Clive Barker’s Hellraiser: Revival tinha uma missão complicada. Adaptar Hellraiser para os videogames significa trabalhar com uma franquia muito particular, que não depende apenas de monstros ou sustos baratos e canalhas. A obra de Clive Barker sempre esteve muito ligada à dor, ao prazer, à violência e à forma como esses elementos podem se misturar de maneiras extremamente desconfortáveis.
Felizmente, Revival entende bem essa proposta e traz a melhor adaptação que a franquia poderia ter. O jogo foi desenvolvido pela Saber Interactive em parceria com a Boss Team Games e contou com a participação direta de Clive Barker na construção da história. Além disso, Doug Bradley retorna oficialmente para dar voz a Pinhead, reforçando ainda mais a ligação com os filmes clássicos.
A equipe também decidiu olhar principalmente para os dois primeiros filmes e para The Hellbound Heart, evitando buscar referências em todas as continuações da franquia. Dessa forma, Revival consegue construir sua própria história sem perder de vista aquilo que tornou Hellraiser tão marcante.
Tudo começa com uma noite de prazer
A história começa com Aidan e sua namorada, Sunny, durante uma noite que deveria ser apenas mais uma exótica experiência entre os dois. O casal decide levar algumas brincadeiras para um nível mais extremo e coloca um misterioso cubo mágico no meio da situação. O problema é que, quando estamos falando de Hellraiser, brincar com uma caixa capaz de abrir uma passagem para outra dimensão dificilmente termina bem.
A situação sai completamente do controle. Aidan acaba capturado pelo culto dos Cenobitas, enquanto Sunny é arrastada para o Labirinto, o lugar infernal que serve como um dos principais cenários da franquia como um todo. É a partir desse momento que o jogo realmente começa, com o protagonista tentando encontrar uma forma de chegar até ela.

A história é bastante expositiva. Em vários momentos, o jogo faz questão de explicar seus conceitos, personagens e acontecimentos em vez de deixar o jogador descobrir tudo naturalmente, o que é bom pra quem não tem familiaridade, mas entendo como isso pode incomodar um pouco, principalmente para quem gosta de histórias de terror que trabalham mais com mistério.
Por outro lado, gostei bastante da escolha de fazer uma campanha linear e focada na narrativa. Eu esperava que Revival fosse uma experiência muito mais voltada para ação, mas ele prefere te conduzir por uma jornada mais controlada. Isso funciona bem para a proposta e permite que o jogo construa seus momentos de tensão sem precisar transformar tudo em um mundo maçante cheio de atividades secundárias.
A Configuração Gênesis é mecânica central da gameplay
Um dos maiores acertos de Revival está em transformar a clássica caixa de enigmas de Hellraiser em uma ferramenta realmente importante para você. Mais do que apenas uma forma de conectar os filmes ao jogo, ela faz parte da estrutura do gameplay e permite manipular diferentes elementos do ambiente e utilizar poderes sobrenaturais durante os confrontos.
A caixa funciona quase como uma extensão do protagonista e adiciona uma camada sobrenatural ao combate e à exploração. Em determinados momentos, ela também participa da resolução dos puzzles, reforçando a ideia de que o Labirinto não é apenas um cenário, mas um espaço que tenta confundir e testar Aidan.
Os puzzles não são necessariamente o ponto mais complexo do jogo, mas cumprem bem sua função. Eles oferecem uma pausa entre os confrontos e ajudam a manter a sensação de que você está atravessando um ambiente que não segue as regras normais da realidade. O próprio design do Labirinto brinca com caminhos que se repetem, ambientes que se transformam e situações que exigem uma mudança de perspectiva para serem solucionadas.

