O quadrinho Kabuki, publicado em junho de 2025 pela Pipoca e Nanquim, tem inspiração no teatro japonês e na vivência trans. A HQ, que surgiu dentro de um olhar sensível tal vivência, originou-se do curta-metragem homônimo, o primeiro formato da história. Em ambas as produções, Tiago Minamizawa e Guilherme Petreca unem escrita poética e ilustração aprazível em uma narrativa composta por várias fases e estações – assim como se dá na realidade da pessoa transgênero.
Em entrevista ao Conecta Geek, Minamizawa, autor nipo-brasileiro e também idealizador do projeto, contou um pouco sobre como se juntou ao ilustrador brasileiro Guilherme Petreca, em um projeto que relaciona a cultura do teatro japonês com uma temática importante e complexa, mas com uma narrativa singular sobre preconceito, aceitação e transcendência através da arte.
Kabuki nasce de uma urgência, a necessidade de mobilizar a sociedade para que pessoas trans parem de ser assassinadas no Brasil, país que mais mata pessoas trans do mundo.
A inspiração para Kabuki

A princípio, foi a apresentação da artista trans Anohni, em 2015, no espetáculo Anohni and the Ohnos, que primeiro chamou a atenção de Minamizawa para o tema. Dois anos depois, ele também se impactou com a morte de Dandara, mulher trans brutalmente assassinada em Fortaleza (Ceará), em 15 de fevereiro de 2017.
Conecta Geek: Qual a inspiração para criar a história de Kabuki?
Tiago Minamizawa: Decidir contar esta história através do teatro Kabuki foi inspirado por uma apresentação que eu assisti da cantora trans Anohni com Yoshito Ohno no SESC Vila Mariana em 2015. O filho de Kazuo Ohno dançava butoh segurando um boneco do pai enquanto Anohni cantava, e isto me inspirou a desenvolver a jornada de uma pessoa trans encenada por bonecos.
Segundo o autor e diretor, o ponto mais desafiador foi o processo de captação de recursos. “Kabuki é realizado em animação stop motion, uma técnica de alta dificuldade tanto pela produção artesanal dos bonecos, quanto pelos desafios de animá-los. No entanto, a parte que mais alongou o tempo de produção foi a captação de recursos para viabilizar cada etapa.“
Kabuki: Primavera, Outono, Inverno, Verão
Conecta Geek: Qual o objetivo principal na divisão da narrativa em quatro atos, representando as quatro estações, e como se deu a ideia?
Tiago Minamizawa: Cada estação do ano serve como uma metáfora da fase de vida da personagem, relacionando a protagonista com sua própria natureza.
A disposição das emoções da personagem relacionada às estações é um artifício narrativo que faz sentido. Conforme vamos conhecendo Kabuki, ela se mostra dividida por sua própria identidade. Ao mesmo tempo em que anseia por se tornar ela mesma, o medo imposto pelo peso da tradição a faz se esconder atrás de diversas máscaras.
O tipo de peça japonesa kabuki também parece encaixar bem ao assunto, uma vez que nesta forma cênica, há o uso de onnagata, – homens que interpretam papéis femininos – o que foi utilizado com destreza para sugerir o jogo de identidade e questionar a representação de papéis de gênero. Na composição como um todo, fica bem clara a multiplicidade da vivência trans, e há inclusive a desmistificação de que pessoas transgênero precisam passar pela Cirurgia de Redesignação Sexual (CRS) para serem completas.
A questão trans é muito complexa e abordar o tema envolveu uma pesquisa profunda sobre este universo, incluindo o diálogo com diversas pessoas trans na equipe de produção que compartilharam suas histórias. Esta multiplicidade da obra deriva desta vivência e, embora seja difícil retratar todas elas, tentamos ao máximo dialogar da forma mais ampla possível.
Kabuki: sucesso da animação e adaptação para os quadrinhos

Em um caso atípico, a obra literária, por assim dizer, teve origem da produção audiovisual, uma animação em curta-metragem. Sobretudo, a ideia de trazer a história para um formato diferente teve um objetivo primordial. “Eu e o Guilherme Petreca já estávamos trabalhando no curta-metragem quando decidimos transpor a narrativa para HQ. Nós acreditamos que esse formato amplia a discussão temática para outros públicos e também, através do texto escrito e ilustrações, dialoga de forma mais direta com o leitor.”
Com a criação de Kabuki, Minamizawa e Petreca exploram sua relação com a cultura japonesa, já recorrente em seus projetos profissionais. Sobre isso, Minamizawa declarou:
Sou neto de japoneses e tenho desenvolvido diversos projetos que têm como pano de fundo a cultura japonesa. Isso se deve a um resgate que venho buscando das minhas próprias origens e identidade, uma forma de retratar um Japão que povoa o meu imaginário desde muito novo e também uma homenagem aos meus antepassados. Isso foi de encontro com a paixão do Guilherme Petreca pela cultura japonesa e formou essa nossa parceria artística que vêm gerando tantos frutos.
Kabuki estreou em novembro de 2024, passando por diversos festivais de cinema entre seu ano de lançamento e 2025. A produção é vencedora do Prêmio Abraccine e do Prêmio Canal Brasil, e conquistou também três prêmios no Festival de Brasília 2024.
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