Arte de capa: Conecta Geek

Review | Aether & Iron aposta na narrativa e força criativa do indie

Com foco em escolhas e texto, o jogo entrega imersão narrativa, mesmo com pouca liberdade de exploração.

Com foco em escolhas e texto, o jogo entrega imersão narrativa, mesmo com pouca liberdade de exploração.

A subcultura decopunk ganhou mais um nome para utilizar como referência de peso. O game indie, Aether & Iron, foi lançado no dia 31 de março e aparece como um respiro criativo do estúdio Seismic Squirrel, apostando em uma identidade autoral forte, que mistura estética noir, política e ficção científica para entregar uma experiência centrada na narrativa.

A primeira impressão que o jogo passa é de um RPG. Não apenas o gênero que estamos acostumados a jogar digitalmente, mas o RPG de mesa: A narração do personagem, as animações mais contidas e a navegação em câmera isométrica constroem a sensação de estar em uma sessão guiada por escolhas e interpretação. É a partir desses elementos que Aether & Iron se estrutura como um game que alinha a sua proposta à atmosfera e às expectativas do universo decopunk que busca construir.

Decopunk

Uma leve nota antes de seguir com o texto. O game representa uma cultura estética chamada decopunk. Não conhecia até começar a jogar e talvez diversas outras pessoas não conheçam. Decopunk é um estilo que mistura o visual elegante dos anos 20 e 30 com tecnologia futurista. É aquela estética mais refinada, cheia de linhas geométricas, prédios imponentes, clima noir e sofisticado, só que inserido em um mundo com máquinas avançadas e ideias de futuro. Fica com essa sensação de, como diria o grande poeta Cazuza, o futuro repetindo o passado.

Diferente do steampunk, que puxa mais para o lado industrial e rústico, o decopunk é mais limpo, urbano e estiloso, focado nessa visão mais luxuosa do progresso. Bons exemplos de obras na estética sempre estiveram na cultura pop, mas passaram, pelo menos para mim, como steampunk. Você pode ver mais da estética e atmosfera no clássico filme Metropolis, em Batman: The Animated Series de 92 e, por último, e que me impressionou, é a baita série de games BioShock.

Asher & Iron – Divulgação

Hey, Al Capone. Vê se te orienta…

A história acompanha Gia, uma contrabandista em meio a uma cidade flutuante movida por uma substância conhecida como éter. A partir dessa premissa, o jogo desenvolve uma trama que aborda desigualdade social, poder e sobrevivência, sustentada por diálogos extensos e decisões que impactam diretamente o rumo da narrativa. É justamente nesse aspecto que Aether & Iron encontra sua maior força: o texto é bem construído, os personagens têm profundidade e o mundo transmite consistência e identidade. Há um cuidado evidente na forma como o jogo conduz o jogador por suas escolhas, criando uma experiência mais reflexiva do que imediatista.

Essa abordagem, no entanto, também evidencia algumas fragilidades. A forte dependência de texto e interações mais estáticas acaba reduzindo o dinamismo da experiência. A exploração é limitada, com mapas que funcionam quase como tabuleiros, diminuindo a sensação de liberdade e descoberta. O universo instiga, mas nem sempre permite que o jogador o explore com a profundidade que sugere. Ainda assim, a proposta se mantém coerente com a ideia de um RPG mais narrativo, claramente inspirado em estruturas próximas aos jogos de mesa.

O combate tático com veículos surge como um diferencial interessante. As batalhas exigem estratégia, posicionamento e planejamento, adicionando variedade à jogabilidade. Embora funcione bem na proposta, o sistema não alcança grande complexidade e pode apresentar problemas de balanceamento em alguns momentos, impactando o ritmo da progressão. Mesmo assim, a presença de árvores de habilidade contribui para dar mais liberdade ao jogador, reforçando o caráter estratégico da experiência.

Asher & Iron – Reprodução Steam

A trilha sonora tem um peso importante nos games, mas é justamente nesse ponto que o jogo deixa a desejar. As músicas não conseguem se destacar nem reforçar a atmosfera proposta, soando genéricas na maior parte do tempo. Em vez de potencializar a experiência, a trilha passa quase despercebida, sem criar momentos memoráveis ou ampliar o impacto emocional da narrativa.

Na contrapartida, um ponto muito positivo e vale destacar é que Aether & Iron conta com localização em português, oferecendo legendas totalmente traduzidas ao longo de toda a experiência. Em um jogo fortemente baseado em narrativa e decisões, esse cuidado faz diferença, garantindo melhor compreensão dos diálogos, das escolhas e do próprio universo construído, além de tornar o título mais acessível ao público brasileiro.

Asher & Iron – Divulgação

O game possui gráficos simples e animações discretas. Ainda assim, o jogo compensa com uma direção de arte consistente e uma ambientação bem definida. Em vez de tentar competir com grandes produções, Aether & Iron aposta em uma experiência mais focada e autoral, o que acaba funcionando a seu favor.

No fim, Aether & Iron entrega uma experiência que pode não agradar a todos, principalmente quem busca ação constante ou alto nível técnico. Para quem valoriza narrativa, escolhas e construção de mundo, no entanto, o jogo oferece uma jornada envolvente e bem construída. É um projeto que entende suas limitações, mas também sabe exatamente onde quer chegar, e isso faz toda a diferença.

Você pode jogar Aether & Iron no PC via Steam

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