Na arquibancada do documentário brasileiro, entre torcidas que berram palavras de ordem e outras que se recolhem em silêncio contemplativo, Miguel Antunes Ramos escolheu um lugar peculiar: o da visita protocolar. Munido de uma câmera educada e de uma paciência beneditina – foram quase dez anos de convivência –, ele adentrou o quarto dos meninos que pregam a palavra do Senhor antes mesmo de aprenderem a amarrar o cadarço do sapato social. O resultado, intitulado A Voz de Deus, é uma peça de ourivesaria visual que brilha justamente porque se recusa a cortar a carne que expõe. É um filme belo, delicado, mas que carrega consigo a covardia de quem tem medo de sujar as mãos no barro turvo da complexidade humana.
O roteiro, ou a deliberada ausência de um, cria uma dramaturgia do cotidiano que por vezes beira o sublime. Vemos Daniel Pentecoste alisando o paletó puído diante do espelho, a barba por fazer contrastando com os DVDs empoeirados de uma era analógica que já não lhe pertence mais. A montagem sobrepõe o menino prodígio de cinco anos – a voz fina trovejando sobre pecados que ainda não compreendia – ao adolescente de olhar esquivo que precisa decidir se vota em Lula enquanto o pai distribui santinhos de Bolsonaro na praça. Essa costura temporal é executada com uma fluidez que beira a elegância novelesca, sem jamais cair no melodrama.
Do outro lado do tablado geracional, o pequeno João Vitor Ota surge como a versão upgrade da fé espetacularizada. Se Daniel gravava DVDs que encalhavam, João Vitor entende o algoritmo do YouTube como quem decora o Salmo 23. A câmera de Antunes Ramos o flagra em seu habitat natural; o tripé, a ring light improvisada, o merchandising da camiseta da própria grife. A direção é competente ao ponto de fazer o espectador esquecer que há um diretor ali; o problema é que essa competência parece terceirizada para uma assessoria de imprensa celestial. Em nenhum momento o filme se permite a indelicadeza de um close que interrogue o cansaço nos olhos de uma criança que não teve infância porque precisou pastorear adultos.

E aqui reside o cerne da questão que torna A Voz de Deus uma experiência tão fascinante quanto frustrante. A trilha sonora incidental é econômica, quase monástica, deixando o som ambiente das casas humildes e dos cultos distantes preencher o vazio – uma escolha de montagem que reforça o realismo documental. No entanto, essa postura de “não intervenção” trai o próprio potencial crítico do material. O filme se torna refém daquilo que Daniel e João Vitor querem mostrar. Quando Daniel menciona, quase como quem conta uma anedota banal, que já urinou nas calças de nervoso diante da plateia, o documentário engole seco e muda de assunto. A psicologia do trauma infantil, o peso de ser ungido antes da puberdade, a solidão do púlpito mirim: tudo isso fica do lado de fora da sala de montagem, como se fosse indelicado entrar com os sapatos sujos de teoria.
É curioso notar como o filme dribla a sociologia com a habilidade de um ponta-direita evangélico. A eleição de 2018 acontece, o Brasil se estilhaça, e o pai de Daniel se entrega ao bolsonarismo messiânico. Contudo, a gênese política de Daniel – um garoto que, nadando contra a correnteza do conservadorismo familiar e eclesiástico, decide apoiar a esquerda – é tratada como um mistério insondável. É uma decisão da divina providência ou do roteiro? O espectador jamais saberá.

A fotografia capta a textura da parede descascada, o brilho do gel no cabelo do menino, mas não ilumina os porões da exploração da fé infantil. Quando o Conselho Tutelar aparece no horizonte do noticiário nacional proibindo o trabalho de outro “missionário mirim”, a questão parece latejar fora da tela, ignorada pela complacência narrativa.
Há um momento simbólico que sintetiza essa postura. É a cena do “encontro de gerações”, onde Daniel e João Vitor dividem brevemente o quadro. É a única vez que eles contracenam, uma espécie de passagem de bastão da velha mídia física para a nova era dos influencers da fé. A cena é bonita, um tanto protocolar, e estranhamente asséptica. O filme não pergunta a Daniel se ele sente inveja do sucesso digital do menino; não pergunta a João Vitor se ele tem medo de envelhecer e perder a graça fofa que garante os likes. A Voz de Deus os escuta, mas se recusa a interpretar o que foi dito nas entrelinhas. É um documentário que observa a liturgia sem nunca questionar a teologia que a sustenta.
Talvez o maior mérito de Miguel Antunes Ramos seja justamente o seu maior defeito. Ele evita o escárnio da esquerda e a caricatura do preconceito. Ele humaniza onde muitos desumanizam. Mas ao se posicionar na arquibancada da cumplicidade, o cineasta esqueceu que o jornalismo e o documentário de fôlego também se fazem com a coragem do desconforto. A Voz de Deus é um filme que entra no quarto dos meninos na ponta dos pés para não acordar o monstro que dorme debaixo da cama. E a nós, resta a sensação de que vimos um retrato muito bem emoldurado, porém, desesperadamente incompleto.
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