Review | Tales of Eternia Remastered – Um retorno surpreendente de um dos melhores da franquia

Tales of Eternia é um jogo que foi lançado originalmente para PlayStation 1, e desenvolvido pela Namco, que agora é conhecida mundialmente como Bandai Namco. E Tales of Eternia tem uma história de localização curiosa, pois ele chegou ao ocidente com o nome de Tales of Destiny 2 – causando uma confusão gigantesca na localização posterior dos titulos, pois o Tales of Destiny de fato, ganhou uma continuação direta de sua história no PlayStation 2, mas que não foi localizada aqui no ocidente, talvez por esse mesmo motivo.

Pois bem, anos depois Eternia teve seu titulo corrigido para PSP na Europa e na Austrália, mas não teve seu titulo corrigido na américa do norte, isso só foi ocorrer agora com esse relançamento, e essa remasterização.

Enredo simplório, mas carismático e um dos mais divertidos da franquia

Aqui acompanhamos a jornada do caçador Reid, que é surpreendido pela queda de uma nave espacial em sua vila, junto a sua amiga de infância Farah, eles encontram uma garota de proporções diferentes a deles chamada de Meredy, que após uma descoberta, decide viajar até essas terras para impedir um desastre de acontecer.

Tales of Eternia tem um conceito de mundo muito curioso, aqui temos dois mundos separados por uma barreira, eles são Inferia e Celestia. Inferia é onde vivem Reid e Farah – e conceitualmente, onde vivem os humanos que são parecidos conosco em aparência. Já Celestia é povoada pelo povo de Meredy, que tem pés redondos como uma bolinha, e sua fisionomia lembra a de uma boneca de pano, mas mais importante que isso – o tom de pele do povo de Celestia é mais escuro, e isso já deixa bem claro alguns temas que Eternia quer retratar.

Existe um forte preconceito mútuo entre Inferianos e os Celestianos, e isso é algo que se arrasta por milênios, pois existe um medo genuíno de que os dois mundos irão colidir em determinado momento. Isso fez com que ambas as raças se mantivessem em seus devidos lugares, cercados de diversos conflitos históricos que os afastaram cada vez mais.

Ele não entra muito em detalhes em pautas raciais e seus conflitos, e também não desenvolve tão bem o tanto de possibilidades que isso pode trazer, mas ainda é um tema diferente e bastante sofisticado para os padrões da série, trazendo um elenco divertido e interessante de se acompanhar.

Não posso deixar de citar sobre Keele – que é outro amigo de Reid e Farah, e por ser um estudante de uma cidade universitária (e exilado da mesma) ele é o ponto focal dos jovens a entenderem a situação, e entenderem melhor a língua que Meredy fala. É engraçado como Inferia e Celestia estão em um conflito histórico, mas Reid e Farah são completamente alheios disso, vivendo a vidinha básica deles.

No mais, o enredo de Eternia toca em temas interessantes, e nos proporciona uma jornada simples e muito boa de acompanhar, o elenco principal é curioso, pois eu acredito que seja o mais pequeno de todos os Tales, e mesmo com a aparição de outros personagens na party eventualmente, ela, pra mim, é composta quase 100% desses quatro personagens, e isso funciona bem, até mesmo em termos de gameplay.

Mudanças visuais um tanto decepcionantes, mas que não estragam a experiência

Tales of Eternia tem uma remasterização bem, ok eu diria. Por mais sem graça que isso possa soar, não consigo descrever melhor suas mudanças gráficas. Na verdade, é mais fácil dizer o que eu acho que está errado com ela.

Aqui temos um jogo pixel art de PlayStation 1, então temos cenários bem desenhados com pré- renderização e movimento simples, mas muito bem implementados que casam bem com a atmosfera que o jogo quer passar. O filtro que eles utilizaram é o filtro de upscale por IA que deixa algumas imagens bem “lavadas” perdendo um pouco da sua qualidade pixelada.

O jogo está ocupando a tela inteira dos monitores, mas se comporta bem, também temos a opção de escolher gráficos clássicos que não utilizam do filtro para melhorar a resolução.

Uma coisa que me incomodou profundamente – e vale dizer que isso é algo que ocorre bastante com remasterizações de títulos pixelados – é que a fonte das letras utilizadas aqui é uma fonte completamente em HD, então não simula os pixels que geralmente utilizam em jogos desse porte. Isso cria uma dessonância que incomoda bastante os olhos, ainda mais vendo a diferença do gameplay e das letras que estão nele. Essa “falha” da fonte é algo que raramente você vê as desenvolvedoras buscando melhorar. As poucas vezes que eu vi, foi em uma atualização dos Pixels Remasters dos Final Fantasys do I ao VI, e após muito tempo da sua janela inicial de lançamento.

