The Guild Remake preview
Imagem / Conecta Geek

Preview | The Guild 1 Remake: Europa 1410 e o peso do passado

O resgate de uma das franquias de simulação mais emblemáticas dos anos 2000 em uma tentativa de reviver a sua história

O resgate de uma das franquias de simulação mais emblemáticas dos anos 2000 em uma tentativa de reviver a sua história

Com o acesso antecipado lançado no dia 17 deste mês, duas décadas após o sucesso do título original, The Guild 1 Remake: Europa 1410 busca resgatar a nostalgia e a essência de uma franquia que marcou os simuladores no início dos anos 2000. Desenvolvido pela Ashborne Games, o remake revisita a proposta do clássico em uma versão atualizada, tentando transportar aos dias de hoje a experiência que conquistou jogadores em uma época muito diferente da atual.

Uma geração que cresceu nos anos 2000 passou boa parte da juventude olhando para os anos 90 como uma espécie de época dourada, mesmo sem tê-la vivido de fato. Nesse processo, acabou deixando em segundo plano a própria década, que só anos mais tarde começaria a ganhar o status de período nostálgico. Agora, com esses jovens já adultos, produtos, experiências e referências dos anos 2000 começam a ser revisitados e reconhecidos pelo valor que talvez não tenham recebido na época.

Nos videogames, esse movimento não é diferente, mas algumas franquias ficam preservadas em nichos tão específicos da memória dos jogadores que qualquer tentativa de resgatá-las soa como um ato de coragem ou de extrema audácia. Quando o The Guild deu seus primeiros passos, há mais de duas décadas, o jogo apresentou uma combinação pouco convencional de simulação econômica, RPG e intriga política medieval, ambientada na Europa do século XV.

Depois de sequências que dividiram opiniões e, aos poucos, se afastaram da essência do original, a promessa de um remake do primeiro título reacende a nostalgia de quem conheceu a franquia naquela época. Mas, para além da memória afetiva, fica a principal questão: essa fórmula ainda é capaz de sustentar o interesse do jogador atual?

The Guild 1 Remake: Europa 1410 – Reprodução Steam

A gameplay: um simulador completo, complexo e sem atalhos

A verdade é que o maior trunfo de The Guild 1 Remake: Europa 1410 é também a sua barreira mais alta: este é um simulador completo e complexo. O jogo não tem pressa em pegar na mão do jogador ou facilitar a sua jornada. Você é colocado no centro da Idade Média com o objetivo de erguer uma dinastia respeitada e lucrativa, seja gerenciando oficinas de artesanato, dominando comércios ou articulando esquemas nos bastidores da política local.

The Guild 1 Remake: Europa 1410 – Reprodução Steam

A jogabilidade se sustenta em um emaranhado de sistemas vivos. O que você mais faz nas primeiras horas é navegar por uma infinidade de painéis, acompanhar números de produção, ajustar salários, escoltas e reagir a eventos aleatórios que mudam a economia da cidade. Cada decisão cobra seu preço. Trata-se de uma experiência que exige muita atenção aos detalhes; um pequeno descuido no estoque ou na logística de transporte pode significar prejuízos astronômicos ou a ruína da sua reputação antes mesmo do fim do mandato de um cargo público.

Toda a operação do game é controlada por meio de telas e menus sobrepostos você adquire matérias-primas, ajusta os salários e o tratamento dos funcionários para conter a insatisfação e define as linhas de produção. A partir disso, surge o dilema logístico entre vender os produtos no próprio local ou carregá-los em carroças rumo ao mercado central, um trajeto constantemente ameaçado por saqueadores que exige o investimento em escoltas armadas para minimizar prejuízos. À medida que o acúmulo de capital permite adquirir títulos e o direito de cidadania, o jogo abre espaço para a arena política, onde é possível articular cargos públicos, usar subornos e influenciar a aprovação de leis. Para coroar essa simulação, eventos aleatórios e decisões morais, como lidar com a posse de relíquias sagradas ou aceitar barganhas sombrias para fortalecer a linhagem da dinastia, mostram o nível de microgerenciamento exigido em cada etapa.

A burocracia excessiva dos menus torna o progresso mais arrastado do que deveria. O ritmo é deliberadamente cadenciado e a repetição de ciclos produtivos faz parte do núcleo da proposta, mas isso não significa que toda essa lentidão seja necessariamente recompensadora. Em diversos momentos, o jogador precisa navegar por diferentes telas e opções para realizar tarefas que poderiam ser resolvidas de maneira mais simples e intuitiva. O problema não está apenas na quantidade de informações, algo esperado em um simulador desse tipo, mas na forma como elas são apresentadas e no número de etapas necessárias para transformar uma decisão em ação. Com o passar das horas, o que inicialmente pode transmitir a sensação de profundidade acaba se tornando um processo burocrático, especialmente quando o jogador já compreendeu determinada mecânica e precisa continuar repetindo os mesmos procedimentos para avançar.

The Guild 1 Remake: Europa 1410 – Reprodução Steam

Arte e música: a reconstrução visual da Europa medieval

Se no ritmo de jogo existe um peso burocrático, o trabalho de direção de arte e qualidade gráfica merece elogios. A reconstrução estética da Europa de 1410 apresenta um nível de cuidado notável. As cidades exibem uma arquitetura rica em detalhes, com ruas movimentadas, feiras dinâmicas e construções que respeitam o rigor histórico do período.

A iluminação e a escolha de cores ajudam a criar uma atmosfera densa, onde o contraste entre o luxo dos prédios e a simplicidade das ruelas populares salta aos olhos. É o tipo de ambiente que convida o jogador a dar um zoom, observar a rotina dos cidadãos e absorver o clima da época enquanto planeja o próximo passo da sua dinastia.

O problema fica por conta da trilha sonora. As composições musicais apostam em arranjos excessivamente genéricos, caindo nos velhos clichês de fundo de taverna e melodias medievais previsíveis. Em vez de construir uma identidade marcante ou ditar o tom das grandes rivalidades familiares, a música acaba soando como um ruído de fundo reutilizável que pouco adiciona à emoção das partidas.

O veredito

The Guild 1 Remake: Europa 1410 não tenta disfarçar o que é: um simulador denso, minucioso e sem espaço para superficialidades. Ele exige dedicação contínua e um olhar atento a cada pequena engrenagem do seu império.Para quem já curte o gênero e sente saudades da franquia, o jogo é um prato cheio e maravilhoso, resgatando aquela essência clássica de gerenciamento tático que parecia perdida na indústria. Por outro lado, para quem não é chegado em simuladores profundos ou busca diversão imediata, a experiência pode se tornar decepcionante. A curva de aprendizado é íngreme e quem não tem paciência para aprender rápido seus sistemas provavelmente vai se frustrar antes de ver sua dinastia prosperar.

O game está disponível para ser jogado em acesso antecipado na Steam.

Análise realizada com código enviado pela THQ Nordic

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