Existe algo de imprevisível – e, por isso mesmo, magnetizante – em Baby do Brasil. Em Apocalipse Segundo Baby, documentário dirigido por Rafael Saar, essa sensação não apenas se mantém como vira eixo narrativo. Não se trata de organizar uma vida em linha reta, mas de aceitar suas curvas abruptas, seus desvios quase místicos e suas contradições públicas. O filme parece menos interessado em explicar a artista e mais em orbitá-la – o que, no caso de Baby, já é um gesto suficientemente ambicioso.
A escolha de uma narração em primeira pessoa conduzida pela própria cantora reforça essa proposta. O relato não busca mediação, nem confronto. Ao contrário, assume o fluxo de consciência como ferramenta, permitindo que lembranças, crenças e reconstruções se misturem num discurso que soa tão performático quanto confessional. Há momentos em que essa estratégia beira o encantamento; em outros, levanta a suspeita de que o filme prefere preservar o mito a tensioná-lo.
A trajetória de Baby – da jovem que foge para a Bahia sem avisar a família ao ícone contracultural dos Novos Baianos, passando pela fase pop colorida e desembocando na figura da “popstora” – não se encaixa em narrativas convencionais. Existe uma energia de “doidinha do centro que deu certo” que atravessa décadas. Uma inconstância que não se corrige, apenas se transforma. O documentário reconhece isso e, em muitos momentos, se deixa contaminar por essa mesma lógica errante.
A direção de Saar, que já havia explorado universos musicais em trabalhos como “Yorimatã” (sobre Luhli & Lucina) e “Sem Vergonha” (sobre Maria Alcina), opta por um caminho híbrido. Imagens de arquivo convivem com registros contemporâneos em viagens que funcionam quase como peregrinações – Salvador, Niterói, Santiago de Compostela. A geografia aqui não é apenas física; ela desenha um mapa espiritual. Cada deslocamento parece sugerir que Baby está sempre em trânsito, mesmo quando revisita o passado.
Visualmente, o filme se apoia numa fotografia que alterna entre o documental cru e uma estética mais sensorial, especialmente nas sequências de viagem. Há um esforço em traduzir estados de espírito em imagem – algo que funciona melhor quando o filme desacelera e permite que o silêncio ou a contemplação ocupem espaço. Quando tenta ilustrar demais – como nas diversas tomadas de Baby caminhando num campo aberto para que o público entenda sua alma peregrina –, perde parte dessa força por repetição de uma mensagem já dita.

A trilha sonora, inevitavelmente central, funciona como fio condutor emocional. Não apenas pelas canções conhecidas, mas pela forma como elas são inseridas na narrativa. Ainda assim, surge um problema recorrente: o uso prolongado de performances ao vivo quase na íntegra. O recurso acaba soando como uma espécie de muleta. Em vez de dialogar com o material, o filme por vezes se acomoda nele, como se preencher tempo com apresentações bastasse para aprofundar a personagem. Para quem já tem familiaridade com a obra, essa escolha pode soar mais como redundância do que como revelação.
É nesse ponto que a camada espiritual, tão anunciada – inclusive no próprio título – começa a revelar uma lacuna. A fase evangélica de Baby, marcada por uma pulsão religiosa intensa e por uma reconfiguração radical de sua identidade pública, aparece como eixo conceitual, mas não encontra a mesma densidade dramática na execução. O filme sugere essa transformação como continuidade de um impulso espiritual anterior, mas evita mergulhar nas implicações mais complexas dessa virada. Falta fricção.

E isso chama atenção porque justamente essa etapa da vida da artista é, paradoxalmente, a menos exposta e talvez a mais intrigante. A figura da “popstora”, que mistura pregação, performance e um tipo muito particular de estética pop religiosa, carrega tensões que o documentário apenas tangencia. Como essa espiritualidade se manifesta no cotidiano? Como ela dialoga – ou entra em conflito – com a artista que um dia simbolizou a liberdade hippie? Como essa postura é recebida dentro e fora do meio evangélico?
O roteiro acompanha esse movimento ambíguo. Ao mesmo tempo, em que constrói uma narrativa fluida, capaz de atravessar décadas sem parecer fragmentada, evita confrontos mais diretos com as contradições da artista. A conversão religiosa é tratada quase como destino inevitável, uma espécie de culminação espiritual. Ainda assim, a ausência de um olhar mais aprofundado sobre o presente enfraquece a potência do próprio título: o “apocalipse”, aqui, parece mais sugerido do que investigado.
Claro, talvez isso seja deliberado. Afinal, Baby não é uma figura que se deixa capturar facilmente por categorias fixas. Sua relação com a fé, com a música e com o próprio passado parece operar numa lógica própria, muitas vezes desconcertante. Uma artista que já foi símbolo de liberdade hippie, que viveu experiências comunitárias radicais durante a ditadura, e que hoje assume uma postura religiosa considerada extrema até mesmo dentro de certos círculos evangélicos, não cabe em definições simplistas.
O filme também tangencia momentos curiosos dessa trajetória, como o envolvimento com figuras místicas ou episódios que beiram o surreal. Esses recortes reforçam a ideia de uma vida guiada por impulsos, intuições e crenças que nem sempre dialogam com a racionalidade. Em vez de suavizar essas arestas, o documentário as incorpora – ainda que sem as aprofundar completamente.
Há uma cena recorrente, quase simbólica, que sintetiza essa proposta; Baby revisitando lugares do passado enquanto reflete sobre suas escolhas. Não há arrependimento explícito, tampouco uma celebração ingênua. O que se percebe é uma tentativa de dar sentido a um percurso que, visto de fora, parece caótico. E talvez seja justamente essa tentativa – mais do que qualquer resposta – que sustenta o filme.
As “atuações”, no caso de um documentário, se manifestam na própria performance da protagonista diante da câmera. Baby parece consciente do seu papel, ora como narradora, ora como personagem de si mesma. Essa autoconsciência adiciona uma camada interessante, mas também levanta dúvidas sobre o quanto estamos vendo de espontâneo e o quanto é construção.

Entre a liberdade criativa e a repetição de fórmulas – como o uso excessivo de números musicais –, constrói-se um retrato que é, ao mesmo tempo, vibrante e incompleto. Essa incompletude se torne mais evidente justamente quando o filme se aproxima do presente – esse território ainda em aberto, onde a artista segue em transformação.
Uma personagem como Baby do Brasil não se entrega por inteiro – nem à câmera, nem ao público, nem a si. O documentário parece entender isso, ainda que nem sempre saiba o que fazer com essa constatação. O que permanece é essa energia errática, quase indomável, de alguém que nunca deixou de se reinventar – mesmo quando isso significa tensionar, ou até romper, com tudo aquilo que um dia a definiu.
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