Existe algo curioso na forma como Fire Emblem evoluiu ao longo dos anos. A série nunca abandonou suas batalhas táticas, mas cada novo capítulo encontra maneiras diferentes de trabalhar a relação entre seus personagens, a exploração e a própria estrutura da aventura. Fire Emblem: Fortune’s Weave segue justamente esse caminho ao misturar elementos de Three Houses e Engage com novas ideias.
O resultado é um RPG gigantesco, que pode facilmente ultrapassar 100 horas de duração e ainda deixar conteúdo para fazer depois dos créditos. No Nintendo Switch 2, o jogo também apresenta uma boa adaptação técnica, embora algumas escolhas impeçam a experiência de alcançar um desempenho ainda melhor.
Uma história dividida entre quatro protagonistas
A história começa em um mundo ameaçado pelo retorno do deus demoníaco Balor. Cinco anos antes dos acontecimentos que levaram a esse cenário, Eshmel precisa alterar o destino de quatro personagens que participaram dos Jogos Heroicos e que, na linha temporal original, acabaram mortos.
É a partir daí que conhecemos Kai, Leda, Dietrich e Theodora. Cada um possui sua própria motivação para participar dos jogos, além de uma campanha particular, personagens recrutáveis e acontecimentos que ajudam a construir suas respectivas histórias.
A estrutura funciona de uma maneira interessante porque não obriga o jogador a terminar completamente uma campanha antes de conhecer as outras. É possível alternar entre os quatro protagonistas e acompanhar suas jornadas paralelamente. Essa liberdade ajuda bastante quando a narrativa começa a ficar mais extensa.
O problema está justamente no tamanho dessas histórias. Fortune’s Weave tem muito para contar e, em alguns momentos, parece não ter pressa alguma para chegar ao próximo acontecimento. Há longas sequências de diálogo e cenas que acabam diminuindo o ritmo, sobretudo quando o jogador começa uma nova campanha e precisa passar novamente por toda a preparação daquele personagem.
Ainda assim, gosto da maneira como os quatro protagonistas são desenvolvidos. Eles começam com objetivos bastante individuais e vão sendo transformados pelos acontecimentos até que suas histórias passam a convergir. Os personagens recrutáveis também ajudam a dar vida ao mundo, com mais de 80 figuras que possuem suas próprias motivações, diálogos e habilidades.
Eshmel, por outro lado, é uma escolha narrativa que me convenceu menos. Depois de passar tanto tempo conhecendo os quatro protagonistas, assumir o papel de uma quinta figura central acaba criando uma distância desnecessária. Os quatro heróis já possuem personalidade e conflitos suficientes para sustentar a aventura.
O combate continua sendo o grande destaque
Se existe uma coisa que Fortune’s Weave não erra, é na parte que realmente importa para um Fire Emblem: as batalhas. Os confrontos continuam acontecendo em mapas divididos em quadrados, com o jogador precisando posicionar suas unidades, analisar os inimigos e decidir cuidadosamente cada movimento. A base conhecida da série continua aqui, mas recebe novas mecânicas que deixam os confrontos mais variados.
Cada protagonista possui habilidades próprias, enquanto as Artes de Combate permitem modificar ataques em troca de maior desgaste das armas. As Artes de Chama também entram nessa equação, oferecendo benefícios poderosos que consomem parte da vida do personagem.

É um sistema que recompensa quem entende as características de cada unidade e sabe quando correr riscos. Em algumas batalhas, uma decisão errada é suficiente para transformar uma situação confortável em um verdadeiro problema.
O sistema de classes também ganhou uma abordagem diferente. Em vez de simplesmente atingir determinado nível para trocar de classe, o jogador precisa adquirir licenças e realizar exames para liberar novas possibilidades. Isso adiciona mais uma camada de planejamento à evolução dos personagens.
A possibilidade de escolher entre o modo clássico, com morte permanente, e o modo casual continua presente. Para quem prefere a experiência tradicional, o recurso de voltar no tempo por meio da Areia Divina funciona como uma espécie de segunda chance sem retirar completamente a tensão das batalhas. É justamente essa combinação de sistemas que faz Fortune’s Weave funcionar tão bem. O jogo aproveita conceitos que já apareceram em outros capítulos e encontra uma maneira de colocá-los juntos sem abandonar sua identidade.
Uma mistura de Fire Emblem com Persona
Entre uma batalha e outra, Fortune’s Weave assume uma estrutura bem diferente daquela encontrada nos Fire Emblem mais antigos. Existe um mapa-múndi para explorar, cidades, masmorras, comerciantes, missões secundárias e diversas atividades para realizar durante os períodos de descanso. Também é possível melhorar equipamentos, conseguir recursos, conversar com personagens, fortalecer relações e recrutar novos integrantes para o grupo.
Essa parte lembra bastante Persona, especialmente pela forma como o tempo é administrado. O jogador precisa decidir como utilizar os dias disponíveis antes de determinados acontecimentos, escolhendo entre melhorar seus personagens, explorar, realizar atividades ou simplesmente avançar a história.