Gostaria muito de ver esse tipo de mudança feita pela Bandai Namco também, mas não coloco muitas esperanças nisso.

Por fim, a arte do jogo é toda feita pela lendária Mutsumi Inomata, que deu a identidade para a série toda, e suas artes são belíssimas e cheias de delicadeza, lembrando bastante artes do gênero Shoujo, com excelentes designs de personagens e monstros.

Mas enfim, fora essas reclamações que eu tenho a respeito da utilização de upscale. Fora isso ele está rodando perfeitamente bem a 4k e 60 frames por segundo.

Uma estrutura de exploração clássica, e um ótimo gameplay de combate cheio de ação dinâmica e estratégica

Como eu já citei, Tales of Eternia tem uma aventura muito “deleituosa” de se acompanhar, ela não perde muito tempo em já se engajar na ação, e rapidamente nos joga para explorar esse mundo. E ele tem uma estrutura clássica e padronizada de JRPGs, com vilas e dungeons como pontos de “calmaria” e “ação” e um mapa mundo, onde podemos explorar e ir nas cidades como vemos em Final Fantasy ou mais recentemente – Expedition 33. Enquanto exploramos, podemos ter diferentes diálogos especiais entre os personagens sobre as situações deles e sobre o nosso próximo objetivo, trazendo uma experiencia interessante na exploração.

Uma adição para facilitar a exploração dos mapas do jogo, foram os marcadores no mapa, mostrando ao jogador diretamente onde eles precisam ir para avançar na história, além de mostrar marcadores para missões opcionais do jogo.

Eu sinceramente não sou fã desse tipo de implementação, mas também não sou contra, eu acho uma boa pedida para ajudar novos jogadores, mas para mim tira a beleza e imersão do mundo desses jogos.

O jogo clássico não possui indicadores sobre o onde temos que ir ou o que precisamos fazer, apenas dicas pelos diálogos dos personagens mesmo, e as missões opcionais eram descobertas interagindo com diferentes NPCs no mundo. Eu acho isso insubstituível em JRPGs, mas, dito isto, não sou contra a uma opção de acessibilidade para novos jogadores, pois eu entendo o quanto pode ser fácil ficar perdido nesses jogos.

Já no combate, Tales of Eternia engaja em combates aleatórios pelo mapa, onde o jogador passeando tranquilo do nada se depara com um inimigo aleatório. Dentro da batalha, como de costume da série Tales, não temos um combate por turno, mas sim um combate em tempo real que remete bastante a jogos de luta tradicionais, não tenho muita certeza do que digo, mas imagino que Tales foi um dos primeiros jogos de JRPG de ação a se utilizar de “atalhos de comando” para o jogador realizar combos com especiais e ataques normais durante a partida, Inclusive temos um contador de Hits como jogo de luta para contabilizar toda doidera que você consegue fazer em partida. Além disso, podemos controlar todos os personagens da party acessando o menu de comandos dentro da batalha, podemos dar ordens ou mudar também o esquema tático da IA dos personagens, para se adequar aos cenários de batalha que o jogador irá enfrentar.

Rejogando Eternia novamente, eu consigo ver o quanto a Square pode ter se inspirado nesses jogos para fazer o seu estilo de jogabilidade de JRPG de Ação com Kingdom Hearts e Final Fantasy VII Remake, apesar dela possuir a série Trails, que tem bastante combate dinâmico como Tales. Não consigo deixar de ver o quanto Tales aprimorou muito seus sistemas, e é nessa parte que eu acredito que esses jogos brilham muito, principalmente esses primeiros títulos da franquia.

Como eu já informei rapidamente, combates aleatórios aqui, podem ser sim uma experiência frustrante, mas que o remaster soube condensar bem introduzindo novas qualidades de vida, como aumento de EXP ganho. É possível controlar a frequência que as batalhas aleatórias acontecem, e outros ganhos técnicos, mas eu sinceramente me recuso a utilizar pois é quase como uma forma de trapacear no jogo, vai de jogador a jogador, porém é bom eles colocarem as opções aqui.

