O documentário se chama simplesmente Bardot, uma escolha de título que promete a crueza de um verbete enciclopédico, a secura de um arquivo desprovido de adjetivos. Promessa vazia. O filme de Alain Berliner e Elora Thevenet, construído sobre o alicerce movediço de uma parceria oficial com a biografada e sua fundação, abdica de qualquer pretensão investigativa para se converter num relicário polido, numa peça de rebranding póstumo que flerta perigosamente com a hagiografia.
Lançado após a morte de Brigitte Bardot, em dezembro de 2025, a produção carrega o peso – e a maldição – de guardar o último depoimento da estrela. Um tesouro que, nas mãos dos diretores, transforma-se em algema; diante da voz doce e já cansada da atriz e ativista, a câmera parece pedir desculpas por existir, a montagem hesita, e o roteiro se curva numa reverência que sufoca qualquer sopro de contradição.

A fotografia opera num registro de beatitude programada. A luz que banha os depoimentos da atriz nonagenária é invariavelmente suave, quase diáfana, como se a película buscasse emular a textura dos vitrais de uma capela seiscentista. Quando as imagens de arquivo rareiam – os diretores justificam a ausência de cenas de obras-primas como “O Desprezo” alegando o alto custo dos direitos –, a solução encontrada revela o desamparo estético do projeto.
Surgem animações genéricas de uma silhueta feminina desfocada, de costas, dançando balé ou contracenando com o vazio no lugar de Serge Gainsbourg. São recriações fictícias que não acrescentam dramaticidade, tampouco lançam luz sobre a psique da personagem; apenas preenchem buracos narrativos com uma névoa kitsch que mais embaça do que esclarece.
A trilha sonora, por sua vez, assume o papel de advogada de defesa. Acordes doces, dedilhados de piano que ecoam uma espiritualidade difusa, envolvem cada declaração polêmica num manto de pureza imaculada. Quando Bardot se aproxima do tema de seu afastamento da fama, a música se agiganta em tons quase litúrgicos, preparando o espectador para a canonização final – aquela que se concretiza quando ela murmura sobre sua “relação com a Virgem Maria”. A edição sonora não comenta as imagens; ela as absolve previamente, como um coro de anjos que abafa o ruído incômodo da realidade.

E que ruídos são esses que o filme se esforça tanto para silenciar? A Brigitte Bardot de Berliner e Thevenet é uma mulher “livre”, “à frente do seu tempo”, uma vítima das circunstâncias que ousou abandonar o estrelato para “servir aos que mais sofrem” – leia-se, os animais.
O roteiro se demora na cronologia dos amantes, elencados em slideshows constrangedores adornados com ícones de aliança – recorde-se: um filme que supostamente denuncia o sensacionalismo da vida íntima –, mas passa como um gato sobre brasas pelo fato de ela ter abdicado da criação do próprio filho. É descrita como “ousadia” o que outras biografias chamariam de negligência afetiva. A narrativa se constrói sobre a ideia de uma mártir eco-friendly, uma Madre Teresa de Saint-Tropez que trocou os flashes pelo convívio com os animais.
O problema estrutural de Bardot reside justamente nessa recusa patológica em abraçar a complexidade que torna a figura de sua protagonista tão fascinante. O filme menciona o racismo como quem engole uma pedra de gelo: rápido, desconfortável, desejando que o incômodo derreta antes de ser notado. Bardot admite ter se “equivocado um pouco” – e a ênfase no advérbio “um pouco” é dela, preservada na montagem. Os entrevistados, um painel curioso de celebridades que jamais conviveram intimamente com a atriz – onde estão os parentes, os ex-colegas de set, as testemunhas oculares? –, apressam-se em justificar as cinco condenações judiciais por islamofobia como “impulsividade” ou “ingenuidade política”. A xenofobia, o casamento com um conselheiro de Jean-Marie Le Pen, as declarações de amor à Frente Nacional – tudo é varrido para debaixo do tapete felpudo da causa animal.

É neste ponto que a covardia do documentário se torna flagrante. A grandeza dramática de Brigitte Bardot nunca esteve em sua santidade, mas sim na convivência explosiva de opostos que ela abrigava. Como decifrar a mulher que dedicou a maturidade a salvar cães abandonados e, simultaneamente, destilava ódio contra imigrantes e muçulmanos? Como conciliar o ícone da libertação sexual feminina nos anos 1960 com a estandarte do conservadorismo xenófobo na velhice? Onde termina o ativismo genuíno e começa a performance de virtude de uma estrela que precisava desesperadamente de um novo propósito após o ocaso da beleza? O filme não formula essas perguntas porque tem medo das respostas.
Em vez de um ensaio sobre as contradições humanas, Bardot entrega um panfleto institucional da Fondation Brigitte Bardot, repleto de imagens de choque de abatedouros que, apesar de brutais, soam deslocadas por não guardarem relação autoral com a biografada. São inserções que buscam legitimar o marketing da pureza animal em detrimento da sujeira da condição humana. A montagem final transforma a trajetória de sua protagonista num vitral sem rachaduras, justamente quando o espectador mais ansiava pelo estilhaço. A última frase proferida no filme, um desafiador “Não me arrependo de nada”, ecoa como um epitáfio. Mas o verdadeiro arrependimento parece pertencer aos cineastas – arrependidos de não terem tido a coragem de olhar para sua musa além do bronze e do blush.
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