Damon Albarn e Jamie Hewlett sempre construíram universos paralelos para o Gorillaz, mas em The Mountain eles propuseram algo diferente. Em vez de criar um mundo novo, resolveram explorar o que existe depois dele. O nono álbum da banda chega como uma espécie de diário de viagem espiritual, escrito às margens do Ganges depois que a morte bateu à porta dos dois criadores com uma crueldade cronométrica. Hewlett perdeu o pai dez dias após Albarn enterrar o seu, e foi na Índia que eles buscaram respostas que a Inglaterra jamais poderia dar.
O resultado é um disco que caminha na contramão do que se esperaria de um projeto sobre luto. Em vez do mergulho melancólico, The Mountain emerge como uma celebração barulhenta e colorida da existência. É como se Albarn tivesse descoberto que a melhor homenagem aos que se foram não é o silêncio, mas o som em toda sua plenitude. A Índia não está apenas nas citações superficiais ou nos samples turísticos – ela pulsa em cada camada sonora, dos sitares de Anoushka Shankar às flautas bansuri que atravessam faixas como “The Sweet Prince”, uma despedida ao pai que flutua entre a dor e a serenidade da eternidade que é um registro musical.
A formação clássica do Gorillaz sempre foi um chamariz de estrelas, mas aqui os convidados assumem uma função quase litúrgica. São xamãs de diferentes tradições musicais conduzindo o ouvinte por estações desse purgatório sonoro. Omar Souleyman encontra Yasiin Bey na espetacular “Damascus” para um diálogo árabe-americano que funciona como ponte entre mundos, enquanto Gruff Rhys entrega um dos momentos mais bonitos do disco ao cantar sobre trocar de pele como quem troca de estação. E quando Joe Talbot, vocalista do IDLES, surge em “The God of Lying”, ecoando o flow de “Clint Eastwood”, fica claro que Albarn não está apenas revisitando o passado, mas busca uma recontextualização tudo o que construiu há quase 30 anos.
Mas o verdadeiro golpe de mestre de The Mountain é como ele lida com as participações especiais de pessoas que já partiram. As vozes que chegam do outro lado não soam como assombrações, muito pelo contrário, elas são presenças vívidas, cutucando os vivos.
Tony Allen intromete seu iorubá em “The Hardest Thing” como um guia espiritual, Mark E. Smith gargalha grotescamente em “Delirium” e Proof parece narrar o próprio fim em “The Manifesto”. Há algo de profundamente humano em ouvir Dennis Hopper dando nome ao disco, como se a arte realmente fosse essa máquina do tempo que insiste em manter todo mundo por perto.
A pulsação eletrônica que sempre definiu o Gorillaz continua lá, mas agora ela dança com os batuques das tablas e harmonias indianas de um jeito que nunca soou tão orgânico. “The Plastic Guru” brinca com a própria ideia de espiritualidade comprada em prateleira, lembrando que Albarn e Hewlett já tinham feito sua peregrinação a Rishikesh e voltado de lá com mais perguntas do que respostas. É esse pé atrás com o transcendental que impede o disco de escorregar para o piegas ou para a apropriação indiana de aeroporto. Os caras sabem o que estão fazendo — e sabem, principalmente, que não sabem de nada.
Aos 92 anos, Asha Bhosle surge em “The Shadowy Light” pedindo ao barqueiro que a leve para a outra margem, e a imagem é tão poderosa que resume quase sozinha a proposta do álbum. Não há desespero na voz dela, apenas aceitação. É o mesmo tom que Albarn encontra em “Orange County”, joia rara que conversa com “On Melancholy Hill” como primas distantes unidas pelo mesmo afeto: “everything you gave to someone you love, that’s the hardest thing” (tudo o que você deu a alguém que ama, essa é a coisa mais difícil). A morte não está no fim da frase, mas no meio dela.
Com quinze faixas que passeiam por cinco idiomas e incontáveis colaborações, The Mountain poderia facilmente ter virado um Frankenstein sonoro. Mas há uma mão firme guiando essa bagunça criativa, e essa mão aprendeu recentemente que o controle é ilusão. O disco entrega o melhor do Gorillaz justamente quando assume que não entrega nada – apenas pergunta, escuta, experimenta. A tal “mudança de paradigma” que Albarn buscava veio pelo caminho mais improvável quando ele aceitou que tudo acaba para que tudo possa recomeçar.
Leia sobre outros discos:




















Deixe uma resposta