Crítica | Street Fighter diverte, mas se rende à 'marvelização'
Legendary Pictures/Divulgação

Crítica | Street Fighter diverte, mas se rende à ‘marvelização’

Normalmente, os jogos de luta não são exatamente conhecidos por suas histórias elaboradas. Street Fighter é um caso interessante, porque, apesar de ter surgido nos videogames em 1987, a franquia construiu, ao longo de quase quatro décadas, um universo próprio, e não estamos falando apenas dos games. A franquia também ganhou mangás e animes que exploraram esse universo e mostraram que existe bastante material para construir uma boa adaptação cinematográfica. Ou seja, inspiração não faltava. 

Entre a rivalidade e os traumas do passado

O diretor Kitao Sakurai havia revelado que destacaria a amizade e a rivalidade entre Ken (Noah Centineo) e Ryu (Andrew Koji) como a base da história. Afinal, são amigos que seguiram caminhos opostos após a morte do mestre, mas continuam ligados pelo passado que compartilham. O filme ainda abre espaço para explorar o lado sombrio de Ryu, associado ao arco de Evil Ryu.

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Sakurai também procurou trabalhar com atores que já conheciam e eram fãs dos jogos, o que ajuda a preservar características reconhecíveis dos personagens, e essa preocupação foi destacada por Takayuki Nakayama, diretor do jogo Street Fighter 6, que elogiou a adaptação por corresponder à sua visão daquele universo.

Uma franquia com potencial, mas presa à fórmula da Marvel

Antes de dirigir Street Fighter, o diretor explorou a comédia em Bad Trip em 2021, estrelado por Eric André, que também está no novo filme. A mistura de situações absurdas e cômicas daquele longa reaparece aqui em Street Fighter, e talvez seja responsável pelo ponto mais crítico, a chamada “marvelização”: fórmula que mistura ação, piadinhas constantes e personagens incapazes de levar qualquer situação a sério.

Durante anos, essa abordagem funcionou no cinema de super-heróis e acabou se espalhando por Hollywood. Mas, após tanta repetição, começou a dar sinais de saturação. Ainda assim, continua presente em produções como “Dungeons & Dragons” e “Mestres do Universo”.

Street Fighter segue essa mesma fórmula, tentando equilibrar ação, exageros e descontração, mas sem encontrar um resultado realmente eficaz.

Enredo e personagens

A partir de flashbacks ambientados em 1987, descobrimos que, após vencer um campeonato, Ryu despertou um poder sombrio que seu mestre, Gouken, acreditava precisar ser controlado. Por isso, encarregou Ken de vigiar o amigo e impedir que essa força o dominasse. É o conceito do Hado, um poder que Bison (David Dastmalchian) pretende explorar para desenvolver uma arma química. Mas, antes de chegar a isso, precisamos avançar seis anos na história.

A trama principal se passa em 1993 – um ano antes do filme estrelado por Jean-Claude Van Damme, lançado em 1994. Nesse período, Ryu abandonou as lutas após a morte de Gouken pelas mãos de Akuma (Roman Reigns), seu próprio irmão, e passou a carregar a culpa pelo ocorrido. Ken seguiu um caminho diferente: tornou-se uma espécie de celebridade, quase um influenciador, deixando as competições para viver da própria imagem. Ainda assim, continua tentando provar seu valor, principalmente por viver à sombra de Ryu.

Crítica | Street Fighter diverte, mas se rende à 'marvelização'
Legendary Pictures/Reprodução

É justamente o reencontro com Akuma que obriga Ryu a confrontar os traumas que tentou esquecer, enquanto a rivalidade entre os antigos parceiros se intensifica, segredos revisitam e velhas desavenças ameaçam a relação dos dois.

Duas frases resumem os conflitos dos protagonistas: “Cogitar é perder tempo”, dita por Ryu, e “Dê às pessoas o que elas querem”, associada a Ken. A primeira reflete a culpa de Ryu pela morte de Gouken. Incapaz de lidar com o passado, ele prefere evitar confrontá-lo. Mas fugir dos próprios traumas não significa superá-los, e o reencontro com Akuma o obriga a encarar aquilo que tentou esquecer.

Já a frase de Ken representa sua vida como celebridade, alguém que depende da própria imagem e das expectativas do público para continuar relevante. Aos poucos, porém, ele percebe que agradar aos outros não é o mesmo que reconhecer o próprio valor.

