Review | Stick It To The Stickman transforma o ambiente corporativo em uma pancadaria caótica

Desenvolvido pela Free Lives e publicado pela Devolver Digital, Stick It To The Stickman transforma a corrida pelo sucesso profissional em um roguelike de pancadaria cheio de física, humor absurdo e referências à cultura pop. A fórmula funciona muito bem, principalmente porque o jogo consegue adicionar novas ideias constantemente sem abandonar sua proposta, que é não se levar a sério em nenhum momento. Jogo estava em acesso antecipado há cerca de 1 ano e, finalmente, chegou ao seu lançamento oficial.

Um botão, dezenas de possibilidades

O combate parte de uma ideia simples. Você tem apenas um botão de ataque, mas uma lista de golpes que determina a ordem em que eles serão executados. Cada movimento usado entra em uma sequência, e cabe a você montar uma combinação que funcione melhor para cada situação.

Além disso, os golpes podem receber upgrades e ganhar versões muito mais poderosas. Um chute para frente, por exemplo, pode evoluir para um chute de bicicleta, um revólver pode evoluir para uma metralhadora, e por aí vai. Alguns ataques – como o próprio revólver – ainda utilizam munição e ficam temporariamente bloqueados quando ela acaba, obrigando você a adaptar sua estratégia.

Além do fato de que você está vendo bonecos de palito caindo na pancadaria – e isso por si só já é muito engraçado – é justamente essa combinação entre física, variedade de golpes e progressão que torna as lutas tão divertidas. Você nunca está apenas apertando o mesmo botão. Está construindo uma pequena máquina de pancadaria e descobrindo até onde aquela combinação consegue chegar.

Uma carreira corporativa nada convencional

O principal modo é a Torre Financeira, na qual você precisa subir pelos andares derrotando seus colegas de trabalho até chegar ao chefe. Depois de derrotá-lo, você assume o cargo e começa tudo novamente em uma nova run.

O modo também pode ser jogado em cooperativo local. Nesse caso, as vidas dos personagens são reduzidas pela metade para equilibrar a experiência. E existe uma última surpresa no topo: apenas um jogador pode ficar com o cargo de chefe. Depois de trabalharem juntos durante a run, os dois precisam se enfrentar para decidir quem fica com a promoção.

Além da Torre Financeira, o jogo também conta com outros modos que complementam a experiência e dão um grau de variedade à mais para a progressão. O Centro de Distribuição, por exemplo, segue uma estrutura um pouco diferente. As fases funcionam como sidescrollers, mas o objetivo continua sendo avançar pelos funcionários até chegar ao chefe.

Já a Arena de Luta muda completamente a forma de jogar. Os combates acontecem automaticamente, e sua função é montar a lista de golpes que o personagem utilizará. Isso transforma o sistema de combate em uma espécie de disputa estratégica, já que a ordem das habilidades pode definir o resultado de cada confronto.

Ainda temos também a Fábrica de Produção Estrangeira, que leva a expansão da empresa para fora do país. A justificativa, obviamente, segue o humor absurdo do jogo: fugir dos advogados trabalhistas que estão tentando garantir os direitos dos funcionários e aproveitar a possibilidade de oferecer salários menores

A versão 1.0 chegou com novidades

Com o lançamento oficial, o jogo também conta com dois modos novos: Bunker dos Bilionários e o Neurolink. O modo Bunker dos Bilionários apresenta outra mudança na fórmula. Aqui, a ideia é lutar de cima para baixo enquanto você utiliza habilidades passivas inéditas e golpes especiais para chegar até um chefe final descrito pelo próprio jogo como “ridículo”. E, considerando o nível de absurdo de Stick It to the Stickman, essa descrição combina perfeitamente com a proposta.

Já o Neurolink coloca os poderes mentais no centro da experiência. O jogador pode escolher entre nove arquétipos diferentes e utilizá-los para sobreviver aos desafios, adicionando uma camada estratégica ainda maior ao combate. O modo também traz novos personagens, chefes e segmentos de fases.

Apesar das diferenças, todos esses modos fazem parte da mesma estrutura de progressão. Cada área possui sua própria árvore de habilidades, mas elas são interconectadas. Um upgrade da Arena de Luta, por exemplo, pode exigir que você cumpra determinada condição no Centro de Distribuição. Assim, o jogo incentiva a explorar suas diferentes empresas em vez de ficar preso a uma única atividade.

O jogo não para de surpreender

Uma das melhores qualidades de Stick It To The Stickman é sua capacidade de quebrar expectativas. O jogo apresenta ideias novas quando você menos espera e transforma até sistemas que poderiam ser banais em piadas.

