Love, Death & Robots volta com sua 4ª temporada trazendo uma mistura de ficção científica, horror e reflexões filosóficas e… gatos. Se no texto anterior analisamos os cinco primeiros episódios, agora mergulhamos nos outros cinco, que exploram desde a fé até a dominação tecnológica.
Gólgota

O único episódio em live-action da temporada carrega um peso simbólico desde o título: Gólgota foi à colina onde Jesus foi crucificado. Aqui, porém, o sagrado assume uma forma ainda mais inesperada: uma golfinha que, para uma civilização alienígena, é uma espécie de Messias.
O protagonista é um padre humano em contato com esse povo alienígena, e a narrativa critica a incapacidade da humanidade de aceitar o divino fora de suas convenções. Os humanos, segurando cartazes como “Deus não é peixe”, repetem a mesma rejeição que fizeram com Jesus.
O episódio tem um humor ácido, lembrando “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, especialmente ao usar golfinhos como símbolo de sabedoria superior e do fracasso humano com a Terra. A banalização do sagrado também é tema, como quando o padre solta um casual “Jesus” ao ver a golfinha, sem qualquer reverência.
Tudo isso é interessante, mas, curiosamente, arrastado. Diferente de Douglas Adams, o episódio não acertou no timming do seu humor.
O Grito dos Dinossauros

Este episódio transporta a lógica dos coliseus romanos para uma arena futurista, onde guerreiros nus e tatuados, montados em tricerátops, lutam para entreter a aristocracia interplanetária. A elite, distante e mascarada, consome o espetáculo de sangue como diversão — literalmente bebendo o sangue dos gladiadores.
A dinâmica muda quando uma guerreira e um tiranossauro geneticamente modificado se recusam a continuar o massacre. A conexão entre eles gera uma microrrevolução, ecoando o tema da temporada: a união entre marginalizados contra os opressores.
A crítica é direta: mesmo colonizando a galáxia, a humanidade repete os mesmos ciclos de poder e violência. O discurso final da protagonista sobre como a elite rouba até as memórias dos oprimidos reforça a ideia de que, na vida real, também somos manipulados a esquecer quem somos.
Como Zeck Entendeu a Religião

Produzido pelo estúdio Titmouse, este episódio mistura ação intensa com uma reflexão inesperada sobre fé. A animação em 2D, com traços que lembram rotoscopia, acompanha um esquadrão na Segunda Guerra Mundial em missão para destruir uma igreja ocupada por nazistas envolvidos em ocultismo.
O protagonista, inicialmente ateu, dispara contra uma cruz — e esse ato acidentalmente destrói uma criatura demoníaca. O momento sugere que a fé pode emergir do absurdo e do caos, como na ideia de que “nas trincheiras não há ateus”.
Esse, definitivamente, foi o episódio que mais me gerou sensasões conflitantes. Adorei a animação, provavelmente uma das minhas preferidas da série. Animação linda e muito fluída, mas a construção argumentativa é digna de uma fanfic de crente, sobretudo na construção do protagonista ateu. Sabe aquela história de Jesus no porta-malas? Se você conhece essa história, essa é uma versão mais sangrenta e bem animada, mas o cerne e moral, segue a mesma ideia.
Dispositivos Inteligentes, Donos Idiotas

Um dos episódios mais leves da temporada, mas não menos crítico. Aqui, objetos inteligentes narram suas próprias histórias, expondo a burrice humana ao criar dispositivos que não sabemos usar direito.
Uma ducha, a câmera entediada, a privada questionando sua existência e a vibradora fofoqueira são alguns dos personagens que satirizam nossa dependência da tecnologia. Quanto mais interconectados os objetos ficam, menos nos relacionamos com eles — a não ser para reclamar.
O humor surge das personalidades dos dispositivos, como a máquina de waffles que fala baixinho, desiludida por sua inutilidade. O episódio dialoga com o tema recorrente na ficção científica: o que acontece quando damos consciência às coisas, mas perdemos a nossa?
Pois Ele Se Move Sorrateiramente

O último episódio da análise é uma joia visual, com animação 2D que lembra gravuras antigas. A história se passa em 1757, em um hospício onde um poeta escreve com seu próprio sangue nas paredes. Ele é visitado por Lúcifer, que exige sua alma em troca de sucesso artístico – uma clara metáfora sobre a indústria cultural e as concessões que artistas fazem.
A reviravolta vem com uma sociedade secreta de gatos, que protegem humanos perdidos. A referência ao Egito Antigo, onde gatos eram divindades, contrasta com a visão atual dos felinos como animais distantes.
A metalinguagem é forte: será que o poeta realmente vivenciou tudo aquilo ou é apenas um delírio criativo? A animação da Polygon Pictures elevam o episódio, que encerra a temporada com uma reflexão sobre o preço da arte e… gatos.
Todos os episódios da série estão disponíveis na Netflix.
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