Por entre as paisagens áridas de uma comunidade mineradora no Chile de 1982, O Olhar Misterioso do Flamingo constrói um universo que, à primeira vista, parece regido por uma lógica quase fabular: uma doença desconhecida se espalha e, segundo a crença popular, pode ser transmitida pelo olhar entre duas pessoas apaixonadas. Esse ponto de partida, que poderia facilmente descambar para o alegórico superficial, é tratado com uma delicadeza incomum pelo diretor estreante Diego Céspedes, que encontra na perspectiva de uma pré-adolescente o eixo emocional e narrativo da obra.
A escolha de Lidia (Tamara Cortés), uma protagonista de 12 anos é uma estratégia estética. É através dela que o filme articula sua principal tensão: o embate entre a fantasia e a brutalidade concreta do mundo adulto. No início, a menina observa tudo com uma curiosidade quase lúdica, como se estivesse montando um quebra-cabeça cujas peças não precisam, necessariamente, fazer sentido imediato. A violência que permeia aquele ambiente – seja ela física, simbólica ou estrutural – surge, nesse primeiro momento, filtrada por um olhar que ainda não reconhece plenamente suas consequências.
Mas o filme não se interessa em preservar essa inocência. Ao contrário, ele a desmonta gradualmente.
Do ponto de vista técnico, isso se reflete em escolhas muito específicas de linguagem cinematográfica. A fotografia de Angello Faccini, por exemplo, começa com cores mais saturadas, quase vibrantes, sugerindo um mundo ainda aberto à imaginação. À medida que a narrativa avança, essas cores vão se tornando mais opacas, mais frias. Essa transição cromática traduz visualmente o processo interno da protagonista, que passa a compreender – ainda que de forma incompleta – a dureza do que a cerca.
A câmera também acompanha essa transformação. Nos primeiros momentos, há um uso frequente de enquadramentos mais abertos, que situam a personagem em relação ao espaço e permitem que o espectador compartilhe de sua sensação de descoberta. Com o avanço da trama, os planos se tornam mais fechados, mais íntimos, quase claustrofóbicos. É como se o mundo, antes vasto e cheio de possibilidades, começasse a se fechar sobre ela.
Esse estreitamento visual dialoga diretamente com o tema central do filme: a violência como forma de sobrevivência e, paradoxalmente, como manifestação de amor.
Naquela comunidade, marcada pelo medo de uma doença desconhecida (claramente inspirada na crise da AIDS), a violência surge como resposta ao desconhecido. Pessoas são isoladas, corpos são evitados, olhares são temidos. O que poderia ser interpretado como crueldade pura revela, aos poucos, uma camada mais complexa: trata-se de um mecanismo de autopreservação. A ignorância alimenta o medo, e o medo, por sua vez, legitima atitudes que ferem, excluem e desumanizam.
No entanto, o filme não se limita a denunciar esse ciclo. Ele também investiga como, dentro desse mesmo ambiente hostil, surgem formas alternativas de afeto.
A chamada “família escolhida” – composta majoritariamente por travestis – ocupa um papel central nessa construção. São personagens que, à margem da estrutura tradicional, desenvolvem seus próprios códigos de cuidado. A violência se manifesta, por exemplo, na forma de proteção: afastar alguém de um perigo, impor limites, resistir a um mundo que insiste em negar sua existência.

Essa ambiguidade é um dos maiores méritos do roteiro escrito por Céspedes. Em vez de apresentar o amor como algo puro e imaculado, o filme o insere num contexto de escassez, medo e conflito. Amar, nesse universo, não é um gesto simples; é uma decisão que envolve risco. E, muitas vezes, esse risco exige respostas duras.
A trilha sonora contribui de maneira decisiva para essa construção. Em determinados momentos, há uma presença inesperada de elementos que remetem ao western – um gênero tradicionalmente associado a territórios inóspitos e códigos morais ambíguos. Essa escolha não é arbitrária. Ela reforça a ideia de que aquele espaço, embora distante dos desertos norte-americanos, também é um território de disputa, onde regras são constantemente negociadas e a sobrevivência depende de uma leitura atenta do ambiente.
Outro aspecto que merece destaque é o uso pontual do realismo mágico. Diferente de abordagens mais explícitas, aqui o fantástico surge de maneira sutil, quase como uma extensão do olhar da protagonista. A tal “transmissão pelo olhar”, por exemplo, nunca é totalmente confirmada ou negada. Em vez disso, o filme se interessa pelo impacto dessa crença sobre as relações humanas.
Há uma sequência em particular – envolvendo a visualização do “olhar misterioso” – que sintetiza bem essa proposta. A cena flerta com o surreal, utilizando efeitos visuais que buscam traduzir uma sensação. Para o espectador, pode parecer ambígua; para a protagonista, é absolutamente concreta. Esse descompasso entre percepção e realidade é fundamental para entendermos como a fantasia vai se desfazendo.
E ela se desfaz não de maneira abrupta, mas por acúmulo.
Cada gesto de rejeição, cada silêncio, cada ausência contribui para que a menina comece a perceber que o mundo adulto opera sob regras que ela ainda não domina. A doença, que antes era apenas uma ideia distante, ganha rostos, nomes, histórias. E, com isso, perde também qualquer resquício de abstração. A personagem de Flamingo (Matías Catalán) é a maior representante disso. Ela é lida como uma deusa, um demônio e até mesmo um fantasma – não à toa ela dá o título do filme.

Esse processo culmina em uma sequência final que evita tanto o melodrama quanto a frieza excessiva. Há tristeza, sem dúvida, mas também uma espécie de serenidade. Não se trata de uma resolução, no sentido clássico, mas de um reconhecimento: a protagonista entende que não pode mais olhar para o mundo da mesma forma.
O Olhar Misterioso do Flamingo propõe uma reflexão que vai além de seu contexto histórico. Ele nos convida a pensar sobre como lidamos com o desconhecido, como construímos nossas formas de afeto e, sobretudo, como a violência pode se infiltrar até mesmo nos gestos que pretendem proteger.

O que existe é um olhar – agora menos ingênuo, mas não completamente endurecido – que insiste em tentar compreender. E, nesse esforço, o filme reconhece a fragilidade humana sem a transformar em espetáculo.
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