Adaptação do romance de ficção científica escrito por Andy Weir, o filme nos apresenta uma jornada um tanto desesperadora no espaço para salvar a Terra do que aparenta ser nosso fim iminente, já que o Sol está perdendo o seu brilho. No meio de todo esse desespero – inicialmente um pouco confuso – encontramos um astronauta inesperado e um vínculo curioso, também pouco esperado, com uma criatura alienígena de outra galáxia. É justamente essa conexão que traz o charme e o coração de Devoradores de Estrelas.
Acompanhamos as facetas de Ryland Grace (Ryan Gosling), um professor do ensino fundamental e ex-biólogo molecular que acorda no espaço sem memória de quem é ou de qual é a sua missão dentro da espaçonave Hail Mary. Para piorar sua situação, dois tripulantes são encontrados sem vida durante a viagem. Em um primeiro momento, o filme não nos leva a questionar muito o motivo desse ocorrido, mas posteriormente apresenta a resposta definitiva: tratou-se apenas de um acidente infeliz.

Nesse contexto, Grace começa a se familiarizar com sua situação e com o ambiente ao redor, demonstrando uma impressionante capacidade de autorreconhecer suas habilidades técnicas. O filme apresenta sua estrutura narrativa de forma simples: ele se passa tanto no presente – com Grace ativo em sua missão – quanto em momentos do passado, por meio do uso de flashbacks. Esses retornos permitem contextualizar o que está acontecendo com o mundo naquele momento, intercalando-se ao longo da narrativa.
O editor Joel Negron constrói uma montagem acelerada, porém organizada. Mesmo com a dinâmica de idas e vindas entre presente e passado, o ritmo não se torna confuso nem faz o espectador perder o interesse pelos acontecimentos. Através dos flashbacks, o filme confirma que Grace vai, pouco a pouco, recuperando lembranças de sua vida e de sua identidade, sem que isso prejudique o andamento de sua experiência no espaço sideral.
As cenas na Terra também são igualmente interessantes. Elas contam com um elenco de personagens bastante competente, liderado por Eva Stratt (Sandra Hüller), que surge como uma líder fria e direta ao ponto, mas que revela também uma sensibilidade peculiar. Temos ainda Steve (Lionel Boyce), que compartilha diversas cenas cômicas ao lado de Grace.
Ao longo desses flashbacks, o filme também oferece um breve vislumbre de quem eram os tripulantes falecidos da Hail Mary, interpretados por Ken Leung e Milana Vayntrub. Assistir a esses curtos momentos de interação e observação que Grace compartilhou com eles traz uma certa melancolia, sobretudo quando temos consciência do destino que aguarda ambos os personagens.

