Pânico 7 se tornou mais um capítulo de 'Facada', tudo que a franquia sempre tirou sarro
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Pânico 7 se tornou mais um capítulo de ‘Facada’, tudo que a franquia sempre tirou sarro

A piada interna deixou de ser piada. Durante três décadas, os fãs de Pânico riam de uma construção metalinguística brilhante: os filmes “Facada”, aquela franquia fictícia dentro da franquia real, representavam tudo o que o slasher poderia ter de mais industrial, mais descartável e sem alma. Eram a versão hollywoodiana dos massacres de Woodsboro, adaptações baratas que transformavam o trauma de Sidney Prescott em entretenimento de pipoca, sequências infinitas produzidas apenas porque a primeira tinha dado dinheiro. Pois bem, Pânico 7 chegou aos cinemas e hoje Facada não é mais a sátira, mas sim o filme que estamos assistindo.

A constatação é tão óbvia quanto dolorosa para qualquer espectador que acompanhou a franquia desde 1996. O sétimo filme é exatamente aquilo que a série sempre usou como chacota. Para compreender a dimensão do fiasco, é preciso voltar ao conceito que tornou Pânico único. Wes Craven e Kevin Williamson criaram um comentário em tempo real sobre o próprio gênero. Os filmes Facada funcionavam como alívio cômico e, ao mesmo tempo, como alerta. Eram a materialização do medo de qualquer cineasta sério: o momento em que a arte vira produto.

Pânico 7 se tornou tudo que a franquia sempre tirou sarro
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Pânico 7 é, em todos os aspectos, o Facada 7 que os personagens fictícios assistiriam com desdém. A trama segue Sidney Prescott (Neve Campbell), agora Sidney Evans, tentando proteger sua filha Tatum (Isabel May) de um novo Ghostface. O problema é que o assassino, desta vez, conta com um recurso tão absurdo quanto sintomático: Inteligência Artificial (IA) generativa para criar deepfakes de personagens mortos. Stu Macher (Matthew Lillard) retorna como uma alucinação digitalmente envelhecida. Roman Bridger (Scott Foley) também. Dewey Riley (David Arquette) aparece em flashbacks “interativos”. Um desfile de fantasmas renderizados por computador, uma versão tenebrosa – e não no bom sentido – do que a franquia poderia oferecer.

A ironia é tão densa que se poderia cortá-la com uma faca (perdoem o trocadilho). Pânico sempre zombou de sequências que recorrem a artifícios desesperados para manter o interesse. Agora, o próprio filme faz exatamente isso.

O mais trágico, no entanto, é o que acontece com a metalinguagem – a alma da franquia. Em “Pânico 4”, os filmes Facada eram onipresentes. As aberturas falsas, os personagens discutindo a série, a maratonada no final. Tudo aquilo funcionava porque havia um distanciamento crítico. Os personagens podiam analisar as regras do terror, apontar os clichês, prever os twists. O público era convidado a participar do jogo intelectual.

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Em Pânico 7, essa camada simplesmente desaparece. Ou pior: é substituída por uma autorreferência vazia, que olha para o passado com tanta intensidade que esquece de criar algo novo. A franquia, que um dia ensinou o público a desconfiar de sequências intermináveis, agora implora para que elas continuem existindo.

Talvez a dimensão mais perturbadora de Pânico 7 seja a que extrapola a tela e atinge o público. A franquia Facada, nos filmes, sempre teve seus defensores ferrenhos. Em “Pânico 5”, os assassinos eram exatamente isso: fãs dos filmes Facada, indignados com o rumo que a franquia tomara após o quinto filme. Eles queriam “corrigir” os erros, “honrar” o legado, produzir um novo capítulo à altura dos originais – ainda que para isso precisassem matar. Era uma crítica ao fandom tóxico, à incapacidade de aceitar que as histórias podem terminar, à crença delirante de que o amor por uma obra autoriza seus seguidores a decidir seu destino.

Hoje, esse fã ficcional existe de verdade. As redes sociais estão repletas de defensores de Pânico 7 que repetem, com convicção, os mesmos argumentos dos assassinos de Pânico 5. Chamam as críticas negativas de “injustiça”. Celebram o retorno de Neve Campbell como se a presença da atriz, por si, redimisse qualquer problema de roteiro. Ignoram que a própria Campbell, com todo seu talento, não consegue salvar um texto que a trata como ícone em vez de personagem.

A verdade é que os filmes Facada, dentro do universo de Pânico, já tinham dado o que tinham que dar em termos de enredo há muito tempo. Em Pânico 4, os personagens já tratavam a franquia fictícia como piada velha. Depois de Facada 1-3, que ainda mantinham alguma conexão com os “eventos reais” de Woodsboro, os filmes seguintes se separaram completamente da história original – exatamente como Pânico 5 e “Pânico 6” fizeram com o arco das irmãs Carpenter, e como Pânico 7 tenta fazer agora com a filha de Sidney. A diferença é que, quando a ficção imita a ficção, o resultado é vazio.

Os fãs de Facada no mundo real – sim, eles existem, e estão comentando em cada postagem sobre o filme – não percebem que estão repetindo o comportamento dos assassinos que dizem odiar. Defendem com unhas e dentes uma produção industrial, celebram participações especiais de atores originais como se fossem relíquias sagradas, ignoram a fragilidade do longa em nome da “nostalgia”. Se m Pânico 5, os vilões matavam para defender a integridade da franquia Facada. Hoje, os fãs matam a integridade de Pânico para ter mais um capítulo da franquia.

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Seria cômico se não fosse preocupante. Porque o metacomentário sempre foi uma via de mão dupla: enquanto rimos dos personagens fictícios que levam Facada a sério demais, estamos, nós mesmos, levando Pânico a sério demais. A diferença é que Pânico, nos bons tempos, sabia rir de si. Pânico 7 não ri de nada – apenas repete fórmulas com a seriedade de quem acredita estar fazendo arte, na verdade, está apenas faturando.

Restam as perguntas que a própria franquia nos ensinou a fazer: para onde os filmes Facada vão a partir daqui? Para onde Pânico vai a partir daqui? A resposta, infelizmente, é a mesma que Randy Meeks daria antes de ser interrompido por uma facada: lugar nenhum. Quando uma franquia perde a capacidade de se reinventar, quando a metalinguagem vira muleta, quando os fãs defendem cegamente qualquer produto com a máscara do Ghostface, o ciclo se fecha. Facada deixou de ser piada. Facada virou realidade.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.