Charlie (Robert Pattinson) e Emma (Zendaya) ensaiam a primeira dança do casamento. A professora os corrige, os posiciona, repete os passos. Até que, em determinado momento, Charlie dispara: “Um casamento é performático por natureza”. A frase ecoa para além do salão. Porque o que Kristoffer Borgli constrói em seu terceiro longa não é apenas um filme sobre os limites da intimidade, mas sobre a coreografia da violência – ou melhor, sobre como a violência, nos Estados Unidos (EUA), é antes de tudo uma performance ensaiada até o esgotamento.
Essa crítica contém spoilers.
Não, não há mortes violentas em O Drama. Ninguém empunha uma arma, nenhum corpo é alvejado. E é justamente por isso que o filme fala sobre a cultura dos massacres. A grande virada de Borgli – que os textos promocionais insistem em esconder, mas que o filme expõe já no primeiro terço – é a confissão de Emma; ela planejou um massacre escolar em sua adolescência. Seus amigos chamam a tentativa de “psicopata”, e ela é imediatamente julgada, excluída, transformada em outra pessoa aos olhos de todos.
A cultura americana tem uma relação perversamente estética com massacres. Há um repertório de imagens que se repete – fitas de isolamento, rostos em cartazes de velório, o silêncio das câmeras de segurança – e também um repertório narrativo: o monstro entre nós, a falha no sistema de saúde mental, o grito dos excluídos que ninguém ouviu. O que Borgli faz, é deslocar essa estética do ato para o antes. Emma não é uma atiradora. É uma noiva que, no jantar de véspera do casamento, revela um passado que a transforma instantaneamente em pária. O massacre não acontece, mas o dispositivo cultural já está montado: o julgamento sumário, a impossibilidade de redenção, a linha que, uma vez cruzada, não pode ser descruzada.
É aí que o filme se torna inquietante de uma maneira que seus criadores talvez não tenham previsto – ou talvez tenham, e isso o torna quase intolerável. Borgli insiste em tratar seus personagens – Emma, assombrada por um quase-ato; Charlie, que descobre não saber mais se ama a mulher que está prestes a desposar – com uma simpatia que beira a autodefesa. E a autodefesa, como se sabe, é o gênero predileto de uma certa tradição cinematográfica americana que aprendeu com Woody Allen a transformar escândalo pessoal em dilema filosófico.
O que Borgli herda de Allen não é apenas o humor nervoso, o intelectualismo neurótico, os interiores suntuosos onde pessoas terríveis debatem seus sentimentos. É, sobretudo, uma estrutura de empatia seletiva: a ideia de que o artista pode exigir do público uma compreensão que ele próprio parece não estender a suas criações. Allen fez carreira pedindo que olhássemos para suas criaturas mais abjetas com a complexidade com que ele, supostamente, olhava para si. Borgli, ao que tudo indica, faz o mesmo – e em um filme cujo centro é um ato de violência que a cultura americana aprendeu a coreografar como espetáculo.
O Drama é, ele mesmo, um filme sobre coreografia. O casal ensaia a dança. Ensaiou também, ao longo de dois anos de relacionamento, o mecanismo de apertar o “botão de reinicialização” sempre que algo ameaçava a estabilidade. Charlie diz que ama Emma porque ela transforma “drama em comédia”. É a performance como salvação: se a violência puder ser reenquadrada, talvez deixe de existir. Mas o filme não permite que esqueçamos o que está em jogo. A confissão de Emma é o momento em que a coreografia falha, em que o ensaio desaba porque a vida real insiste em entrar em cena.

Os EUA são um país que transformou o massacre em espetáculo de audiência. Há um protocolo midiático para cada novo tiroteio em escolas, um manual de imagem para as homenagens, um consenso moral sobre quem merece ser lembrado e quem merece ser apagado. Ao construir um filme sobre um quase-massacre que nunca acontece, Borgli inverte os termos: não estamos diante da repetição exaustiva da violência, mas do momento anterior, o da possibilidade, o da confissão, o do julgamento prévio. É um território mais ambíguo.
A pergunta que O Drama faz – “o que acontece com alguém que é pego antes do ato?” – A cultura americana sabe muito bem o que fazer com o perpetrador após o massacre: há o linchamento moral, a cobertura exaustiva, o documentário no streaming. Mas o quase-perpetrador? Esse habita uma zona cinzenta que Borgli explora sem nunca resolver. Emma é culpada? É vítima? O filme não responde, e essa recusa é, ao mesmo tempo, sua força e seu calcanhar de Aquiles.
A força, porque nos obriga a habitar a ambiguidade. O calcanhar, porque a empatia de Borgli pelos personagens – que alguns insistem em chamar de “desafiadora” – começa a soar menos como um gesto de complexidade moral e mais como uma justificativa para o imperdoável.
O Drama é, em última instância, um filme sobre o que fazemos com o que não pode ser dito. A confissão de Emma é o indizível que irrompe no jantar, e a reação de seus amigos – o horror imediato, o afastamento – é o roteiro que a cultura já escreveu para ela. Mas o filme também é, em seus melhores momentos, uma reflexão sobre como esse script é ensaiado muito antes de qualquer massacre. A performance não começa com o ato, mas com a possibilidade do ato. E a estética do massacre, nos EUA, é uma estética do ensaio: os passos são repetidos até que ninguém mais se lembre de que há um corpo no centro da coreografia.
Borgli filma tudo isso com uma elegância que beira o mórbido. A fotografia escura de Arseni Khachaturan transforma a casa do casal em um cenário de teatro onde a luz nunca chega de verdade. A montagem de Joshua Raymond Lee faz com que cada olhar, cada hesitação, cada gole de vinho pareça carregado de subtexto. E os atores encarnam essa dupla condição de performer e refém com uma intensidade que o roteiro, por vezes, não alcança.
O problema, e talvez seja esse o maior mérito de O Drama disfarçado de fracasso, é que o filme nunca decide se quer ser cúmplice ou testemunha. Ao se esgueirar até a beira das linhas que a cultura americana traçou para o discurso sobre violência – quem pode falar, quem pode ser perdoado, quem merece ter sua história contada –, Borgli parece menos interessado em atravessá-las do que em fotografá-las de um ângulo que o favoreça. E aí, talvez, esteja o gesto mais americano de todos: transformar a dor em performance, a culpa em estética, o quase-crime em entretenimento estrelado por dois astros da geração.

Há, porém, uma ausência que atravessa o filme sem ser mencionada: a questão racial. Emma e Charlie circulam por um mundo de classe média alta onde a violência é tratada como um incidente íntimo, uma falha de caráter, um episódio a ser digerido no âmbito do casal e do círculo de amigos. Mas o filme nunca pergunta o que teria acontecido se Emma não fosse uma mulher negra. E ausência dessa camada soa como um vazio estratégico. Borgli coreografa uma encenação da culpa sem jamais confrontar temas levantados a partir de seu ponto de virada.
O filme sobrevive à queda, sai andando, mas algo dentro dele parece ter sofrido uma torção. Essa torção é o que resta quando a coreografia falha – quando o ensaio termina e, em vez do massacre, só sobra o silêncio de quem não sabe mais o que dizer. Esse é o lugar mais honesto que O Drama consegue ocupar: não o da resposta, mas o da hesitação. Em um país que coreografou a violência até a tornar um gênero narrativo, hesitar pode ser o único gesto que ainda não foi ensaiado.
Leia outras críticas:



















Deixe uma resposta