Review | Forever Ago

Review | Forever Ago transforma o luto em uma bonita jornada de aceitação

Existem histórias que não precisam de grandes reviravoltas ou grandes linhas de diálogo expositivas para marcar. Forever Ago é uma delas. Desenvolvido pela Third Shift e publicado pela Annapurna Interactive, o jogo acompanha Alfred, um homem idoso que decide pegar sua van e seguir rumo ao norte depois de sofrer um acontecimento que muda completamente sua vida.

Uma viagem em busca de paz

Durante a viagem, Alfred passa por diferentes lugares, conhece pessoas e revisita memórias que ajudam a entender quem ele foi e tudo aquilo que perdeu. A estrada funciona quase como uma extensão da própria cabeça do protagonista. Cada parada traz uma nova lembrança, uma nova história ou alguma coisa que o faz olhar para o passado de uma maneira diferente.

É uma história sobre luto, mas também sobre aceitação, memória e a possibilidade de encontrar algum tipo de paz depois de uma perda. E por mais que esse seja o tema do jogo, ele não tenta transformar o luto em algo grandioso ou exageradamente dramático. Ele prefere acompanhar Alfred em momentos pequenos, deixando que suas memórias e as histórias das pessoas que encontra construam essa jornada aos poucos.

A exploração segue um ritmo bastante tranquilo, o que combina com a proposta da história. Não existe uma preocupação em transformar cada trecho da viagem em uma grande aventura ou criar obstáculos constantemente. O jogo prefere deixar o você observar os cenários, acompanhar Alfred em seus momentos de reflexão e vivenciar essas pequenas histórias em um ritmo agradável e tranquilo. Isso faz com que a viagem tenha uma sensação quase contemplativa, como se o próprio ritmo da estrada fosse importante para que o personagem conseguisse colocar os pensamentos em ordem.

Fotografar como ato de lembrar

A câmera de Alfred é uma das formas mais simples que Forever Ago encontra para reforçar sua mensagem. Ela não funciona como uma mecânica complexa, nem transforma a fotografia em um sistema cheio de possibilidades, mas durante a viagem, você pode registrar paisagens, pessoas e momentos que considera importantes, criando uma espécie de álbum da jornada. É uma interação bastante simples, mas que combina muito bem com a proposta do jogo.

O interessante está justamente no significado por trás dessas fotos. Alfred está atravessando uma fase da vida marcada por uma perda, e registrar aquilo que encontra pelo caminho reforça a importância de guardar momentos enquanto eles ainda acontecem. A câmera faz com que a viagem também seja sobre construir novas lembranças, em vez de permanecer preso apenas às que ficaram no passado.

Algumas fotos servem apenas para registrar lugares bonitos ou situações curiosas, mas a ideia de parar, observar e guardar aquele momento acaba fazendo sentido dentro da jornada de Alfred.

É como se essa funcionalidade fosse muito menos uma mecânica e sirva mais como uma extensão do tema central de Forever Ago. Alfred passa boa parte da jornada revisitando lembranças antigas, mas também começa a criar novas memórias. E essa diferença é importante para entender a mensagem do jogo: lembrar do que perdemos não significa deixar de viver o que ainda podemos encontrar pelo caminho.

Câmera em Forever Ago
A importância de registrar momentos | Captura por Herbert William

Um walking simulator que sabe onde quer chegar

Forever Ago é essencialmente um walking simulator. Você explora os cenários, observa objetos, conversa com personagens, tira fotografias e avança pela história. Existem pequenos quebra-cabeças e interações espalhadas pelo caminho, mas eles estão ali principalmente para acompanhar a narrativa, e não para transformar o jogo em uma experiência focada em desafios.

Por isso, quem espera sistemas complexos ou uma grande variedade de mecânicas provavelmente vai se decepcionar. O jogo é simples. Muito simples, em alguns momentos.

Mas essa simplicidade também é uma das suas maiores qualidades. Forever Ago sabe que sua história é o principal motivo para continuar jogando. A exploração serve para conhecer Alfred, entender seu passado e descobrir as histórias das pessoas que cruzam seu caminho.

Início da jornada de Forever Ago
Onde tudo começou | Captura por Herbert William

Uma abordagem diferente para falar sobre o luto

Luto não é um tema novo nos videogames. Todos os anos aparecem novas histórias que tentam abordar a perda, a saudade e as diferentes formas de lidar com a ausência de alguém importante. Forever Ago também fala sobre tudo isso, mas o que mais me chamou atenção foi a maneira como ele escolhe abordar o assunto.

O jogo não olha para o luto apenas pela dor. Ele também fala sobre o que vem depois dela.

