Oscar 2026 | Críticas dos indicados a Melhor Curta de Animação
Arte de capa: Conecta Geek

Oscar 2026 | Críticas dos indicados a Melhor Curta de Animação

Na edição deste ano, a disputa pelo Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação apresenta uma diversidade de abordagens técnicas e narrativas que merecem análise mais detida. São cinco obras que, cada qual a seu modo, exploram as possibilidades expressivas do meio animado – da aquarela artesanal de Florence Miailhe às sofisticadas construções em computação gráfica, passando pelo traço tradicional russo de Konstantin Bronzit e pelas experimentações formais da dupla canadense por trás de “Madame Tutli-Putli”.

Mais do que histórias, esses filmes oferecem reflexões sobre identidade, memória, ganância e sobrevivência, utilizando a animação como parte indissociável do que desejam comunicar. O que se segue é uma tentativa de compreender as escolhas, os acertos e os tropeços. Essas pequenas obras dizem sobre o tempo que vivemos – e sobre a arte que escolhemos para representá-lo.

The Three Sisters

The Three Sisters acontece em uma ilha isolada onde vivem as três irmãs concebidas por Konstantin Bronzit. O animador russo, que agora acumula sua terceira indicação ao Oscar, constrói um microcosmo tão ordenado quanto claustrofóbico com mulheres indistinguíveis em suas mortalhas, casas idênticas em fachada, personalidades que parecem ter sido moldadas no mesmo molde. É um mundo de repetições, onde a única diferenciação possível vem dos corpos – uma mais alta, outra mais pesada – como se a individualidade fosse concessão demais.

A chegada do hóspede fortão, uma espécie de Popeye bronco e viril, funciona como um vírus nesse ecossistema tão rigidamente estabelecido. Seu odor, sua rudeza, sua presença magnética desperta algo que as irmãs talvez nem soubessem possuírem. As mortalhas dão lugar a vestidos coloridos, os cabelos se soltam, e personalidades antes monótonas ganham contornos próprios. Bronzit parece perguntar: a identidade feminina precisa de um catalisador masculino para florescer? A pergunta fica no ar, mas a resposta que o filme sugere é no mínimo problemática – especialmente quando o desfecho, travestido de humor, escancara uma visão que parece reduzir a sororidade a um elo frágil demais para resistir à chegada do outro.

Forevergreen

Delicadeza. Essa palavra define a abertura de Forevergreen. O filhote de urso que pisoteia uma muda de árvore e é salvo da morte pelos galhos que se esticam em seu socorro estabelece, sem palavras, uma relação de reciprocidade entre o animal e o vegetal que poderia conduzir a reflexões sofisticadas sobre nossa interdependência com o mundo natural.

Nathan Engelhardt e Jeremy Spears, no entanto, preferem o caminho da alegoria explícita. O filhote é a humanidade, a árvore é… bem, depende de quanto se está disposto a aceitar. Inicialmente, parece ser a própria natureza, generosa mesmo quando pisoteada. Mas quando o corvo – mensageiro clássico da morte – apresenta ao urso os prazeres artificiais do mundo industrial, e a árvore segue ali, imóvel, oferecendo chances infinitas de redenção, o contorno teológico se desenha com força incômoda. Somos apresentados a um Deus cristão travestido de tronco e folhas. Paciente, sacrificado, infinitamente perdoador. É bonito, é bem desenhado, mas é também um proselitismo que enfraquece o que poderia ser uma fábula ecológica memorável.

Retirement Plan

John Kelly acerta ao transformar em comédia uma angústia universal. A sensação de que a vida verdadeira está sempre por começar. Seu protagonista, narrado com o tom certo por Domhnall Gleeson, descobre que passou décadas esperando o momento indicado para existir plenamente – e que talvez não haja momento certo, apenas momentos desperdiçados.

O que eleva Retirement Plan acima da crônica existencialista é o tratamento formal que Kelly dá à sua ideia. A montagem rápida, a edição sonora precisa, as decisões de roteiro que revelam como nossos sonhos são volúveis e nossas habilidades, limitadas. Há uma verdade incômoda na forma como trocamos de paixões como quem troca de canal, sempre buscando a próxima atividade que dará sentido às nossas vidas, sem nunca nos entregarmos completamente à que está diante de nós. O curta não inventa a roda, mas a faz girar com uma energia contagiante – e é exatamente por isso que ressoa tanto.

The Girl Who Cried Pearls

Chris Lavis e Maciek Szczerbowski já haviam demonstrado, em Madame Tutli-Putli, uma capacidade incomum de criar mundos que são, ao mesmo tempo, concretos e oníricos. Agora, com The Girl Who Cried Pearls, eles levam essa habilidade ao extremo ao construir uma metanarrativa sobre o próprio ato de contar histórias.

A moldura é simples, um avô conta à neta curiosa sobre sua infância miserável e a garota que chorava pérolas – uma imagem tão poderosa quanto ambígua. O comerciante ganancioso que explora a menina vê apenas o valor de mercado das lágrimas; o avô, que viveu a mesma história, enxerga algo completamente diferente.

A animação sublinha essa dualidade com maestria visual. O passado é desenhado com traços severos, quase agressivos, que remetem à dureza da sobrevivência; o presente suaviza as formas, como se o tempo pudesse amaciar até as memórias mais duras. A fábula sobre a ganância se desdobra em uma reflexão sobre como as mesmas palavras podem significar coisas radicalmente distintas dependendo de quem as ouve – e do que escolhe ver.

Butterfly

Florence Miailhe entrega, em Butterfly, o tipo de filme que justifica a existência da animação como forma de arte. Ao escolher a aquarela para contar a história do nadador Alfred Nakache – judeu argelino que competiu nas Olimpíadas de 1936 e sobreviveu a Auschwitz –, a diretora estabelece uma identidade entre técnica e tema que poucas obras alcançam.

O nado borboleta, como explica o filme, é o mais difícil justamente por exigir que todos os membros trabalhem em conjunto, numa ondulação que precisa ser, ao mesmo tempo, potente e flexível. Não é difícil enxergar a metáfora: Nakache precisou aprender a se dobrar sem quebrar, a encontrar na água o único lugar onde a perseguição não podia alcançá-lo. Miailhe constrói seu protagonista com traços que parecem emergir das pinceladas líquidas, como se ele fosse, ele próprio, um subproduto da água que o define.

É na solidão das piscinas que este homem encontra paz – uma paz que o filme nos permite compartilhar, mesmo sabendo tudo o que veio antes. A poesia, aqui, não está nas palavras, mas na forma como a imagem dança diante de nossos olhos, lembrando-nos que a arte também pode ser um ato de sobrevivência.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.