fogo não quer gritar suas emoções; prefere sussurrá-las. E, curiosamente, ele não é tão sutil quanto parece. Sua mensagem é bastante clara, trata-se de reconstrução, de pertencimento e da dificuldade de recomeçar quando tudo o que definia uma vida desaparece. A simplicidade com que aborda esses temas não diminui sua força – pelo contrário, torna a experiência mais acessível e direta.

A montagem acompanha esse ritmo contemplativo, respeitando o tempo dos personagens e evitando cortes bruscos ou artificiais. As cenas respiram. Às vezes até demais. Há momentos em que o filme parece hesitar, como se esperasse que o espectador preenchesse lacunas emocionais que não foram totalmente desenvolvidas. Isso pode afastar parte do público, especialmente quem busca uma narrativa mais dinâmica.

Por outro lado, há uma honestidade admirável nessa proposta. Dusty não é um herói. Ele não reage com bravura ou determinação imediata. Ele hesita, se retrai, evita. E isso o torna humano. Quando finalmente se abre – ainda que discretamente –, o impacto é maior justamente porque o filme construiu esse silêncio ao redor dele.

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Depois do Fogo é, acima de tudo, um estudo de personagem. Um retrato de alguém que precisa reaprender a existir. E embora nem todas as suas escolhas narrativas sejam plenamente eficazes, há uma coerência entre forma e conteúdo que merece ser reconhecida.

O filme funciona como uma espécie de crônica visual sobre perda e reconstrução. Ele observa, escuta e registra. E justamente essa simplicidade – quase teimosa – que o torna interessante. É preciso ficar, olhar de novo e aceitar o silêncio como parte da conversa.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.