Crítica - Napoleão é um filme sobre o tesão que homens sentem por outros homens

Napoleão Bonaparte (1769-1821) é considerado uma das figuras mais impactantes, complexas e contraditórias da história da humanidade. Ao longo de seus 51 anos, ele viveu intensamente, sendo líder militar, imperador, conquistador de terras e… de corações. Estrategista e uma figura que, dependendo da interpretação histórica, pode ser vista como herói ou tirano.

Até me assusta lembrar que uma figura historicamente tão controversa e envolvida em grandes eventos da história moderna ser poucas vezes retratado no cinema. “Napoleão”, dirigido por Ridley Scott, é apenas o quarto longa sobre o frânces, sendo que o último filme sobre ele foi lançado nos cinemas há exatos 68 anos, por Sacha Guitry.

Scott, aliás, é o primeiro não francês a dirigir um longa sobre Napoleão. Para além da exploração de um personagem tão rico, o diretor inglês embarcou no projeto por conta de uma profunda admiração que ele já admitiu publicamente por Bonaparte, mas que o longa mostra que ele pode significar um pouco mais que isso.

Napoleão não é uma cinebiografia tradicional

Apesar do filme de Hollywood ter sido lançado há menos de um mês, a compulsividade própria de nossa época já nos presenteou com uma enchente resenhas e opiniões sobre a produção hollywoodiana – algumas delas, não surpreendentemente, foram produzidas antes mesmo do filme ser lançado – . Até o momento, a maioria das críticas tem como tema duas infidelidades.

Em primeiro lugar, as infidelidades históricas do filme, um conjunto de mentiras sobre os quais não devemos estar de acordo, como a quase cômica cena das pirâmides bombardeadas, os erros nas construções das batalhas – a Batalha de Austerlitz, por exemplo, é reduzida a uma mera emboscada – ou a velha reprodução do mito de que Napoleão teria retirado de improviso a coroa das mãos do papa. Os eventos históricos são apresentados de forma apressada, por meio de saltos: do casamento com Josephine, passa-se imediatamente para o Egito; da derrota na Rússia, salta-se rapidamente para o exílio em Elba, e assim por diante.

Em segundo lugar, seria um filme infiel ao seu próprio motivo, de modo que as oscilações entre a história do amor entre Napoleão e Josephine e as grandes batalhas tornaram o filme um tanto indeciso, não sendo satisfatório nem como história de uma intimidade – pois não mostra o que efetivamente há de profundo entre os dois – , nem como um épico – pois sumariza as “batalhas mais importantes” protagonizadas pela figura histórica. Isso sem falar nos clichês sobre o “Reino do Terror” – conceito atualmente rejeitado pela maioria dos historiadores, como tem mostrado o historiador Jean-Clement Martin – , com a imagem fantasiosa milhares de pessoas saindo esfomeadas das prisões. Dessa forma, as infidelidades apresentadas no filme seriam suficientes para fazer com que as traições de Napoleão e Josephine parecessem pouca coisa.

Foi de propósito

Não acredito que os filmes num geral devam ser fiéis à história; a fidelidade, conceito que pode ser útil em outros campos da vida, não me parece uma ideia interessante para a discussão sobre as relações entre ciências e a arte. Além disso, o historiador David Bell, em “A Primeira Guerra Total”, indica que foram publicados sobre Napoleão cerca de 220 mil livros e artigos entre 1815 e 1980, número que deve dobrar se considerarmos os quarenta anos seguintes; desse modo, mesmo que evitemos as distorções mais grotescas, não seríamos capazes de estabelecermos uma narrativa única a respeito da qual deveríamos ser “fiéis” – ainda mais se tratando de um personagem que carrega tantos significados em suas costas.

No entanto, parece existir um aspecto do filme mais digno de nota do que as supostas infidelidades, o qual diz menos sobre a Era Napoleônica do que sobre a nossa época. Trata-se, precisamente, da escolha deliberada pela despolitização de Napoleão. Ao contrário do Napoleão dos Irmãos Lumière, o Napoleão de Ridley Scott é um Napoleão que não faz política e, por isso, não se enfurece com os acontecimentos cruciais da França: a morte da Maria Antonieta – que o Napoleão “histórico” não presenciou, pois ele estava no sul da França – , os discursos de Robespierre – que, no filme, estão deslocados no tempo – e a vitória em Toulon são todas encaradas por um general sempre em tom apático, desinteressado e quase blasé. No filme, após a vitória de Toulon, Napoleão faz questão de mostrar-se quase que indiferente aos acontecimentos que presencia.

Pois nessa perspectiva, Scott está muito mais interessado em admirar a figura napoleônica que criou-se no decorrer dos anos, dos livros de história eurocentrados: do homem inteligente, das estratégias, do exemplo do que é ser homem. De forma sutil, ao mesmo tempo evidente, o diretor passeia pelo personagem central como um cineasta clássico admira, cinematograficamente, sua musa. Talvez, se você procurar esse filme, notará que ele não é sobre história, muito menos de política.

O que torna tudo mais interessante – e problemático, por vezes – é que essa abordagem cinematográfica reflete um comportamento comum em homens heterossexuais. Você pode substituir Napoleão por Cristiano Ronaldo, por exemplo, e provavelmente remeterá a algum conhecido. Por outro lado, como filme, isso é meio complicado porque o personagem-título está num patamar tão grande que o “ser apaixonado” e ser também um corno só mostra o quão melhor – na visão do direção – que ele é melhor que qualquer mulher. Depois vira um gênio bélico por não superar uma traição, tal qual um proto-incel.

Dito tudo, o eclipse da política em Napoleão, assim, parece sintoma de uma época em que a profunda espetacularização da política nos faz buscar nas lideranças do passado exemplos de “homens de ambição” que conquistaram a ascensão por seus próprios méritos, deixando de lado os terrenos pantanosos da política. Na procura desesperada por ídolos a serem seguidos, não convém, por conseguinte, ter clareza sobre as complexidades e as heranças conflituosas que envolvem esse personagem histórico. Ao contrário daquele dos Irmãos Lumière, esse não é um Napoleão que incomoda Deus, mas sim é um Bonaparte visto como um, perante a homens frágeis.

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