Os 10 melhores discos nacionais de 2025
Colagem: Conecta Geek

Os 10 melhores discos brasileiros de 2025

Em um ano marcado por reinvenções estéticas, disputas de narrativa e uma cena cada vez mais diversa fora do eixo Sul-Sudeste da indústria, a música brasileira de 2025 mostrou que vitalidade não é sinônimo de consenso. Pelo contrário: os discos mais interessantes do período nasceram do risco, da fricção entre gêneros, da afirmação de identidades e de um olhar para territórios historicamente marginalizados. Esta lista não pretende encerrar debates, mas evidenciar movimentos – sonoros, políticos e afetivos – que ajudaram a definir o ano.

Entre os 10 melhores discos brasileiros de 2025, destacam-se com força artistas mulheres, pretos e propostas descentralizadas, que tensionam o mercado ao mesmo tempo, em que expandem as possibilidades da canção, do rap, do pop e de suas zonas híbridas. De Gaby Amarantos transformando tradição e delírio em manifesto pop amazônico, passando pela contundência de Jadsa, pela sagacidade narrativa de FBC e BK’, até os gestos coletivos e experimentais que atravessam trabalhos como os de Josyara, Urias e Ebony, o recorte aponta para um Brasil musical múltiplo, inquieto e impossível de reduzir a uma única estética.

Como toda boa lista de fim de ano, esta também carrega suas ausências – e elas merecem ser celebradas. Ficam como menções honrosas “Veras I”, do Vera Fischer Era Clubber com minhas músicas de pixtinha preferidas no ano; “Handycam”, de Sophia Chablau & Felipe Vaqueiro, pela delicadeza em movimento; “Bunmi”, de Stefanie, pela força lírica e política; “Coisas Naturais”, de Marina Sena, que reafirmou a artista como uma das mais consistentes criadoras de sua geração; sem esquecer o som de uma juventude que chega com fome, como o EP “Endofloema” da Tubo de Ensaio e “Entre Quatro Paredes”, do Nigéria Futebol Clube. Juntos, esses discos ajudam a contar a história de um 2025.

10 – MPC – Papatinho

Capa de MPC
Divulgação.

Em meio ao debate sobre a criminalização do funk e da cultura negra periférica, “MPC” (Música Popular Carioca), novo álbum do DJ e produtor Papatinho, surge como um manifesto artístico que resgata as origens do funk carioca e reafirma a força histórica do gênero. Ao longo de 11 faixas, o disco revisita a sonoridade dos bailes dos anos 1990, com forte influência do Miami Bass, conectando passado e presente sem recorrer apenas à nostalgia. Para isso, Papatinho reúne nomes pioneiros e artistas centrais da cena atual, como MC Carol, Fernanda Abreu, Anitta, Kevin o Chris, L7nnon, BK, Xamã e Stevie B, criando encontros que evidenciam a continuidade e a versatilidade do funk. O álbum também homenageia figuras essenciais do gênero, como MC Marcinho, e destaca o funk melody, os raps e as melôs que ajudaram a popularizar o estilo no Brasil. Com produção moderna e espírito celebratório, MPC apresenta o funk como música pop brasileira em constante reinvenção, reafirmando seu valor cultural para além das periferias do Rio de Janeiro.

Leia também: Crítica | Papatinho mostra a força do legado do funk em ‘MPC (Música Popular Carioca)’

9 – Dominguinho – João Gomes, Jota.pê e Mestrinho

Os 10 melhores discos brasileiros de 2025
Divulgação

Em “Dominguinho”, João Gomes, Jota.pê e Mestrinho transformam o encontro entre o forró arrasta pé, a MPB e a música nordestina contemporânea em um dos discos mais consistentes de 2025. O álbum se destaca pela delicadeza dos arranjos, pelo protagonismo da sanfona e das harmonias acústicas e pela forma como valoriza a canção, apostando menos em fórmulas radiofônicas e mais na emoção e na escuta atenta. João Gomes amplia seu repertório para além do piseiro, Jota.pê imprime lirismo e sofisticação às melodias, enquanto Mestrinho funciona como elo entre tradição e modernidade, ancorando o projeto em raízes do forró. Dominguinho é um disco coeso, elegante e afetivo, que dialoga com diferentes públicos sem perder identidade e reafirma a força da música brasileira quando ela aposta em encontros genuínos.

