O PCismo é um fracasso? Entenda motivos que podem fazer a PlayStation abandonar a plataforma
PlayStation/Divulgação

O PCismo é um fracasso? Entenda motivos que podem fazer a PlayStation abandonar a plataforma

Recentemente, muito se tem especulado que a Sony estaria mudando suas estratégias e poderia até parar de lançar seus jogos na plataforma PC. Não faz muito tempo que Jason Schreier, jornalista da Bloomberg, comentou em um podcast que a empresa estaria caminhando nessa direção.

Após essas especulações revisitarem, muitos começaram a se perguntar: o “PCismo” é um fracasso?

Fracasso talvez seja exagero, mas há certos pontos que ajudam a entender o porquê desse possível movimento da Sony. Neste artigo, vamos analisar por que a empresa foi para o PC e quais motivos podem estar fazendo a Sony, aparentemente, querer mudar de rota.

Gestão Jim Ryan

Em meio à pandemia da COVID-19, no ano de 2020, a Sony se viu em um cenário complicado. A empresa havia acabado de lançar seu mais novo console — o PlayStation 5 — e precisava pensar na nova geração de videogames enquanto lidava com incertezas financeiras e um futuro imprevisível.

Naquele momento, os custos de desenvolvimento de jogos praticamente quadruplicaram. Títulos AAA passaram a ter um ciclo de vida (em termos de vendas) de apenas 2 a 3 anos — a sensação era de que, após esse período, o jogo já havia vendido tudo o que tinha para vender. Ao mesmo tempo, a empresa acompanhava o “boom” dos jogos como serviço (GaaS), com exemplos como Warzone, Fortnite e Apex Legends.

Foi nesse contexto que o então chefe do PlayStation, Jim Ryan, precisou agir. Buscando formas de aumentar os lucros, ele adotou estratégias pouco usuais para a Sony. Entre elas, levar seus exclusivos para o PC — algo que muitos consideravam impossível até então.

Esse movimento tinha um objetivo claro: criar um novo ciclo de vendas para os jogos já lançados e apresentar o ecossistema PlayStation a um novo público. Assim, a empresa poderia aumentar sua margem de lucro e expandir sua base de usuários.

Aproveitando o grande número de jogadores no PC, Ryan também acreditava que essa estratégia poderia incentivar parte desse público a migrar para o console, motivado pelos exclusivos.

Em agosto de 2020, a Sony lançou Horizon Zero Dawn para PC, marcando oficialmente o início dos ports do PlayStation Studios na plataforma.

Divulgação: Sony Interactive Entertainment

Motivos para o “fracasso” no PC

Durante esse período, a chegada dos jogos do PlayStation ao PC sempre deixou a impressão de que algo não estava funcionando completamente. Não existe um único motivo para isso, mas sim uma combinação de fatores que ajudam a explicar essa percepção.

Vendas abaixo do esperado

Embora alguns títulos como The Last of Us, God of War e Uncharted tenham alcançado bons números, eles ainda ficaram muito abaixo das vendas registradas nos consoles.

Além disso, jogos como Sackboy: A Big Adventure, Ratchet & Clank: Em Uma Outra Dimensão e Returnal tiveram desempenho fraco no PC — especialmente considerando seus altos custos de produção.

Com isso, a ideia de prolongar o ciclo de vendas e gerar receita adicional ao longo dos anos não se concretizou como esperado.

Desvalorização do PlayStation 5

A tentativa de atrair jogadores de PC para o ecossistema PlayStation, especialmente por meio da venda de hardware, acabou tendo o efeito oposto.

À medida que os jogos começaram a chegar cada vez mais rápido ao PC — muitas vezes com melhorias gráficas —, o incentivo para adquirir um PlayStation 5 diminuiu. O jogador de PC passou a não ver mais necessidade de comprar o console, já que poderia acessar os mesmos títulos em sua plataforma.

Pirataria

Outro ponto sensível nessa estratégia é a pirataria. O PlayStation 5 possui um ambiente fechado e controlado, o que dificulta — ou ao menos atrasa — práticas de pirataria. Já no PC, esse controle é muito mais difícil, e a pirataria ocorre com maior facilidade.

Como o principal foco do PlayStation Studios são jogos single player, isso pode representar perda direta de receita.

Custos de otimização

A Sony também enfrentou dificuldades na otimização de seus ports. No PlayStation 5, o desenvolvimento é feito para um único hardware, o que facilita o processo. Já no PC, é necessário adaptar o jogo para uma enorme variedade de configurações — diferentes placas de vídeo, processadores e sistemas.

Esse processo exige mais tempo, investimento e aumenta o risco de problemas técnicos no lançamento.

Rejeição à criação de conta na PSN

Outro fator relevante foi a rejeição de parte do público de PC à obrigatoriedade de criar uma conta na PSN para jogar. Casos como o de Helldivers geraram forte reação negativa, incluindo episódios de “review bombing”, quando jogadores avaliam o jogo negativamente como forma de protesto.

Além disso, há países que não possuem acesso oficial a PSN, o que impede usuários de criarem contas e acessarem os jogos.

PCismo é um fracasso?

Dizer que essa estratégia foi um fracasso completo talvez seja exagerado. Houve pontos positivos — como o sucesso de Helldivers, que mostrou que lançamentos simultâneos (day one) de jogos como serviço no PS5 e PC podem funcionar muito bem. No entanto, do ponto de vista estratégico, é perceptível que os resultados não atingiram totalmente as expectativas e acabaram impactando o valor percebido do ecossistema PlayStation 5.

Diante disso, parece plausível que a Sony esteja repensando sua abordagem. Uma possível direção seria manter jogos multiplayer no PC desde o lançamento, enquanto títulos single player voltariam a ser exclusivos do console — reforçando o valor do hardware e impulsionando suas vendas. Especialmente após a saída de Jim Ryan, em 2024, esse tipo de mudança estratégica se torna ainda mais possível.

Por enquanto, tudo continua no campo da especulação. Mas, olhando para o cenário atual, essa parece uma direção coerente para o futuro da marca.

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apaixonado por games, cultura pop e boas histórias. Focado em análises críticas e reflexões sobre cultura pop/nerd em geral, busco ir além da superfície, explorando o impacto do entretenimento na cultura.