Confesso que esse é um dos aspectos que menos me agrada na fórmula moderna de Fire Emblem. Ainda assim, Fortune’s Weave encontrou uma solução que torna esse sistema mais amigável para quem prefere se concentrar nas batalhas.
É possível pular boa parte das atividades de tempo livre e avançar diretamente para o próximo acontecimento. O jogo ainda leva em consideração a evolução que os personagens teriam durante esse período, evitando que o jogador seja completamente punido por ignorar essa camada da experiência. Para quem gosta de administrar cada detalhe do grupo, existe conteúdo de sobra. Para quem prefere ir direto às batalhas, há uma alternativa.
As masmorras também funcionam como uma quebra interessante na estrutura. Em vez dos combates tradicionais em grade, algumas dessas áreas permitem explorar ambientes em terceira pessoa e enfrentar inimigos em batalhas por turnos. É uma ideia diferente dentro da série e ajuda a variar o ritmo da aventura.
O Switch 2 entrega uma boa versão
Fire Emblem: Fortune’s Weave foi desenvolvido pensando no Nintendo Switch 2 e apresenta uma direção visual que combina bem com o hardware. Os personagens possuem um estilo desenhado à mão que funciona particularmente bem durante as cenas de história. Os cenários também apresentam bastante personalidade, principalmente Daxion, cidade que serve como um dos principais pontos da aventura.
No modo portátil, o jogo também se comporta muito bem. Foi justamente nessa forma que a experiência se mostrou mais confortável, mantendo a qualidade visual sem comprometer a leitura dos menus ou dos elementos presentes no campo de batalha.
O principal ponto que poderia ser melhor é o desempenho. Fortune’s Weave roda a 30 quadros por segundo e não oferece um modo de desempenho para tentar alcançar 60 fps. A taxa de quadros é estável na maior parte do tempo, com algumas pequenas inconsistências no ritmo dos frames, mas nada que prejudique as batalhas. A diferença fica mais perceptível durante a exploração das cidades, quando o movimento do personagem torna a ausência de 60 fps mais evidente.
Por outro lado, os controles respondem rapidamente e os menus são fáceis de navegar. O Switch 2 ainda permite utilizar os Joy-Con como mouse, uma opção interessante para quem prefere esse tipo de controle, embora não seja algo indispensável para aproveitar o jogo. Visualmente, portanto, Fortune’s Weave está longe de ser um dos títulos mais impressionantes do Switch 2, mas entrega uma direção de arte consistente e uma apresentação que combina com a proposta da série.
Uma aventura para muitas horas
É difícil falar sobre Fortune’s Weave sem mencionar seu tamanho. Dependendo da forma como você joga, a campanha pode passar facilmente das 100 horas. Quem decidir conhecer as quatro histórias, completar missões secundárias, recrutar personagens e investir tempo na evolução do grupo encontrará uma quantidade enorme de conteúdo.
Essa duração também ajuda a justificar a estrutura narrativa mais lenta. O problema é que nem sempre quantidade significa ritmo adequado. Existem momentos em que Fortune’s Weave parece querer colocar tudo o que tem na tela ao mesmo tempo. São personagens, diálogos, atividades, missões, batalhas, exploração e sistemas de evolução disputando a atenção do jogador.

Para quem gosta de RPGs extensos, isso provavelmente será parte do atrativo. Para quem prefere uma experiência mais direta, algumas dessas atividades podem acabar parecendo trabalho. Ainda assim, existe uma sensação muito boa de progresso. Cada personagem recrutado, nova classe liberada e habilidade adquirida ajuda a transformar o grupo ao longo da campanha. Quando uma batalha difícil finalmente termina depois de várias tentativas, fica clara a razão pela qual a fórmula de Fire Emblem continua funcionando depois de tantos anos.
Vale a pena?
Fire Emblem: Fortune’s Weave não reinventa a série. Na realidade, seu maior mérito está em entender o que funcionou nos capítulos anteriores e reunir essas ideias em uma aventura enorme. A influência de Three Houses aparece na estrutura social e no desenvolvimento dos personagens, enquanto Engage deixa sua marca principalmente no combate. Ao mesmo tempo, as masmorras, o mapa de exploração e a administração do tempo aproximam a experiência de outros RPGs japoneses.
Nem todas essas ideias funcionam com a mesma força. A narrativa poderia ser mais enxuta, Eshmel não precisava ocupar tanto espaço e algumas atividades de gerenciamento acabam cansando depois de muitas horas. Quando o jogo coloca o jogador diante de um mapa tático, contudo, essas reclamações praticamente desaparecem. As batalhas continuam sendo excelentes, exigem planejamento e conseguem criar momentos de tensão mesmo depois de dezenas de horas.
No Switch 2, a experiência também se mostra sólida. Faltou uma opção para 60 fps, mas os 30 fps entregues são suficientes para manter as batalhas funcionando sem problemas relevantes.
Fortune’s Weave é, acima de tudo, um Fire Emblem gigantesco. É um jogo que respeita quem gosta de passar dezenas de horas desenvolvendo personagens, planejando equipes e conhecendo cada detalhe de seu mundo. Depois de tantos anos, a série continua encontrando maneiras de expandir sua fórmula sem abandonar aquilo que fez tantos jogadores se apaixonarem por ela.
Agradecimento a Nintendo Brasil por nos fornecer uma cópia para review.
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