Muito Prazer é um título cruel quando aplicado a um filme sobre sexo que parece ter vergonha de sentir qualquer coisa. O Motel Pérola foi concebido para produzir desejo, vender fantasia e esconder os corpos que entram e saem dele. Jorge Furtado, porém, filma esse universo com a energia de quem precisa apenas registrar que uma história está acontecendo. É uma contradição curiosa, visto que seu filme encontra uma premissa sobre voyeurismo, pornografia, dinheiro e intimidade na era das plataformas, mas quase nunca parece interessado no ato de olhar. Existe sexo no argumento, dinheiro na trama e precariedade em cada personagem. Falta cinema.
Rubem (Daniel de Oliveira) herda um motel falido, atolado em dívidas e sem o valor imobiliário que ele imaginava encontrar. Grace (Luisa Arraes), ex-funcionária que passou a morar em uma das suítes após ficar sem salário, já trata o lugar como extensão de sua própria sobrevivência. Quando os dois descobrem, com Nalva (Samantha Jones), que as câmeras instaladas no estabelecimento podem transformar a intimidade dos clientes em conteúdo vendido pela internet, a premissa se fecha como uma pequena máquina econômica criminosa.

É uma inversão fértil para o cinema de Furtado. Em “O Homem que Copiava”, a escassez empurrava um sujeito comum para uma sucessão de expedientes cada vez mais tortuosos. Em “Saneamento Básico”, a falta de recursos fazia da produção audiovisual uma espécie de gambiarra comunitária. Aqui, a intimidade alheia aparece como matéria-prima de um empreendedorismo de emergência. O problema não é apenas que Rubem e Grace precisam de dinheiro; é que o mundo ao redor parece ter transformado qualquer coisa em oportunidade de monetização. Trabalho, desejo, privacidade, corpo: tudo pode virar conteúdo se houver uma plataforma disposta a distribuir.
Muito Prazer enquanto filme, é uma contradição. É um longa sobre sexo que quase nunca encontra qualquer sensualidade. O motel está cheio de símbolos eróticos – espelhos, luz vermelha, suítes temáticas, camas grandes –, mas a libido que movimenta a narrativa pertence sobretudo aos números da tela. Rubem e Grace parecem mais envolvidos com visualizações, faturamento e estratégias de divulgação do que com os corpos que observam. O desejo aparece filtrado por câmeras, telas e categorias, como se até a experiência sexual precisasse passar por uma planilha antes de adquirir algum valor.
Essa escolha poderia produzir uma sátira ácida sobre a transformação da intimidade em mercadoria. Só que Furtado protege seus personagens das consequências para deixar que a contradição se torne realmente incômoda. O crime de filmar pessoas sem consentimento é tratado pelo roteiro como mais uma questão operacional. Os obstáculos aparecem, são contornados e desaparecem. A história precisa continuar leve, e, para isso, a realidade é convocada a colaborar.
A direção acompanha essa decisão com uma pobreza formal que chama atenção justamente por vir de um cineasta cuja obra anterior tinha tanta consciência da linguagem audiovisual. A fotografia registra os ambientes, organiza os personagens e ilumina as cenas sem demonstrar grande interesse em transformar o espaço do motel em algo além de cenário funcional. Poucos enquadramentos parecem nascer de uma necessidade específica; muitas soluções poderiam pertencer indistintamente a uma comédia televisiva, a uma série de plataforma ou a qualquer produção contemporânea empenhada em parecer dinâmica sem necessariamente construir uma identidade visual.

É estranho porque o próprio argumento oferecia possibilidades visuais evidentes. Um filme sobre câmeras escondidas, voyeurismo, pornografia digital e circulação de imagens poderia brincar com pontos de vista, formatos de tela, vigilância e montagem. Em vez disso, as inserções gráficas e recursos digitais parecem ilustrar informações que o diálogo já explicou.
O roteiro também sofre de uma didatização incompatível com a agilidade que tradicionalmente marcou as comédias de Furtado. Seus diálogos continuam tentando alcançar aquela velocidade de raciocínio que transforma uma conversa banal em mecanismo cômico, mas frequentemente chegam ao destino antes da piada. Personagens explicam o funcionamento da própria situação, verbalizam informações que a encenação poderia sugerir e transformam discussões econômicas, tecnológicas e sexuais em pequenos seminários. A metalinguagem e a inteligência textual continuam presentes, mas agora parecem conscientes demais de que precisam demonstrar inteligência.
Isso afeta também o elenco. Daniel de Oliveira encontra em Rubem uma mistura interessante de ingenuidade e oportunismo, enquanto Samantha Jones demonstra um timing capaz de produzir energia quando a cena permite. Drica Moraes, em aparição particularmente viva, parece compreender intuitivamente que comédia não depende apenas da frase engraçada, mas do intervalo entre uma palavra e outra, da maneira como alguém olha, espera ou decide não reagir. Luisa Arraes, por sua vez, recebe de Grace uma personagem concebida para ser intensa e desbocada, mas ela sintetiza essa falta de tesão que o longa transparece, o que é uma pena, porque é ela quem tem mais importância no roteiro.
A trilha sonora tampouco parece encontrar uma estratégia que amplifique essa mistura de erotismo, precariedade e absurdo. Em um filme cujo centro é justamente a transformação do sexo em mercadoria audiovisual, seria possível imaginar uma relação mais inventiva entre música, ruído e imagem. O resultado prefere acompanhar as situações sem estabelecer um comentário expressivo sobre elas. É mais um sintoma de uma produção em que quase todos os elementos cumprem suas funções sem reivindicar personalidade própria.
A precariedade continua sendo uma força narrativa para Furtado. O que muda é a maneira como ela chega à imagem. Rubem e Grace não têm dinheiro, e justamente por isso descobrem uma maneira moralmente torta de fazê-lo circular. É uma lógica reconhecível; quando quase tudo já foi convertido em mercadoria, resta perguntar qual parte da vida ainda não encontrou seu preço. O filme percebe essa pergunta, mas hesita diante dela.
Um filme de sexo não precisa necessariamente mostrar sexo para provocar desejo, assim como uma comédia não depende de gargalhadas constantes para produzir humor. Mas precisa encontrar alguma forma de desejo pela própria imagem, pelo ritmo, pelos personagens, pela ideia que está perseguindo. Aqui, quando o filme tenta ser sensual, o efeito às vezes está mais próximo do riso; quando tenta ser engraçado, algumas cenas encontram o timing; quando tenta discutir o presente, parece explicar aquilo que já sabemos.
Muito Prazer quer falar de gente que transforma intimidade em mercadoria. Até por isso sua maior fragilidade seja não transformar o próprio cinema em experiência. A nudez vira conteúdo, o sexo vira negócio, o motel vira empresa, o desejo vira algoritmo. Tudo circula, tudo é convertido, tudo encontra um preço.
A imagem, não.
A imagem permanece ali, parada, esperando que alguém finalmente faça alguma coisa com ela.
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