Mas os conflitos não se limitam aos protagonistas. Boa parte dos personagens compartilha problemas com figuras paternas: Ken cresceu sendo problemático e foi enviado ao Japão, onde Gouken o acolheu ao lado de Ryu, um órfão que encontrou no mestre uma figura paterna. Chun-Li (Callina Liang), por sua vez, busca justiça após Bison assassinar seu pai, enquanto Blanka (Jason Momoa), que lembra uma espécie de Hulk da Marvel, deseja reencontrar a mãe.

David Dastmalchian se destaca

O vilão Bison é retratado como alguém que cultua a própria imagem, considera-se superior e manipula os outros para alcançar seus objetivos. Aqui entra uma das atuações que mais me impressionaram: David Dastmalchian entrega um Bison genuinamente maligno, com uma presença marcante e uma crueldade transmitida pelo olhar e pela postura.

É inevitável compará-lo a Raul Julia, que interpretou o personagem na versão de 1994. Julia abraçou o exagero de Bison, misturando ameaça, teatralidade e humor absurdo. Dastmalchian segue por um caminho mais sombrio e menos cômico, mas recupera parte daquela presença caricatural que torna o vilão tão interessante.

Paramount Pictures/ Divulgação

Visual de videogame, clichês e boas ideias

Visualmente, Street Fighter acerta na transição entre o live-action e a animação 2D dos flashbacks. Esses trechos são detalhados e nos fazem pensar que o filme funcionaria melhor se fosse inteiramente animado.

Os figurinos decepcionam em alguns momentos, mas há exceções, como o uniforme vermelho de Bison, que reforça sua presença ameaçadora, e os trajes tradicionais de Ryu, Ken e Guile, que preservam a identidade dos personagens.

Com poucas locações, a produção recorre à computação gráfica. As tomadas de Metro City parecem uma mistura da sede dos Vingadores com um cenário gerado por Inteligência Artificial (IA), lembrando mais um videogame do que um ambiente real. Por outro lado, o uso das cores apresenta algumas ideias interessantes. Chun-Li aparece frequentemente cercada pelo vermelho, que simboliza tanto o perigo quanto a violência que marca sua trajetória e sua busca por vingança contra Bison.

Crítica | Street Fighter diverte, mas se rende à 'marvelização'
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Nas cenas de ação, a mistura de elementos dos jogos de luta, com os beat ‘em ups funciona bem. O problema está no excesso de efeitos sonoros: praticamente todo golpe vem acompanhado de um estrondo, como se cada soco precisasse anunciar sua chegada.

A repetição torna as lutas cansativas e faz com que todos os movimentos pareçam ter o mesmo impacto.A fotografia também aposta em ambientes escuros, ajudando a disfarçar algumas limitações dos efeitos visuais. Ainda assim, o resultado não é desastroso, e o Hadouken, por exemplo, consegue transmitir razoavelmente bem a energia característica do golpe.

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Por fim, o filme recorre a clichês visuais, como a cena em que Ryu corta o cabelo, simbolizando uma mudança de fase e sua tentativa de se libertar do passado para seguir em frente. Outro clichê é o resgate de músicas conhecidas para dar um tom irônico às cenas, como “Who Let the Dogs Out”, do Baha Men, “What’s Up”, do 4 Non Blondes, e “Black Hole Sun”, do Soundgarden. Músicas que mesclam entre abordar frustração e a busca por sentido em meio às dificuldades. Ainda sobra tempo para uma pequena e caricata participação de 50 Cent ao som de “Many Men”.

Um clímax que não faz jus à expectativa

Mas o maior problema de Street Fighter está no clímax. Desde o início, o filme constrói a expectativa pelo confronto entre Ryu, Ken e Akuma, preparando o terreno para o que deveria ser o grande momento da história. Só que, quando ele finalmente acontece, tudo passa rápido demais. Depois de tanta preparação, falta peso dramático para explorar o significado daquele reencontro e transmitir o impacto de tudo o que os personagens viveram.

Por fim, em mais um aceno à marvelização, o filme apresenta uma cena pós-créditos que abre espaço para uma possível continuação.  As sequências em animação 2D também evocam as animações dos anos 1990, época em que a franquia conquistou tantos fãs nos fliperamas. Mas, claro, uma sequência dependerá do desempenho nas bilheterias.

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