8 – Carranca – Urias

Capa de Carranca
Divulgação

Em “Carranca”, a cantora Urias entrega um dos trabalhos mais contundentes e bem acabados do pop brasileiro em 2025, consolidando sua identidade artística, conceito e maturidade. O álbum aprofunda a estética sombria e eletrônica que marca sua trajetória, misturando pop, funk, trap e música experimental para discutir temas como poder, desejo, vulnerabilidade e resistência, semprepartindo de uma perspectiva pessoal e política.

Com uma produção sofisticada, Urias constrói um disco coeso, pensado como obra completa, em que som, imagem e discurso caminham juntos. Carranca se destaca não apenas pela ousadia estética, mas por reafirmar o lugar de Urias como uma das vozes mais relevantes da música pop nacional.

7 – AVIA – Josyara

Os 10 melhores discos brasileiros de 2025
Divulgação

marcado por escolhas estéticas precisas, “AVIA” evidencia a maturidade artística de Josyara ao apostar em um instrumental que sabe quando recuar e quando se impor. Em muitos momentos, os arranjos são tímidos, silenciosos, criando espaço para o violão e para a interpretação delicada da cantora; em outros, surgem de forma pontual sobretudo quando ganha a presença dos instrumentos de sofros, ampliando o impacto emocional das canções sem excessos.

Esse jogo entre contenção e presença reforça a força das letras, que abordam afetos, deslocamentos e estados internos com poesia e clareza. AVIA é uma obra de escuta atenta, que valoriza o detalhe e a sutileza, consolidando como um dos lançamentos mais elegantes e relevantes da música brasileira em 2025.

6 – Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer – BK’

Os 10 melhores discos brasileiros de 2025
Divulgação

Em “Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer”, BK’ entrega um dos discos mais ambiciosos e bem resolvidos do rap nacional em 2025, expandindo sua narrativa pessoal para um retrato mais amplo de afetos, contradições e memórias da vida urbana. Com produção sofisticada e bases que dialogam com soul, funk e MPB, o rapper constrói letras confessionais, equilibrando introspecção e crítica social sem abrir mão da musicalidade.

Um dos pontos altos do álbum é o resgate da obra de Evinha, cuja voz e repertório ganham novo fôlego ao serem apresentados a uma geração que pouco conhecia a cantora, ampliando o alcance histórico do disco para além do hip-hop. Coeso, denso e, ao mesmo tempo, acessível, o trabalho reafirma BK’ como um dos rappers mais artisticamente ambiciosos da cena e justifica sua presença entre os grandes lançamentos do ano.

5 – A Cor Mais Próxima do Cinza – NAIMACULADA

Crítica | Naimaculada é a nova cara da vanguarda paulistana e 'A Cor Mais Próxima do Cinza' é a prova
Marcos Hermes/Divulgação

O disco de estreia da NAIMACULADA, “A Cor Mais Próxima do Cinza”, é uma síntese potente e caótica da experiência metropolitana de se viver em São Paulo. Posicionando-se como um dos lançamentos mais ambiciosos e representativos de 2025. O quinteto, com uma média de idade na casa dos 20 anos, canaliza a fumaça, o trânsito e a multidiversidade da metrópole em um rock progressivo atravessado por pós-punk, jazz experimental e a herança da vanguarda paulistana.

Canções como “Epítome” e o épico quase sinfônico “Luz/Se” – uma alegoria do encontro das linhas de metrô – constroem um caos organizado que evoca a energia de Black Midi e a inventividade dos primeiros trabalhos de Black Country, New Road, sem abrir mão de uma identidade local e periférica expressa em letras contundentes, como em “A Arte É Culpada”.

O álbum captura a fúria de suas performances ao vivo, equilibrando explosões instrumentais com momentos de refinada simplicidade, como na melódica “Eu Sei”. Um trabalho que anuncia, com estrondo e maturidade, uma nova geração da vanguarda.

