Após a partida do irmão e grande parceiro de composição, Antonio Cicero, por morte assistida, na Suíça, em 2024, Marina Lima escolheu processar seu luto através da música. Ópera Grunkie, mais novo álbum da cantora e compositora veterana do pop brasileiro, é fruto desse processo, mas vai além. É um manifesto da artista sobre sua vontade de viver e seguir se reinventando.

O disco é composto por 11 faixas divididas em três atos. O primeiro é o que trata diretamente do luto, porém de uma forma não melancólica. A abertura com uma introdução de base eletrônica seguida de “Partiu”, regravação da faixa composta por Marina e gravada primeiramente pela Catto e depois pela própria autora em uma versão acústica ao vivo no álbum “No Osso” (2015); soa como uma afirmação de que a artista carioca quer seguir em frente, apesar da dor.
A faixa também dá o tom que o álbum vai seguir, voltado para experimentações com o universo eletrônico, apontando para diferentes vertentes. Nesse ponto pode estar uma possível razão para a recepção divisiva que a obra vem tendo. Muitos podem chegar em “Ópera Grunkie” esperando ouvir o pop que marcou carreira da artista nos anos 1980 e 1990, no entanto, é outra Marina Lima que se apresenta aqui; conectada com o presente, refletindo a maturidade dos 70 anos, mas, ao mesmo tempo, muito inquieta e apontando para o futuro em uma busca por novos sons e maneiras de se expressar artisticamente.
“Grief-Stricken” é um interlúdio de menos de um minuto em que marina canta versos em inglês que traduzem seu luto: “Aflito, enlutado, / Sob céus trovejantes você se aproxima / E então, deliberadamente, finge não vê-los chorar.” Em “Perda” ouvimos a voz de Antônio Cícero recitando versos seguidos da voz da própria cantora recitando: “Vida, valeu / Não te repetirei jamais”. “Meu Poeta” inicia com a artista declarando: “Eu compreendi você e vou te amar eternamente”, introduzindo a faixa que encerra o primeiro ato com uma amostra da relação de afeto que a artista preserva com a memória do irmão: “Dosamos curvas e setas com nossas feições / Partimos como foguete rumo aos corações”.

O segundo ato abre com “Um Dia Na Vida”, um dos melhores momentos do álbum. A parceria com Ana Frango Elétrico deixa claro que nesta etapa Marina se volta para o presente e principalmente o diálogo com as novas gerações. “Olívia”, primeira faixa divulgada, é um flerte entre bases eletrônicas e o reggaeton marcados por diálogos em uma balada.
“Collab Grunkie” funciona como um grande interlúdio que surpreende na medida em que vai se desenvolvendo e passando por momentos surpreendentes como vocalizes de Mano Brown e o fechamento com versos declamados por Fernanda Montenegro e que refletem o sentimento que seguirá desta fase em diante: “Nada consola uma velhice idiota”..
O terceiro ato é mais voltado para baladas e abre com a belíssima “Só que Não” faixa que inicia a sequência de duas parcerias com Adriana Calcanhotto, sucedida dá também ótima “Chega Pra Mim”, desta vez contando com as duas também dividindo os vocais. “Finale (Brahma Chopin)” encerra com um leve diálogo entre música clássica e eletrônica.
Ópera Grunkie é um disco em que, acima de tudo, Marina Lima olha para frente, desapegada de qualquer nostalgia e com um diálogo forte com o público jovem que a artista vem conquistando nos últimos anos. Não é uma obra para aqueles que identificam a artista como parte dos medalhões da MPB, é para quem dança suas músicas na balada e não encontra dificuldade em conectá-la com geração pop alternativa atual, concentrada principalmente na cena paulistana, onde a carioca mora atualmente. É um álbum com excelentes composições, com potencial para ressoarem de novas formas ao longo dos anos.
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