Mas o coração de Devoradores de Estrelas acontece mesmo no presente. Próximo da estrela Tau Ceti, Grace entra em contato com uma nave alienígena e somos introduzidos a Rocky (James Ortiz) – nomeado assim graças à aparência rochosa do pequeno alienígena, além de servir como uma referência fofa ao filme “Rocky”, que possui certo apego dentro da própria narrativa.
Tanto Rocky quanto Grace logo percebem que compartilham a mesma missão em Tau Ceti. Os organismos alienígenas que estão devorando o Sol – chamados de Astrophages – também estão consumindo as estrelas de diversas galáxias, e a estrela do planeta de Rocky também está incluída nesse “cardápio”. A partir daí, passamos a acompanhar o desenvolvimento da parceria entre os dois personagens enquanto estudam o cenário que os cerca. Embora a relação deles siga caminhos relativamente previsíveis e sem grandes surpresas, ainda assim é um desenvolvimento divertido de acompanhar. Grace, bastante desprovido de coragem apesar de sua inteligência, vai se soltando cada vez mais ao lado de Rocky, que também passou por situações extremamente semelhantes às dele.
É nesse encontro entre os personagens que o roteiro de Drew Goddard ganha tração. O texto não se prende a explicações científicas excessivamente complexas, optando por tornar esses conceitos mais acessíveis para abrir espaço também ao drama que envolve os personagens e suas relações. Durante as diversas sessões de estudo e observação que Grace compartilha com Rocky, o aspecto científico está presente, mas o foco permanece nos laços que os dois constroem em torno do que seria o “trabalho” deles.
Seja por meio de gestos e danças cômicas, seja através de palavras e piadas bobas, o relacionamento entre os dois se torna um ponto muito interessante de se observar. Afinal, tanto Grace quanto Rocky desconhecem os costumes da espécie um do outro, e o filme sugere que a comunicação — e a disposição de sair de nossos próprios hábitos para compreender o outro — pode ser, possivelmente, algo capaz de salvar nossas vidas.
Não posso deixar de elogiar a atuação de Ryan Gosling. Seu carisma é extremamente forte e ele consegue explorar bem todas as nuances de Grace, um personagem cheio de camadas. Ele é relutante, esperto e extremamente inteligente, mas tenta parecer descontraído falando demais – algo que, no fundo, funciona como uma forma de esconder suas inseguranças e seu desespero.
Apesar da direção um tanto acelerada da dupla Phil Lord e Christopher Miller, Devoradores de Estrelas também reserva breves momentos de contemplação da magnitude do universo. Essas passagens são acompanhadas por belos visuais, por vezes até psicodélicos, refletindo o quão estranho e fascinante o espaço sideral pode ser.
Foi com esse filme que tive minha primeira experiência em uma sala IMAX, e devo dizer que as desventuras de Grace e Rocky acabaram me envolvendo tanto que nem cheguei a reparar na grandiosidade visual que tanto se associa ao formato. Ainda assim, senti claramente o impacto na amplitude do design de som e na trilha sonora – composta por Daniel Pemberton.
Embora ela não traga necessariamente algo revolucionário dentro das trilhas de filmes espaciais, apresenta composições bastante poderosas, com interessantes mesclas de instrumentos e estilos. A trilha consegue transmitir muito bem os sentimentos de Grace – seja a solidão, a confusão ou até mesmo a esperança – e foi, sem dúvida, um dos aspectos que mais me tocaram no filme. O design sonoro dos efeitos também tem bastante força, além de uma ótima utilização de músicas licenciadas.

Os efeitos especiais de Devoradores de Estrelas também são bastante competentes. Rocky, por exemplo, é essencialmente um aglomerado de pedras, mas conta com animações muito bem executadas. Seus trejeitos estranhos, muitas vezes pouco compreensíveis para nós, trazem um charme alienígena muito particular e contribuem bastante para o carisma do personagem. Rocky e sua espaçonave acabam sendo os elementos mais fantasiosos do filme, já que, na maior parte do tempo, a obra mantém uma abordagem relativamente pé-no-chão em sua ambientação espacial.
Os planetas e o espaço sideral são extremamente belos de se observar e apresentam o nível de realismo necessário para o espectador acreditar naquele universo. Até mesmo Rocky, apesar de envolver efeitos em CGI, foi concebido com o apoio de efeitos práticos, utilizando um animatrônico construído por Neal Scanlan. Assim, mesmo sendo o elemento mais fantástico da narrativa, o personagem ainda possui um realismo bastante convincente, resultado de um trabalho muito competente da equipe de produção.
Ainda assim, mesmo sendo um filme de ficção científica relativamente realista em sua ambientação espacial, Devoradores de Estrelas não conquista o público apenas por seus aspectos técnicos – embora eles também sejam extremamente importantes para a composição da obra. O que realmente faz o filme funcionar é o seu clima bastante acolhedor, sustentado por um forte vínculo entre os personagens, bem construído e cheio de carisma, mas que também sabe recorrer a momentos dramáticos quando necessário para manter sua força emocional.
O filme trata a situação crítica do universo com seriedade em momentos muito bem posicionados na narrativa. Aos poucos, somos levados a compreender que, dentro da ambientação da história, a humanidade está à beira de um verdadeiro apocalipse. Mesmo assim, o tom do filme nunca entra em conflito consigo mesmo; pelo contrário, esses elementos se harmonizam muito bem.

No fim, tudo converge de forma circular para a jornada de Grace, mostrando o quanto ele cresceu ao longo da história. Durante essa trajetória, ele encontra dentro de si uma coragem que parecia quase invisível, reconhece melhor suas próprias facetas e constrói uma amizade extremamente importante para sua vida. Essa relação acaba transformando completamente quem ele é e o leva a perceber, de forma simples e profunda, a razão do seu próprio viver.
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