4 – KM2 – Ebony

Os 10 melhores discos brasileiros de 2025
Divulgação

Disco que marca um novo patamar na trajetória de Ebony, “KM2” se impõe como um dos trabalhos mais contundentes do rap brasileiro no ano ao combinar atitude, discurso direto e uma estética bem definida.

Ao longo das faixas, a rapper articula vivências periféricas, afirmação pessoal e crítica social sobre bases que transitam entre o trap e o drill, sempre com presença vocal dominante. Canções como “Triplex” se destacam pela força do texto e pela forma como condensam o tom confessional e combativo do álbum, enquanto outras faixas reforçam a narrativa de deslocamento, crescimento e conquista sugerida no título.

3 – Assaltos e Batidas – FBC

Crítica | Sem nostalgia barata, FBC resgata o rap político em 'Assaltos e Batidas'
Ilustração: Keko Animal

O sétimo álbum de FBC, “Assaltos e Batidas”, consolida o rapper mineiro como uma das vozes mais contundentes do rap nacional de sua geração. Fugindo da fórmula do sucesso, ele revisita o boombap dos anos 1990 com produção de Coyote Beatz, Pepito e DJ Cost, incorporando samples, scratches e beats que dialogam com a tradição do hip-hop e a realidade brasileira, mas com maturidade e ousadia próprias.

As faixas transitam entre crítica social, política e histórica – como em “A Voz da Revolução” e “Quem Sabe Onde Está Jimmy Hoffa?” –, abordando luta de classes, violência policial e precarização do trabalho, sem perder a musicalidade e a força dos refrões.

O disco, que vem acompanhado de curta-metragem e ilustrações de Keko Animal, alia narrativa visual e sonora, reforçando a potência multimídia do projeto. Com diversidade sonora e um olhar contemporâneo sobre questões urgentes, Assaltos e Batidas é o principal lançamento do rap político brasileiro do ano conquista, com justiça, o 3º lugar em nosso ranking dos 10 melhores discos do ano, sendo ainda o favorito da editoria entre lançamentos de rap no país e fora dele.

2 – Big Buraco – Jadsa

Crítica | Jadsa mergulha num 'big buraco' e ressurge com o melhor disco de 2025 até aqui
Capa big buraco/Divulgação

Quatro anos após o ótimo “Olho de Vidro”, Jadsa retorna com “big buraco”, um álbum que combina pop, samba, neo-soul e hip-hop com arranjos sofisticados e improvisados, resultando em canções ao mesmo tempo urgentes, emocionantes e tecnicamente brilhantes. Faixas como “tremedêra” e “no pain” mostram sua capacidade de transformar melodias aparentemente simples em mantras sobre resistência e sentimento, enquanto a produção orgânica e as colaborações elevam cada faixa a um diálogo vivo entre músicos e voz.

Com letras que transitam entre o doce e o ácido, o solar e o sombrio, Jadsa constrói uma narrativa consistente, revisitando influências de Elis Regina e tropicalismo sem perder contemporaneidade. Big buraco é, assim, um marco da MPB em 2025, sendo o 2º colocado em nossa lista e o álbum preferido da editoria até a chegada do grande vencedor do ano.

1 – Rock Doido – Gaby Amarantos

Capa de Rock Doido
Cris Vidal / Divulgação

Com “Rock Doida”, Gaby Amarantos entrega o que talvez seja o disco mais emblemático de 2025, consolidando-se não apenas como voz da música paraense, mas como referência para entender a efervescência cultural periférica do Norte do país.

O álbum resgata o tecnobrega dos anos 2000 – um som que vivi intensamente na adolescência, quando até me via na fase de rockeiro chato –, e o atualiza com criatividade, irreverência e uma produção impecável.

Faixas que exploram a dança do treme, as aparelhas e toda a energia que dá nome ao disco transformam o trabalho em um verdadeiro manual do que é a música popular amazônica e o pop brasileiro. Entre resgate e inovação, Rock Doida se impõe como o grande vencedor do nosso ranking, capaz de unir história, identidade regional e potência pop em uma obra que, com certeza, será estudada e celebrada nos próximos anos.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.