O oficial americano caminha pelo corredor da prisão. Descreve, em inglês, cada medida de segurança adotada para impedir que os líderes nazistas ali detidos cometam suicídio. Explica a precariedade das celas, a vigilância constante, a humilhação calculada nos detalhes mínimos do cotidiano carcerário. A maioria dos homens que o escutam não compreende uma palavra do idioma. Ele para, vira-se dramaticamente para a câmera e solta: “Gentlemen, welcome to Nuremberg”, ficou difícil segurar a risada.
A partir desse momento, o filme se propõe a acompanhar os bastidores dos julgamentos de Nuremberg, explorando as tensões psicológicas, morais e políticas envolvidas na tentativa de responsabilizar figuras centrais do regime nazista, ao mesmo tempo em que revela as contradições de quem conduz esse processo.
A direção de James Vanderbilt – conhecido por roteiros de produções como “O Espetacular Homem-Aranha” e “Independence Day: Resurgence” – carrega essa tensão desde os primeiros minutos. Há uma clara tentativa de construir uma narrativa densa, apoiada no peso histórico dos julgamentos de Nuremberg, mas o resultado frequentemente escorrega para uma estética mais próxima do entretenimento hollywoodiano de grande apelo do que de um drama histórico austero. A encenação insiste em momentos grandiloquentes, com entradas dramáticas sob chuva torrencial, enquadramentos carregados de solenidade e diálogos que soam mais como one-liners do que como reconstruções plausíveis de conversas reais.
No centro da narrativa está o personagem vivido por Rami Malek, um psicólogo militar cuja construção parece deslocada do contexto histórico que o cerca. Sua introdução – marcada por uma postura arrogante, quase caricatural – aproxima-o mais de arquétipos contemporâneos do “gênio incompreendido” do que de uma figura verossímil inserida no pós-guerra europeu. Há uma tentativa evidente de construir uma jornada de transformação, mas o percurso dramático se apoia em convenções já bastante desgastadas, o que enfraquece o potencial investigativo do personagem.

Em contraste, Russell Crowe entrega uma composição impressionante como Hermann Göring. Sua presença em cena é magnética, e há um cuidado notável na construção de um antagonista que manipula, seduz e desafia. Crowe desaparece sob a maquiagem e o sotaque, criando uma figura que oscila entre o carisma e o horror, sem jamais cair na caricatura. É, talvez, o elemento que mais se aproxima da complexidade que o tema exige.
Também merece destaque Michael Shannon, que, mesmo com tempo limitado em cena, imprime densidade às sequências do tribunal. Sua atuação sugere um filme mais interessado nos dilemas jurídicos e morais do julgamento – um filme que, curiosamente, aparece apenas em fragmentos dentro da obra maior.
O roteiro, também assinado por Vanderbilt, é onde a ambiguidade do projeto se torna mais evidente. Ao mesmo tempo em que busca humanizar figuras históricas e explorar as nuances do mal, recorre a diálogos excessivamente espirituosos, quase autoconscientes, que destoam do contexto.
O uso recorrente de tiradas irônicas e frases de efeito cria um ruído tonal difícil de ignorar, especialmente quando inserido em um cenário que envolve o Holocausto. O humor, quando surge, não parece integrado à narrativa, mas sim enxertado, como se obedecesse a uma lógica de mercado que exige leveza mesmo nos temas mais sombrios.
A fotografia tenta equilibrar essa dualidade. Há momentos em que a paleta mais sóbria e o uso de luz natural evocam um realismo quase documental, especialmente nas cenas que incorporam imagens reais do Holocausto. Esses trechos têm uma força incontestável, funcionando como um lembrete brutal da realidade que o filme tenta dramatizar. No entanto, essa mesma fotografia também se rende a composições mais estilizadas e “limpas” – que remetem a produções para TV –, que acabam por estetizar o horror de maneira questionável.

A trilha sonora segue caminho semelhante, alternando entre uma abordagem discreta, que respeita o silêncio necessário em determinados momentos, e crescendos orquestrais que parecem sublinhar emoções já evidentes. Essa insistência em guiar a reação do espectador contribui para a sensação de que o filme desconfia de sua própria capacidade de impactar sem recorrer a reforços.
Um dos aspectos mais debatíveis de Nuremberg está na forma como ele lida com o próprio julgamento. Apesar de ser o eixo histórico da narrativa, o tribunal ocupa menos espaço do que se poderia esperar. Em vez de aprofundar os embates jurídicos e as contradições do processo, o filme opta por uma abordagem mais fragmentada, quase episódica. Essa escolha narrativa tem implicações importantes; ao reduzir a complexidade dos julgamentos, a obra simplifica um evento que, na realidade, foi marcado por ambiguidades, disputas políticas e resultados nem sempre satisfatórios.
Essa simplificação dialoga diretamente com o outro polo do filme. A construção de uma narrativa que, ainda que critique o horror da guerra, parece reforçar uma visão de mundo centrada na autoridade moral americana. Há momentos em que o discurso se aproxima de uma crítica ao imperialismo ou à violência estatal – especialmente em referências às ações dos Estados Unidos no Japão –, mas essas provocações não se desenvolvem plenamente. Permanecem como notas de rodapé em uma narrativa que, no fundo, ainda coloca os americanos como protagonistas éticos da história.
A presença de personagens secundários, como o jornalista que pouco acrescenta ao desenvolvimento dramático, reforça a sensação de dispersão. São elementos que entram e saem da narrativa sem deixar marcas significativas, como se o filme estivesse mais preocupado em abarcar múltiplos pontos de vista do que em aprofundar qualquer um deles.
Comparações com outras obras que abordam o Holocausto são inevitáveis. Enquanto produções como “Jojo Rabbit” conseguem integrar humor e tragédia de maneira orgânica, Nuremberg parece ainda buscar o tom adequado. Já referências mais duras, como “Vá e Veja”, evidenciam o quanto a abordagem estética pode influenciar a percepção do espectador sobre a violência histórica.

Nuremberg é um filme que provoca mais pelas suas contradições do que por suas certezas. Existe uma ambição clara de dialogar com o presente, de traçar paralelos entre o passado e as tensões políticas contemporâneas, mas essa intenção se perde em meio a escolhas estilísticas que oscilam entre o espetáculo e a reflexão.
Essa hesitação – entre denunciar a barbárie e reafirmar uma narrativa de heroísmo nacional – é o elemento que expõe um impasse: como representar um dos capítulos mais sombrios da história sem cair na armadilha da dramatização excessiva ou da instrumentalização ideológica?
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