Crítica | Embaixo da Luz de Neon e o corpo como rascunho
Apple TV/Divulgação

Crítica | Embaixo da Luz de Neon e o corpo como rascunho

Andrea Gibson sabia que a permanência é uma ilusão – e talvez por isso tenha passado a vida inteira rabiscando versos na pele. Embaixo da Luz de Neon, documentário de Ryan White não é apenas o registro dos últimos capítulos dessa existência, mas a constatação de que, para alguns artistas, a obra nunca cabe inteira no papel. Transborda. Sangra. Ri.

O filme tinha tudo para ser mais um na longa lista de documentários que transformam câncer em narrativa de superação embalada por piano emotivo. Mas White parece ter entendido o recado da própria poesia de Gibson: a vida não cabe em molduras prontas. Ao acompanhar a poeta e sua companheira, Megan Falley, pelos corredores de hospitais, pelas madrugadas insones e pelos raros momentos de trégua em que o corpo resolve colaborar, a câmera não busca lições de moral nem epifanias baratas. Busca, antes, a textura do instante.

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É deliberadamente imperfeita na forma como as imagens se organizam. White não esconde os ruídos – aspirador ligado ao fundo de uma conversa séria, riso nervoso antes de um exame, o silêncio constrangedor quando as palavras fogem. É nesses vãos que Gibson se revela mais poeta: não quando declama seus versos para a câmera, mas quando, entre uma xícara de chá e outra, solta uma observação tão precisa sobre a própria fragilidade que poderíamos jurar ter ouvido um poema inédito.

A diretriz que Gibson repetia como mantra – “por que escrever algo que passe por cima da cabeça de alguém?” – encontra no documentário uma tradução visual. Não há experimentalismos vazios nem metáforas rebuscadas. A câmera de White senta à mesa, ouve, espera. Filma o amor como quem filma a luz entrando pela janela: sem pressa, sabendo que ela vai mudar de lugar em alguns minutos.

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Mas Embaixo da Luz de Neon não é ingênuo a ponto de acreditar que a intimidade basta. Ao intercalar as imagens do presente com arquivos empoeirados da juventude de Gibson nas quadras de basquete do Maine e nos palcos empoeirados da poesia falada, o filme costura uma reflexão mais ampla sobre o que significa tornar-se quem se é. A pessoa que enfrenta a metástase aos 50 anos é a mesma que, décadas antes, já desafiava os roteiros esperados para corpos como o seu. A diferença é que, agora, o adversário mudou de nome.

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O longa também escapa da armadilha de transformar Gibson em símbolo ou mártir. A poeta erra, duvida, se irrita com a própria fragilidade. Em alguns momentos, a generosidade exigida pelo cinema documental parece pesar – afinal, ser filmada enquanto o corpo falha é um exercício brutal de exposição. Mas há uma cumplicidade silenciosa entre White e suas protagonistas que transforma essa exposição em testemunho, nunca em espetáculo.

A certa altura, Gibson brinca com um filtro de celular que simula o envelhecimento. As duas, ela e Falley, se veem velhas, enrugadas, absurdamente vivas numa tela de 15 centímetros. A cena dura segundos, mas carrega o peso de todos os futuros que o corpo insiste em não garantir. É nesse tipo de imagm que Embaixo da Luz de Neon encontra sua razão de existir. Não como documento fúnebre, mas como prova de que, mesmo quando a tinta acaba, ainda é possível escrever com o que resta.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.