Furtividade simples, mas funcional
O sistema de furtividade é bastante simples, mas funciona. Não existe uma grande variedade de possibilidades ou um sistema extremamente elaborado, porém o jogo consegue fazer você pensar duas vezes antes de entrar em uma sala atirando em todo mundo.
Isso acontece principalmente por causa dos recursos. As armas brancas possuem durabilidade e a munição não aparece em abundância. Por isso, muitas vezes achei mais vantajoso tentar passar pelos inimigos sem chamar atenção do que partir diretamente para o combate.
Também existe a possibilidade de esquivar dos ataques, o que ajuda quando o confronto direto é inevitável. Joguei no Normal e achei a dificuldade bastante agradável. Não tive grandes problemas para avançar, mas também nunca senti que estava completamente seguro. Em vários combates, terminei praticamente à beira da morte, e essa sensação de perigo funciona muito bem para um jogo de terror.
Quando o terror vira pancadaria
O combate é dividido entre confrontos corpo a corpo e troca de tiros. No começo, ele não impressiona tanto, principalmente porque nós ainda temos poucas opções. Conforme novas armas são desbloqueadas, porém, as coisas ficam muito mais interessantes.
As novas armas aumentam bastante a variedade dos confrontos e deixam os combates mais violentos. Existe até uma sensação curiosa nisso, porque você começa o jogo com medo das criaturas e, depois de conseguir equipamentos melhores, passa a encarar alguns daqueles mesmos inimigos de uma maneira completamente diferente.
Ainda prefiro a furtividade em boa parte das situações, principalmente pela escassez de recursos. Mas quando o jogo permite que você tenha mais ferramentas para lutar, o combate fica bem mais divertido.

Um Hellraiser bastante desconfortável, como de costume
Não dá para falar de Hellraiser sem falar do desconforto, são duas coisas que andam entrelaçadas. O jogo segue muito bem a identidade da franquia nesse aspecto. Existem cenas extremamente gráficas e expositivas, situações perturbadoras e momentos que exploram diretamente a relação entre dor e prazer que sempre esteve presente na obra de Clive Barker.
E aqui existe um ponto importante. Revival definitivamente não é um jogo que eu recomendaria para qualquer pessoa. Mesmo quem costuma jogar terror pode encontrar algumas cenas difíceis de assistir, principalmente porque o jogo não tenta suavizar sua violência para alcançar um público maior.
Ao mesmo tempo, essa é justamente uma das características que fazem a experiência funcionar para quem gosta da franquia. O jogo não tenta transformar Hellraiser em um terror genérico. Ele abraça o lado grotesco e desconfortável da obra. Definitivamente não é um jogo para se jogar na televisão da sala de estar.

Um jogo feito para quem gosta de Hellraiser
Clive Barker’s Hellraiser: Revival não é uma experiência que eu consigo recomendar para todo mundo. O excesso de violência, as cenas desconfortáveis e a própria temática da franquia criam uma barreira bastante clara. Se você não gosta desse tipo de horror, dificilmente o jogo vai fazer você mudar de ideia.
Para quem gosta de Hellraiser, porém, a situação é bem diferente. A participação de Clive Barker, o retorno de Doug Bradley como Pinhead e o cuidado em buscar referências principalmente nos primeiros filmes e em The Hellbound Heart mostram que existe uma preocupação real em respeitar e retratar esse universo.
O jogo também consegue transformar elementos conhecidos da franquia em mecânicas que funcionam. A Configuração Gênesis tem importância considerável no gameplay, a furtividade combina com a escassez de recursos e o combate ganha força conforme novas armas aparecem.
Hellraiser: Revival não é perfeito e poderia trabalhar melhor alguns de seus sistemas, principalmente a furtividade. Ainda assim, ele conseguiu me surpreender justamente por ser uma experiência mais focada na narrativa do que eu esperava. Para quem gosta dos mundos sombrios de Clive Barker, é uma recomendação bem fácil.
Clive Barker’s Hellraiser: Revival está disponível para PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC (via Steam).
Agradecimento ao estúdio por nos fornecer uma cópia para review.
Leia também:





















Deixe uma resposta