Temos um modo automático nas batalhas agora, onde o jogo irá jogar para você, e também temos a possibilidade de aumentar a velocidade da batalha, além da adição de opções como a opção de Retry para tentar novamente caso perca a batalha (coisa que não tinha no jogo original). Outra opção é de se recuperar rapidamente pelos menus, para não precisar acessar todos os personagens um de cada vez.

Além disso, temos a opção de dificuldade Extreme disponível sem precisar zerar o jogo alguma vez, mas também temos uma nova opção de dificuldade chamada aqui de Unknown recompensando o jogador a realizar sua primeira zerada. As dungeons extras do jogo também estão disponíveis sem precisar de um NG + , dando uma experiência completa ao jogador logo na sua primeira jogada.

Nova dublagem norte americana, e trilha sonora lendária

Tales of Eternia vem com uma das minhas trilhas favoritas de Motoi Sakuraba, e apesar de ver em retrospecto o quanto ela é bem “padrãozinha” de várias que ele já realizou, não consigo deixar a nostalgia de lado e apreciar todas elas, causando até um arrepio quando eu as ouço, me remetendo a quando eu era uma criança vendo meu pai jogar esse jogo com tanta paixão.

Motoi mescla bem diversos estilos aqui, deixando um ar mais mágico para diversas trilhas de Inferia, mas colocando uma trilha sonora mais focada em um teclado eletrônico para passar a atmosfera de “alienígena” para Celestia, o que faz a trilha sonora de Eternia ter um destaque especial para mim entre os diversos títulos da série.

Não tivemos mudanças drásticas nela, apenas diferenças na qualidade de áudio que o jogador pode escolher nos menus, mas sem trazer um rearranjo ou coisa do tipo.

A dublagem em inglês também foi trocada, a original foi feita pelo estúdio WebTone, e apesar de eu ter uma certa nostalgia em cima dela também, admito que ela não tinha muita qualidade – assim como diversos jogos (e principalmente JRPGs) de PlayStation 1 na época. Uma das maiores falhas dessa dublagem original é que os famosos Skits da série, onde os personagens conversam entre eles nos acampamentos – não foi dublada e nem tinha legendas atribuidas a elas, deixando apenas o portrait do personagem mexendo a boca, e por anos eu achei que isso era um problema da mídia pirata que utilizavamos para jogar o jogo.

Dessa vez, isso foi devidamente corrigido, e a dublagem e localização tem mais profissionalismo e aproximação a dublagem em japonês – que você inclusive pode colocar se assim desejar. Mas agora, Tales of Eternia está completamente localizado, sem falta e sem deixar conteúdo de lado.

Considerações finais

Tales of Eternia Remastered é talvez a melhor forma de jogar esse clássico fora o PlayStation 1, Bandai Namco colocou melhorias na qualidade de vida do jogo, e visa bastante ser acessível para diversos jogadores. Infelizmente nem tudo são rosas, alguns dos visuais pixelados do PlayStation 1 não se traduziram bem aqui, e alguns cenários ficaram um tanto borrados e feios, mas ainda assim, ele consegue manter uma consistência na qualidade muito boa.

É uma grande surpresa ter Tales of Eternia de volta de uma forma tão acessível. Esse era um jogo que tinha uma grande dificuldade nesse quesito, e estava um tanto esquecido no PS1 e no PSP. E pasmem, agora está disponível em todas as plataformas com uma acessibilidade gigantesca. É muito bom ver que a Bandai Namco está se atentando em trazer os Tales mais antigos para nós.

Fico feliz que Eternia foi o escolhido para ser o primeiro Tales da velha guarda a ser localizado. Apesar de preferir Destiny hoje em dia, Eternia é extremamente nostálgico e querido por mim. Um jogo com uma qualidade muito acima da média de diversos JRPGs, que me fez grandes memórias daquela época.

Agora me resta aguardar um remaster de Destiny e Phantasia, ambos também um pouco esquecidos. E quem sabe, agora Bandai Namco não decida localizar Tales of Destiny 2 corretamente para a América. Só restando aguardar as cenas dos próximos capítulos.

O jogo foi enviado pela Bandai Namco para a realização dessa review.

Tales of Eternia – Remastered está disponivel para PlayStation 4 e 5, Xbox Series S|X, Nintendo Switch 1 e 2, e PCs via Steam.

Meu prato favorito é JRPGs, mas também gosto de saborear filmes, animações, quadrinhos etc. Um outro prato que adoro é jogo de terror com tempero de ação, mas, na real, eu gosto de tudo relacionado a videogame. Se quiser me seguir no twitter, fique a vontade! As vezes eu posto opinão lá > @vannbrood