Um dos melhores exemplos é a bolsa de valores. Em vez de simplesmente colocar um menu tradicional para representar investimentos, o jogo transforma a mecânica em uma espécie de minigame de “mestre mandou” musical.

Os próprios golpes seguem essa lógica. Entre as possibilidades estão referências diretas a técnicas famosas, como o Hadouken e o Jutsu do Clone Sexy de Naruto. Eu perdi as contas de quantas vezes o jogo me fez rir simplesmente por não se levar a sério em nenhum momento e encaixar piadas absurdas em contextos absurdos. É como dizem, a primeira regra do humor realmente é a quebra de expectativa.

Uma sátira corporativa que funciona

O humor de Stick It to the Stickman não depende apenas de referências ou de situações absurdas. O próprio funcionamento dos sistemas serve para construir a sátira sobre o ambiente corporativo. Você começa como mais um funcionário tentando subir na carreira e, pouco a pouco, passa a explorar trabalhadores, expandir sua empresa e procurar maneiras cada vez mais absurdas de aumentar os lucros. Talvez esse seja um desejo adormecido dentro de cada trabalhador brasileiro.

Até a própria promoção funciona como uma recompensa pela violência. Você derrota o chefe e se torna o novo chefe, apenas para continuar subindo. No cooperativo, a situação fica ainda mais engraçada porque a amizade entre os jogadores termina no momento em que o cargo está em disputa.

O jogo consegue fazer essa crítica sem transformar tudo em uma longa explicação sobre capitalismo. As piadas estão nos sistemas, nos objetivos e nas próprias situações que o jogador vivencia. Isso deixa o humor muito mais natural e faz com que até as mecânicas mais simples contribuam para a identidade do jogo.

O caos também tem alguns problemas

No entanto, nem tudo funciona perfeitamente. O jogo ainda apresenta alguns bugs que conseguem atrapalhar bastante uma run. Personagens podem ficar presos no chão ou dentro de paredes, enquanto em algumas situações a tela simplesmente fica preta e não retorna.

Quando isso acontece, a única solução é reiniciar. Em um roguelike, perder uma run por causa de um problema técnico é especialmente frustrante, porque todo o progresso daquela tentativa desaparece, independente de estar quase no fim ou no começo da run.

Além dos problemas técnicos, a própria progressão cria outro ponto de atrito. Para desbloquear novos conteúdos, é necessário acumular dinheiro, o que acaba exigindo uma quantidade considerável de grind. Na prática, isso significa repetir várias vezes a Torre Financeira, que é o modo que oferece mais dinheiro. Depois de algumas runs, a repetição começa a pesar e transforma parte da progressão em uma obrigação para quem quer acessar novos personagens e conteúdos. A variedade de modos ajuda a diminuir essa sensação, mas não elimina o fato de que o jogo exige bastante repetição para avançar.

São problemas que não comprometem a ideia central do jogo, mas que precisam de atenção para que a experiência fique tão polida quanto o restante de seus sistemas.

Um caos muito bem planejado

Stick It To The Stickman funciona porque consegue equilibrar duas coisas que poderiam facilmente entrar em conflito: um combate que possui profundidade suficiente para sustentar dezenas de runs e um humor absurdo que transforma praticamente qualquer situação em uma piada.

A estrutura de um botão de ataque parece simples, mas a variedade de golpes, upgrades, classes e combinações cria bastante espaço para experimentar. Os diferentes modos também conseguem alterar a forma de jogar sem perder a identidade, enquanto as árvores de habilidades conectadas incentivam a explorar todo o conteúdo, mesmo que nem todos estejam no mesmo nível de qualidade.

O mais impressionante é como o jogo consegue manter essa criatividade durante praticamente toda a experiência. Sempre existe uma nova mecânica, uma referência inesperada, um personagem estranho ou um detalhe escondido esperando para aparecer. Até quando você tenta sair do jogo, ele encontra uma maneira de transformar isso em uma piada, ameaçando te demitir.

Os bugs ainda tiram um pouco do brilho de uma experiência tão bem trabalhada, mas não conseguem esconder o resultado. Stick It To The Stickman é uma mistura muito bem executada de roguelike, pancadaria e sátira corporativa, com uma identidade própria muito forte e um humor absolutamente incrível.

No fim, é difícil pensar em uma forma mais apropriada de representar uma carreira corporativa do que subir na empresa espancando seus colegas, explorando trabalhadores e disputando uma promoção no soco. E, por mais absurdo que pareça, Stick It To The Stickman faz essa ideia funcionar muito bem.

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Apenas mais um entusiasta de jogos eletrônicos, apaixonado por explorar novos mundos que me ajudam a compreender melhor o mundo que eu vivo. Também estudante de psicologia e um amor de pessoa nas horas vagas.