Existe uma visão muito mais otimista sobre o processo de aceitar uma perda. Não no sentido de esquecer aquilo que aconteceu, mas de conseguir olhar para uma lembrança sem sentir apenas sofrimento. Alfred precisa aprender a conviver com aquilo que não pode mudar e entender que seguir em frente não significa abandonar quem ficou para trás.

A saudade continua existindo. Ela provavelmente nunca vai desaparecer. O que muda é a forma como lidamos com ela.

Forever Ago fala justamente sobre transformar a lembrança em algo que também pode trazer orgulho, carinho e gratidão. O passado não volta, mas aquilo que vivemos continua fazendo parte de quem somos. E talvez uma das maiores dificuldades do luto seja justamente aprender a carregar essas memórias sem permitir que elas impeçam você de continuar vivendo.

É necessário viver o luto para não viver de luto.

Mesa especial de bar em Forever Ago
O peso de seguir em frente | Captura por Herbert William

Uma trilha sonora transformadora de momentos

A trilha sonora também merece bastante destaque. As músicas acompanham os momentos de Alfred sem tentar disputar espaço com eles, criando uma atmosfera melancólica que combina perfeitamente com a viagem.

A trilha original foi composta por Clark Aboud, conhecido por trabalhos como Slay the Spire e Kind Words.

Trilhas sonoras em videogames são ferramentas potencializadoras. Em determinados momentos, uma música consegue transformar uma cena simples em algo muito mais marcante, e é justamente isso que acontece em Forever Ago. Enquanto Alfred dirige, observa uma paisagem ou encontra alguma lembrança do passado, a música consegue reforçar a sensação de estar acompanhando uma pessoa que ainda está tentando entender tudo o que aconteceu. É uma trilha que combina com a solidão da estrada, mas também com os pequenos momentos de esperança que aparecem durante a jornada.

Dança entre os personagens de Forever Ago
Alfred e Audrey em uma noite especial | Captura por Herbert William

Uma história simples, mas que fica com você

Talvez a maior crítica que possa ser feita a Forever Ago seja justamente sua falta de inovação. O jogo não reinventa a roda, não apresenta uma mecânica revolucionária e trabalha com temas que já foram explorados diversas vezes nos videogames.

Mas não acho que isso seja um grande problema, pra ser sincero.

Uma obra não necessariamente precisa inovar para ser uma experiência marcante. Forever Ago entende muito bem o tipo de experiência que quer oferecer e executa sua proposta com bastante sensibilidade.

Ao longo da viagem, existem frases, conversas e pequenos ensinamentos que ficam na cabeça e realmente te fazem refletir sobre muitas coisas. Essa abordagem, mesmo que seja simples, ainda é trabalhada de uma forma muito bonita. O jogo fala sobre aceitar aquilo que não podemos mudar, preservar as boas lembranças e encontrar forças para continuar carregando o legado de quem fez parte da nossa vida.

A saudade continua existindo. O que muda é a forma como aprendemos a lidar com ela. E acho que é justamente essa mensagem que torna a história de Forever Ago tão marcante.

A jornada de Forever Ago
No fim, tudo é sobre a jornada | Captura por Herbert William

Uma viagem que vale a pena fazer

Forever Ago é uma experiência simples, linear e extremamente focada em sua história. Isso significa que ele definitivamente não vai agradar quem não gosta de jogos mais parados e procura um gameplay mais elaborado ou uma aventura cheia de sistemas.

Para quem gosta de boas histórias, porém, é muito fácil recomendar o jogo.

A jornada de Alfred fala sobre perda, arrependimento, saudade e envelhecimento, mas principalmente sobre a possibilidade de continuar vivendo depois de perder alguém importante. Sem se apegar à dor, sem apagar a dor, mas simplesmente mostrando que ela pode mudar com o tempo.

A saudade não desaparece. Ela muda de lugar dentro da gente. Com o tempo, aquilo que antes doía pode se transformar em carinho, orgulho e gratidão por tudo o que foi vivido. Seguir em frente não significa abandonar essas memórias, mas encontrar uma forma de carregá-las sem deixar que elas nos impeçam de continuar.

E talvez seja essa a mensagem mais bonita do jogo. Algumas pessoas, momentos e fases da nossa vida nunca vão voltar, mas isso não diminui o valor que tiveram. O que resta é a memória, o legado e a força para continuar vivendo e honrando tudo aquilo que ficou para trás.

Forever Ago chega dia 8 de outubro de 2026 para PC (Steam e Epic Games), PlayStation 5, Xbox Series X/S e Nintendo Switch 2.

Agradecimento ao estúdio por nos fornecer uma cópia para review.

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Apenas mais um entusiasta de jogos eletrônicos, apaixonado por explorar novos mundos que me ajudam a compreender melhor o mundo que eu vivo. Também estudante de psicologia e um amor de pessoa nas horas vagas.