Há artistas que se contentam em repetir fórmulas. E há aqueles que, como Chrystia Cabral, a mente por trás do projeto SPELLING, tratam cada álbum como um renascimento. Se “The Turning Wheel” (2021) foi sua ópera cósmica — meu disco preferido de 2021 e que, com o passar dos anos, só cresce em relevância e pode muito bem ser considerado o maior do século XXI —, Portrait of My Heart é o seu manifesto rock, uma viagem onde guitarras rugem, baterias estremecem e sua voz, sempre teatral, encontra novos tons entre o grito e o sussurro.
O peso de suceder uma obra-prima é considerável. The Turning Wheel não foi apenas aclamado pela crítica; ele elevou SPELLLING de projeto cult underground a um dos nomes mais originais da música contemporânea. Aquele disco era um mosaico sonoro meticuloso, com harpas celestiais, cordas dramáticas e uma produção tão impecável que cada nota parecia ter sido colocada com precisão cirúrgica. Em contraste, Portrait of My Heart chega como um terremoto criativo. Se antes Cabral nos convidava a flutuar em seu universo barroco-pop, agora ela nos agarra pela mão para dançar — ou para bater a cabeça.
A faixa-título que abre o álbum já estabelece as novas regras do jogo. A batida é urgente, as guitarras cortantes, e quando Cabral declara “I don’t belong here!”, não soa como um lamento, mas como um desafio lançado. O fascinante é observar como SPELLLING mantém sua essência — aquela mistura inconfundível de drama teatral e delicadeza — mesmo trocando pianos etéreos por distorções agressivas.
Em “Alibi”, ela mergulha de corpo e alma no território do pop-punk, com um refrão que poderia ter saído direto dos anos 2000, não fosse por aquela levada quase orquestral que insiste em emergir entre os acordes. É como imaginar uma colaboração improvável entre Paramore e a BBC Radiophonic Workshop — e que funciona surpreendentemente bem.
A genialidade do disco está em sua recusa em se conformar a um único gênero. “Waterfall” apresenta passagens que ecoam claramente The Turning Wheel, com harmonias que flutuam sem peso e mudanças de acordes que evocam a sofisticação melódica dos Beatles em seu ápice criativo.
Já “Drain” começa como uma balada soturna e introspectiva, apenas para explodir em um final psicodélico que faria os melhores momentos do Soundgarden corar de inveja. E então surge “Satisfaction”, onde as guitarras são tão pesadas e predominantes que quase relegam os outros elementos musicais a segundo plano. É um dos momentos mais ousados do álbum, ainda que soe um tanto desequilibrado — como se a produção não tivesse conseguido domar completamente toda a fúria contida na composição.

“Mount Analogue”, uma balada soulful que parece ter sido extraída diretamente da trilha sonora de um filme cult dos anos 70, com vocais que se entrelaçam em harmonia perfeita, como fios de seda em um tear musical. E no fechamento, a surpresa mais deliciosa: uma reinvenção de “Sometimes”, clássico do My Bloody Valentine. Enquanto a versão original enterrava a letra sob camadas densas de noise, aqui Cabral coloca as palavras em primeiro plano, transformando a música em um hino de vulnerabilidade crua. É um final perfeito para um disco que explora, acima de tudo, a complexidade emocional de um coração que ama, sofre e se reinventa.
A produção do álbum revela um artista em transição criativa. Em vários momentos, nota-se que Cabral ainda está se adaptando ao seu novo arsenal sonoro — as guitarras às vezes soam muito à frente na mixagem, como em “Satisfaction”, enquanto em outras faixas os elementos eletrônicos parecem competir por espaço com os instrumentos acústicos. No entanto, há uma honestidade nessa imperfeição que acaba sendo cativante. Diferente da produção imaculada de The Turning Wheel, aqui ouvimos as costuras do processo criativo, o que confere ao disco uma energia crua e imediata.
Liricamente, Cabral explora territórios mais pessoais do que nunca. Se antes suas letras eram repletas de imagens cósmicas e metáforas enigmáticas, agora ela fala diretamente ao coração. Em “Keep It Alive”, ela canta sobre a dor de ver um amor definhar, enquanto “Alibi” é um grito de libertação de um relacionamento tóxico. Essa mudança de abordagem pode surpreender fãs antigos, mas revela uma artista disposta a se reinventar emocionalmente tanto quanto musicalmente.
Musicalmente, o álbum é uma tapeçaria de referências habilmente costuradas. Dos arranjos de cordas que ecoam Kate Bush — uma referência em toda sua discografia — em seu período mais experimental, às guitarras que beberam na fonte do grunge dos anos 90, passando pelos momentos mais puramente pop que lembram Fiona Apple em sua fase mais rockeira. No entanto, Cabral nunca soa como uma imitadora — ela absorve essas influências e as filtra através de sua sensibilidade única, criando algo que é inconfundivelmente SPELLLING.

Portrait of My Heart pode não ter o acabamento impecável de The Turning Wheel, mas possui uma energia vital que compensa suas imperfeições. Há momentos em que a transição para o rock soa um pouco abrupta, como se Cabral ainda estivesse se familiarizando com essas novas ferramentas criativas. No entanto, sua coragem artística é admirável. Em uma indústria musical onde muitos artistas se contentam em repetir fórmulas comprovadas por algoritmos, Cabral opta por arriscar e explorar. E no final, é isso que permanece: a certeza de que, não importa o gênero que adote, Chrystia Cabral continua sendo uma das vozes mais fascinantes e originais da música contemporânea.
Se The Turning Wheel era um conto de fadas cósmico, Portrait of My Heart é seu capítulo rebelde — menos polido, mas igualmente cativante. O que realmente importa é que SPELLLING permanece fiel a si mesma, mesmo quando soa completamente diferente. Porque a verdadeira arte, quando é autêntica, nunca se deixa confinar por expectativas ou rótulos — ela simplesmente existe, em toda sua complexidade e beleza imperfeita. E é exatamente isso que Cabral nos entrega com este trabalho: um retrato íntimo de um coração artístico que se recusa a parar de evoluir.
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